Conversa de táxi

Uma conversa em um táxi para saber um pouco mais a respeito de um homem que percorre a cidade.

Andar de táxi e conversar com o motorista é um tanto banal. E quem está ao volante tem histórias para contar, certamente.

Quando pedi a Eduardo para perfilá-lo, ele recebeu a notícia com certo espanto depois de alguns esclarecimentos a respeito do processo:

– O que eu tenho de interessante?

Apesar dessa surpresa inicial, aceitou ser a personagem retratada aqui. Eduardo Valentin tem 48 anos e é taxista há mais de uma década, precisamente 16 anos. Nascido em São Paulo, na periferia da Zona Sul, em uma já distante década de 1960, ele nunca viveu muito distante de Interlagos, onde mora ainda hoje.

– Cresceu bastante isso aqui – ele conta dentro do Táxi, um Volkswagen Crossfox comprado em 2011. Antes, trabalhava com um Fiat Palio velho de guerra, que já lhe rendia serviços há pelo menos uns bons cinco anos.

Conversar com ele sobre a história da região – na qual também vivo – é uma provável garantia de descobrir informações interessantes e passar alguns minutos imaginando como era no passado.

– Era bem diferente. Antes a gente fazia tudo aqui na rua. Eu jogava bola direto com a molecada da vizinhança. Mas cresceu demais [a região] agora.

Volta e meia, passando por algum terreno baldio, por algum condomínio já finalizado ou ainda em construção, ele aponta e comenta o que havia ali antes. Não é incomum passarmos por antigas fábricas, já inexistentes há algum tempo.

– Ali era uma [fábrica]– ele diz em um determinado momento, apontando para algum ponto, que, por distração, acabo deixando passar sem prestar atenção.

Sobre a infância, ele começa:

– Eu morei em uma casa pequena, com meus pais e meu irmão mais novo. A gente nunca teve muito dinheiro, mas também não passava necessidade. Estudei a vida inteira em escola pública, mas naquele tempo ter diploma, fazer faculdade não era tão importante. Então eu terminei o Ginásio e fui procurar emprego.

Enquanto o táxi segue pela Avenida Washington Luís, ele continua:

– Meu primeiro emprego foi em um mercadinho, ajudando o dono. Eu passei um tempo lá, não lembro quanto. Depois eu mudei para uma transportadora, como motorista. Foi o emprego em que eu passei mais tempo. Fiquei por lá até começar a trabalhar como taxista.

– E como você começou? – pergunto, quando o carro para em um farol vermelho.

– Depois de um tempo, eu cansei de trabalhar lá na transportadora. Era um lugar bem ruim – diz ele olhando para o banco de trás, onde estou sentado, e dando uma risada.

O farol abre e ele também segue com a história.

– Aí apareceu a oportunidade de ser taxista e eu achei que valia à pena. Consegui a licença e comprei o carro.

– Você lembra qual era? – pergunto.

– Lembro sim. Era uma Santana – ele responde.

– Você já é taxista há um bom tempo? – pergunto.

– Já são 16 anos, se eu não perdi a conta. – ele diz, e faz uma pausa. – Isso mesmo, 16 anos. É muito tempo…

Minha “corrida” é dividida em duas partes, ida e volta, com uma pausa para uma consulta médica no meio. Próximo ao consultório, Eduardo tem dois passageiros para uma “corrida” enquanto eu não volto. Peço para conhecê-los, se possível. Ele concorda, e, pouco depois, me apresenta dois clientes fiéis, “seu” Valdir e “dona” Lurdes. Ele tem 82 anos e ela, 74.

– Prazer em conhecer – digo, me apresentando rapidamente a eles.

Pergunto aos dois a respeito de Eduardo.

– Nós sempre andamos com ele – diz “dona” Lurdes.

– Ele é educado e atencioso, então nós fazemos questão de andar com ele – complementa “seu” Valdir.

O casal tem quatro filhos, mas me abstenho de perguntar mais detalhadamente. Valdir conta que os dois foram apresentados a Eduardo por uma filha, e, desde então, são “fregueses” dele.

– Nós ligamos pra ele sempre que precisamos porque o Eduardo nos trata muito bem. É atencioso, espera quando a gente demora um pouco mais – diz Lurdes.

Terminada minha consulta, retorno ao táxi para continuar a conversa durante a volta. Eduardo tem um filho de 19 anos, aprovado recentemente em um curso de computação pelo SISU.

– Ele passou no começo do ano passado. Eu não sabia muito bem como esse ENEM funcionava, mas dei incentivo. Acho que educação é muito importante, mas eu nunca tive essa consciência quando tinha a idade dele. Ele já sabe disso, e é bem dedicado, aproveita as oportunidades. Eu também insistia bastante com a escola. Ele vem de escola pública, e eu ‘pegava no pé’ porque sabia que era importante estudar, ser um bom aluno.

– E como você está lá na faculdade de jornalismo? – ele me pergunta.

Respondo sobre os trabalhos e provas que ainda faltam.

– Você ainda não arrumou estágio, não é?

– Não – respondo.

– Acho que nem deveria correr muito para isso – ele diz.

Pergunto a ele a respeito da profissão. O que ele acha de ser taxista.

– É um trabalho puxado por causa do trânsito principalmente. Às vezes eu chego em casa bem cansado, porque passar o dia inteiro na rua não é fácil.

– E como é a rotina?

– Eu saio de manhã. Geralmente lá pelas cinco ou seis já tem uma ou outra “corrida” marcada. Se não tem, eu saio procurando alguma coisa. Eu paro lá pelas quatro da tarde, mas tem dia que vou até umas seis horas.

Ele trabalha principalmente com “corridas” agendadas, já que conseguiu montar uma rede de contatos extensa devido à boa relação que tem com os passageiros.

– Tem gente que já anda comigo há vários anos. Não tenho motivo para ser grosso com o passageiro, porque eu dependo disso. Então eu trato bem, com educação, para poder manter o contato.

Ele conta que, no entanto, nem todos os seus colegas de profissão têm esse pensamento ou agem assim.

– Mas aí tem uns que são diferentes. No ponto onde eu trabalhava antes, tinha taxista que chegava mal-humorado, emburrado, com a cara amarrada. E aí ele até faz a corrida, ganha o dinheiro, mas em uma dessas, perde o cliente. Porque trata mal, é grosseiro, e aí ninguém mais quer fazer corrida com o sujeito.

Parando em um farol vermelho, ele vira para trás e continua contando a respeito desse assunto.

– Tem uns [taxistas] que não fazem corrida curta. O passageiro chega, fala que a viagem não é muito longa e o taxista ignora. Inventa uma desculpa qualquer pra não fazer ou então trata mal o cliente. Mas isso não vale à pena.

O farol abre novamente.

– É o que eu falei: em uma dessas, ele fica marcado, ninguém mais quer andar. Não perde só um cliente, mas vários. E também perde uma corrida fácil. Às vezes, quando a viagem é curta, dá pra fazer outra corrida no caminho, o que já é um pouco mais de dinheiro.

E conta como lida com essas situações.

– Eu não ignoro corrida. Se aparece alguma, já aceito: ou para ganhar mais um cliente, ou até para conseguir algum dinheiro mesmo. Dez reais fazem diferença no fim do mês – ele diz, dando uma risada.

A conversa reflete bem a personalidade dele. É um sujeito descontraído, que parece ter assuntos para tratar com qualquer passageiro que sente no banco do táxi. A conversa para a elaboração do perfil fluí sem entraves. Ao final do percurso, a “corrida” fica em pouco mais de 30 reais. Me despeço.

– Falou, Fernando. Até uma próxima – ele diz.

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Perfil – Edgard Mello Filho

No automobilismo brasileiro, o nome Edgard Mello Filho figura entre os mais conhecidos. Piloto profissional durante os anos 70, conquistou o campeonato da já extinta Divisão 1 de Turismo em 1977. Fora (mas não muito distante) das pistas, Edgard se estabeleceu como uma das referências no jornalismo especializado no esporte a motor, narrando corridas pela TV Manchete, Rede TV!, Bandeirantes e Race.tv. Atualmente apresenta o podcast “Loucos por automobilismo” do portal Autoracing.

Perfilar Edgard Mello Filho é uma oportunidade para retratar uma interessante trajetória que possui uma forte  ligação com o esporte a motor, além de conhecer melhor as opiniões de um dos principais nomes do jornalismo especializado em automobilismo no Brasil.

Veja: indispensável?

Seja pelas críticas ou pelos elogios, detratores ou defensores, a revista Veja sempre atrai atenção. Mas como e por que a publicação ainda se mantém como a mais popular do Brasil?

Tome alguns instantes de seu tempo para fazer um pequeno exercício: quando estiver à toa andando pela cidade, passando em frente a bancas de jornais, ou no transporte público, observe o que as pessoas lêem por aí. Inevitavelmente, seus olhos deverão esbarrar com alguma edição da revista Veja.

Justifica-se pelos números: são mais de um milhão de exemplares vendidos em cada edição, dos quais são aproximadamente 800 mil por assinatura, e o restante em bancas, estatística essa que a garante, ainda, o posto de mais vendida do país.

            Mesmo diante dessas estatísticas, é sempre interessante apontar que a revista passa longe de ser unanimidade. Para compreender melhor a popularidade considerável da publicação, é fundamental ter um olhar aprofundado a respeito de vários aspectos. Esse elevado número de exemplares vendidos não foi alcançado do dia para a noite, evidentemente. E, do mesmo modo, não foi um acontecimento desvinculado de outros fatores sociais, políticos e econômicos.

Um pouco de história

A primeira edição da Veja foi publicada em 11 de setembro de 1968, pela editora Abril. Planejada por Victor Civita como uma revista semanal ilustrada nos moldes da norte-americana Look, e, como conta Mino Carta, cujo objetivo era concorrer com a Manchete no Brasil. Sob o título de Veja e leia, o número inicial abordava os conflitos no Leste Europeu.

Adotando esse modelo popular nos Estados Unidos, com a publicação de reportagens elaboradas pela própria redação, a revista enfrentou dificuldades financeiras nos primeiros anos. A Veja não conseguiu se estabelecer no segmento das revistas semanais, em parte por esse já estar em decadência devido à chegada da televisão. O sucesso da edição número um, que alcançou a venda de 700 mil exemplares, não se repetiu nas edições seguintes, chegando a despencar para apenas 40 mil. Essa situação instável só foi revertida em 1973, com o estabelecimento do sistema de assinaturas, que logo alcançou 100 mil compradores. Até então, a Veja só era publicada por pertencer ao forte grupo de Victor Civita, que conseguiu cobrir o prejuízo dado pela publicação.

Houve um salto nas vendas durante a década de 1970: dos pouco mais de 100 mil exemplares de 1973, passaram-se aos 170 mil em 1976 e 250 mil em 1979 (dos quais 200 mil eram para assinantes).

E, se o crescimento durante a década de 1970 foi significativo, na década seguinte mostrou-se ainda mais espantoso. No início dos anos 80, a Veja alcançou os 400 mil exemplares vendidos, incluindo aí 340 mil assinaturas. Da década de 80 até os anos 2000, foram mais algumas centenas de milhares de exemplares vendidos, passando de um milhão atualmente.

Nesse período, vale ressaltar que o crescimento da Veja se deu em meio à ditadura militar, estabelecendo-a como a revista que reproduzia, principalmente, a ideia da classe média brasileira.

O estabelecimento entre esse segmento garantiu consumidores cativos, que passaram a se sentir representados pela mentalidade da revista.

 

Conhecendo o público

            Para continuar a analisar essa popularidade da Veja, é essencial conhecer, mesmo que minimamente, uma amostra de seu público. Sabendo as motivações daqueles que lêem a revista permite compreender se, de fato, as observações relacionadas à história da publicação apresentadas anteriormente são confirmadas na prática.

Andréia tavares, 49 anos, tem seu desapreço pelo PT, em especial pelo governo Lula, como principal motivo para ler a Veja. “Ele prometeu muita coisa e não fez nada em oito anos no governo,” diz. “É só olhar o Nordeste, a terra dele. É de dar pena a situação.” Para ela, a revista serve igualmente como informação a respeito dos acontecimentos na política nacional: “A Veja mostra isso nas matérias, o que acontece no Brasil,” completa.

Juliano Carneiro, de 26 anos, conta que se identifica com as ideias do colunista Reinaldo Azevedo: “Ele é um dos melhores jornalistas do país”. Alexandre Mendes, 41, lê a Veja por uma questão de “praticidade”. “Acho que assinar uma revista é importante, e a Veja, para mim, é a melhor opção”.

 

Finalizando…

O ponto de vista polêmico da Veja a respeito de questões políticas, sociais e econômicas sempre divide opiniões. E gera dúvidas sobre como a revista ainda consegue se manter como a mais popular do país no século XXI, mesmo mantendo uma posição conservadora e uma fórmula com poucas mudanças ao longo de 45 anos.

Nota-se que essa manutenção do modelo jornalístico ainda encontra espaço, principalmente entre a classe média, principal parcela do público leitor da revista. Apesar de terem havido modificações no Brasil ao longo desse tempo, os anseios e pensamentos de alguns setores da sociedade pouco sofreram alterações. A popularidade da Veja, reprodutora do pensamento conservador, deixa claro que muitos brasileiros também se recusam a ver o mundo de outras formas.