A fada-madrinha itinerante

Edith Modesto é mestra e doutora pela Universidade de São Paulo. É professora universitária. É escritora de livros infantis. Acima de tudo, é mãe.

Lá estava eu, sentado sozinho no auditório da Secretaria da Mulher da prefeitura de Barueri, cidade da região metropolitana de São Paulo. Havia sido o primeiro a chegar para a palestra que começaria em trinta minutos.

Não era um salão muito grande. Havia cinco ou seis fileiras de cadeiras para assistir a exposição, que seria ministrada por uma psicanalista chamada Edith Modesto. Havia um pequeno palco na frente, com três cadeiras de veludo vermelhas e um vaso de lírios sobre uma mesinha. O palco também havia sido adornado com um arco de balões de aniversário, que seguiam a ordem das cores do arco-íris. No canto direito do palco, um grande banner exibia os dizeres “Homofobia: maior que o crime, só a ignorância”.

Depois algum tempo de espera, apareceu uma senhorinha na porta. Assim que adentrou na sala, ela olhou no fundo dos meus olhos e deu um sorriso, sem nenhum acanhamento. Retribuí. Caminhou decididamente até o fim do salão, onde se encontravam as cadeiras e a mesinha com os lírios, para avaliar o lugar.

Esta é Edith. Na ocasião, vestia uma blusa florida e uma calça preta, que trazia sobriedade para sua imagem. Tinha cabelos curtos loiro-escuros e usava um bonito colar dourado. Sua voz não é muito alta, o que, segundo ela, se dá por conta de um desgaste vocal. Discutia com os organizadores do evento a melhor disposição dos móveis no palco. Confesso que me surpreendi quando ela, num salto, subiu no tablado sem usar a escadinha que levava até ele. Me deixei levar pelas aparências e perceberia mais tarde que a idade não era um fator muito relevante para ela.

Resolvi puxar assunto, ainda receoso que talvez ela não fosse muito de conversa. Engano meu, pois ela foi muito receptiva e logo percebi que nem o mestrado e doutorado em Semiótica Francesa na USP feitos por ela, e nem os anos de experiência como professora tiraram o significado da palavra Modesto em seu nome. Conversamos sobre alguns assuntos triviais e começamos um diálogo breve sobre homofobia, quando o horário do início da palestra chegou.

Quando me dei conta, o pequeno espaço havia sido preenchido com os habitantes de Barueri que vinham assistir Edith. Sobriamente, ela pegou o microfone e começou a falar.

“Quantos jovens passaram pelo meu consultório com essas questões e não pude prestar atenção pelo desconhecimento. Tive muita dificuldade em aceitar meu filho porque eu tinha internalizado que todos os filhos têm que ser heterossexuais, que isso era um compromisso assinado em cartório pelo bebê quando a mulher ficasse grávida. Aquela maldita ignorância.” E ali, Edith começou com um episódio de sua vida pessoal para começar a conscientização daquelas pessoas acerca da diversidade e da aceitação da homossexualidade dentro da família.

Hoje, ela é presidente de uma ONG chamada Grupo de Pais de Homossexuais – Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais. Esse grupo tem como objetivo conscientizar a família dos jovens gays brasileiros a aceitarem os filhos como são, e ofereceram apoio quando o restante da sociedade os discrimina. Barueri é uma das várias cidades brasileiras que estão implantando em suas prefeituras o modelo de apoio à família criado pela ONG. O projeto hoje está sendo disseminado para cidades como Salto, Sorocaba, Curitiba e Aracaju.

Mas nem sempre foi assim. Para tudo existe um começo…

Militância inata

A ONG de Edith nasceu por decorrência direta de um fato que marcou sua vida: a descoberta da homossexualidade de seu filho caçula, quando este tinha vinte anos de idade. Foi um processo para que se recuperasse do choque: “Há uns vinte e cinco anos, não se falava sobre isso na televisão, no jornal, em lugar nenhum. E eu tinha um desconhecimento completo sobre o assunto”.

Ela é frequentemente vista como uma “ativista gay”, mas sua generosidade vai além dos direitos dos homossexuais. Edith declarou para mim: “Eu fico feliz que consigo ajudar alguém. Desde criança, não sei por quê.”

Muito tempo antes de fundar sua organização, Edith fazia trabalhos em orfanatos para ajudar as crianças que eram abandonadas. Visitava também a antiga Febem, que naquela época era local de reclusão das crianças que não tinham lar em geral, e não de jovens que cometiam crimes, como é hoje. Ela ia frequentemente a uma casa de estar da prefeitura, um lar provisório para as crianças órfãs. Quando não eram adotadas em um prazo de três meses, eram então enviadas para a Febem.

Em uma dessas visitas, foi apresentada a uma menininha de pouco mais de um ano de idade, que estava na casa de estar. As assistentes do local temiam pelo bem estar da garotinha, pois era tetraplégica e teria pouca chance de sobrevivência se fosse para a Febem. “Eu e meu marido fomos lá, vimos aquela menina deitadinha… Hoje ela é nossa filha”. A adoção de uma de seus sete filhos demonstra que sua afetuosidade é de longa data.

A ONG e seus outros projetos

Em uma de nossas conversas, fui até um de seus consultórios no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Em uma pequena rua próxima às avenidas de circulação nervosa da capital, está um sobradinho amarelo, de aparência residencial. Bati na porta, e uma moça muito amigável veio me receber. Disse que em breve eu seria atendido pela “dona Edith”. Olhei em volta: era realmente uma pequena casa, onde os quartos foram transformados em consultórios.

Mas ainda mantinha o aspecto familiar: por uma porta aberta, pude ver um belo jardim, repleto de samambaias e de algumas árvores frutíferas. Comentei o aspecto tranquilo do lugar com a simpática secretária, que declarou que era muito gostoso trabalhar ali. Ouvia a voz de Edith por através da parede, conversando com seu paciente. Quando a sessão acabou, ela saiu com o garoto até a porta e lhe deu um caloroso abraço de despedida. Repetiu o gesto comigo, desta vez me convidando a conversar em sua sala.

Desacostumada em ser a pauta da discussão, começou perguntando o meu nome e algumas informações sobre mim. Logo se lembrou que o tema era ela mesma, e extrovertidamente passou a voz para mim, e conversamos.

Esse consultório é apenas uma das ocupações dela. São muitas, o que é surpreendente, já que ela é aposentada. Ela segue viajando constantemente para disseminar seu projeto, e dá aulas extracurriculares na USP sobre diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero, além de, claro, coordenar sua ONG.

O GPH, Grupo de Pais de Homossexuais, nasceu em 1997. À época em que sofreu o choque da revelação do filho, nada conseguiu auxiliá-la em sua busca incessante em conhecer mais sobre a homossexualidade, e aceitar a própria condição de “mãe de um homossexual”. Nem a academia a ajudou: “Eu já era professora quando soube do meu filho. (Não aprendi) absolutamente nada, pelo contrário. Sou doutora pela Universidade de São Paulo. Resolvi fazer pós-doutorado na psicologia da USP, mas parei. Dou aulas de orientações sexuais e diversidades de gênero, e o que aprendi sobre isso no pós-doutorado da USP? Nada.”

Desapontada, Edith decidiu buscar, por conta própria, informações sobre quem eram os homossexuais. “Não achava outra mãe (de homossexual) de jeito nenhum. Tentei de todas as maneiras. Aí eu entrei na internet e encontrei um grupo de jovens, todos gays, que conversavam sobre o tema. Era um fórum sobre a homossexualidade. Eu entrei ali e fiquei lendo”. Em um determinado dia, ela resolveu se apresentar, e conta que foi recebida como se fosse a mãe deles. Eram os primeiros, dos muitos que ela ainda teria na vida, daqueles que ela chama carinhosamente de “meus meninos”.

Eles a ajudaram a combater os preconceitos internos que tinha a respeito da homossexualidade, e logo ela conseguiu entrar em contato com as mães daqueles jovens. Teve então a ideia de fundar um grupo para ajudar todas as mães que passaram pelas mesmas dificuldades de aceitação que ela e não encontram apoio na família ou na sociedade.

Hoje, além da fundadora e das mães facilitadoras, psicólogos e até psiquiatras auxiliam na manutenção da ONG. Ela conta com vários programas de auxílio à família: O Amor Vence é um trabalho para os pais. São feitas diversos encontros para eles poderem expor suas aflições, dúvidas e receberem o amparo necessário. O segundo é o Projeto Purpurina, voltado para os jovens. Ele trabalha em sua autoaceitação e na construção de uma “identidade homossexual”, em uma sociedade muito preconceituosa. Há ainda o projeto Travessias, de apoio aos jovens transgêneros, e o Universidades, que traz universitários para conhecer a ONG. Edith conta que já recebeu alunos de todas as grandes universidades paulistas, e até visitas inusitadas de estudantes da Universidade de Chicago e universitários chineses.

Seu grupo atrai grande atenção por ser pioneiro no Brasil e se destacar inclusive no cenário global de combate à homofobia. O americano PFLAG, referência mundial no apoio às famílias de homossexuais, já começa suas reuniões com pais e filhos sentados juntos para o diálogo. Edith argumenta que o trabalho do GPH termina onde o americano começa, pois, para ela, é necessário um preparo individual antes de colocar pais e filhos juntos para uma reconciliação.

Um segundo olhar sobre Edith Modesto

Encontrei Neusa Dutra na praça de alimentação de um supermercado na zona sul de São Paulo. Só tínhamos nos correspondido por telefone e e-mails, mas mesmo assim recebi dela o mesmo abraço terno que recebi de Edith.

Muito extrovertida e divertida, Neusa trabalha no GPH e é mãe de um rapaz homossexual. Também passou pelo mesmo processo doloroso de aceitação de um filho gay que muitas das mães que ajuda hoje.

Quando perguntou sobre uma das meninas que o filho tinha conhecido na faculdade, ele respondeu: “Mãe, nunca vai rolar isso que você tá pensando. Eu sou gay”. Teve início seu martírio, que ela chegou até ao ponto de cogitar mandá-lo a estudo para a França para não ter que admitir para sua família e amigos que tinha um filho gay.

Até que um dia, no cabeleireiro, viu uma revista feminina com uma manchete de depoimento de uma mãe falando sobre aceitar o filho homossexual. Era Edith. Com medo de ser julgada por estar lendo aquela matéria no salão de beleza, saiu dali direto para uma banca de jornal, onde comprou o exemplar e levou para casa. Viu a si mesma na história de Edith, e teve a iniciativa de entrar em contato com ela.

A psicanalista passou o telefone da própria casa para Neusa. “A Edith é assim mesmo. O coração dela, eu nunca vi igual”. Ela foi com o filho para conhecer a dona do GPH, e quando chegou lá, teve uma nova surpresa: na sala de estar se encontravam diversas mães, que tinham vindo de outras localidades de São Paulo, e outras até do Rio de Janeiro e Brasília. Era e é costume de Edith acolher pessoas que sequer conhece em sua casa para oferecer seu apoio. Assim, ela foi uma das muitas mães que tiveram o coração reconfortado pelas palavras da fundadora da ONG.

Quando iniciei a conversa com Neusa, ela comentou que, se fosse melhor, poderia me receber na própria casa. Isso demonstra como a generosidade e o grande coração de Edith contagia e se reflete naqueles que a conhecem. Para concluir nossa conversa, pedi que definisse Edith: “Generosidade. Ela é a pessoa de mente mais aberta e generosa. A gente fica admirado de ver o amor dela. Ela faz porque ela acredita no que faz, é verdadeira e honesta”.

“Madre Teresa de Calcutá não!”

Edith cumpre sua missão com muita garra e confiança, mas não gosta muito de ser comparada a uma santa. “Madre Teresa de Calcutá não! Não sou assim.” Contou-me sobre um episódio em que deu um tapa no rosto de um dos seus filhos, por causa de um desaforo. Claro que depois pediu desculpas, mas é de fato uma mulher que sabe quando é necessário ser austera.

Na palestra ministrada na cidade de Barueri, ela leu algumas das cartas que recebe todos os dias para pedir seu auxílio. Uma dessas cartas era de um menino que pensava em se matar, pois a Igreja que frequentava condenava a homossexualidade ao inferno. Ao ler essa carta à plateia em tom grave, houve algumas risadas, de pessoas que provavelmente acharam alguma graça no que ela havia declamado. Seu lado espartano aflorou: “Gente, o que é isso??? O que é isso??? Isso é de cortar o coração!”, disse, indignada.

Considerações finais

Ela uma mulher que merece o título de mulher. Tem um coração de proporções indeterminadas, que abrigou sete filhos e mais outros incontáveis meninos e meninas que encontraram nela o apoio que não receberam da própria família. Ajuda ainda a família deles, transformando a vida de todos e se transformando em uma personificação da fada-madrinha dos contos infantis. O processo, infelizmente, não é tão rápido e fácil quanto a transformação mágica de uma varinha de condão. Mas esta mulher faz o que estiver em seu alcance para mudar as vidas dessas famílias.

Sua agenda é repleta de viagens para implantar projetos semelhantes ao GPH em diversos estados, que em breve estarão ecoando seu projeto para todo o Brasil. E ela é recompensada todos os dias com o amor daquelas pessoas que ajuda. No dia das mães deste ano, por exemplo, ela recebeu muitas cartas que exprimem a razão de ela fazer tão nobre trabalho e nos mostra um pouquinho da realização diária desta forte mulher:

“Olá doutora Edith, tudo bem com a senhora? Espero que sim. Hoje é dia das mães e essa data me fez pensar na senhora. Há um ano, eu estava com o coração na mão. Sabia que logo eu iria dar uma notícia que poderia quebrar o coração da minha mãe. A senhora me deu apoio nessa época, me deu tanta ajuda, e agora faz quase um ano que eu saí do armário pra minha mãe e depois a senhora foi me orientando e seguindo o resto da família. Claro que a minha mãe não recebeu com um sorriso no rosto. Mas com a sua ajuda ela assimilou, continua assimilando, e fez o que toda mãe faz: me deu o seu amor. Depois de alguns meses, como me aconselhou, eu contei pra ela a existência do meu namorado e da nossa relação. Eles se conheceram e, bom, as coisas estão caminhando. (…) A minha vida está se encaminhando, cada dia sou mais feliz, graças à minha mãe, que me deu a vida, e outra mãe, que também fez parte de minha vida, a senhora. Que tem muitos filhos como eu espalhados pelo Brasil. Pode ter toda a certeza que fez a diferença na minha vida. E é por isso que nessa data especial eu quero lhe agradecer mais uma vez e dizer que eu a amo muito, e desejar um feliz dia das mães”.

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Perfil – Edith Modesto

Resolvi fazer um perfil da terapeuta Edith Modesto por conta de suas experiências de vida, e porque a considero um exemplo de atitude e coragem. Em 1992, ela descobriu que um de seus filhos era homossexual. Como na época ela não encontrou nenhum tipo de apoio para quem passava por isso, ela decidiu pesquisar sobre sexualidade sozinha. Criou mais tarde uma ONG que apoia tanto os pais quanto os filhos que estão no processo de aceitação.

Hoje a ONG cresceu. Outras mães que participam podem ser fontes secundárias, assim como o próprio filho da Edith. Como o grupo fica em São Paulo, pretendo também conversar com ela para ver se consigo participar de alguma reunião que ela promove mensalmente com os pais e filhos.

Acredito que ela é um indivíduo que pode render muito, tanto na parte pessoal quanto na parte profissional. Ela dedicou sua vida às pessoas que passaram pelo que ela passou, e eu quero muito entender como foi o processo de compreensão de sua própria situação antes de ajudar os demais.

Paulista: muito além de um centro econômico

Ela é tida como representação do poder de São Paulo. Mas muitas pessoas também a chamam de lar. Conheça mais sobre esse lado velado da avenida mais famosa do estado

De barões a executivos

A Avenida Paulista é, há muito tempo, símbolo da grandeza do estado de São Paulo. Conhecida em todo o Brasil e reconhecida mundialmente como um dos centros econômicos globais, a Paulista existe há 121 anos.

Quando foi construída, em 1891, São Paulo ainda não era o expoente que viria a ser algumas décadas depois. O prestígio dela cresceu em conjunto com o da cidade em que estava situada. Depois da sua criação, não tardou para que ela começasse a crescer e atrair os olhos de quem tinha dinheiro. Logo, se tornaria residência de muitos dos condes da região, e virou área nobre – estado que preserva até hoje, de certa maneira.

Com o avanço econômico do Brasil, depois da década de 60, a Paulista sofreu outra grande modificação: a avenida começou a crescer verticalmente. Escritórios do mundo inteiro que estavam interessados no potencial verde-e-amarelo instalaram-se ali: bancos e multinacionais transformaram essa região em um poderio econômico paulista.

Assim, os nobres que povoavam esse lugar foram substituídos pelos executivos, brasileiros e estrangeiros, e a Paulista se tornou multifacetada. Nesse ponto, ela já estava mais próxima da avenida que conhecemos hoje, onde podemos ouvir, sem nenhum tipo de estranhamento, pessoas conversando em português, japonês, espanhol ou inglês numa mesma quadra.

Assim amadureceu a Avenida Paulista, ostentando o que há de mais belo em São Paulo, e exportando essa imagem para o resto do mundo. Uma região que sintetiza todas as qualidades da cidade, ou pelo menos é o que parece.

“A loucura das grandes cidades”

O domingo do dia seis de abril amanheceu chuvoso. No começo da tarde, estive na Paulista. Esperava uma amiga, que chegaria em 15 minutos. Durante o intervalo de espera, decidi apenas observar as pessoas que transitavam por ali, sobre a calçada ainda molhada da chuva, e neste pouquíssimo tempo, aquela avenida se revelou.

Não como o centro econômico que tinha a fama: por ser um fim de semana, o vai-e-vem de executivos apressados, de terno e com suas pastas de couro, haviam desaparecido. Em seu lugar, estavam as mais diferentes pessoas que resolviam ter seu momento de lazer no fim de semana, ou que vinham participar dos eventos que só a Paulista poderia oferecer. Um garoto que conversava ao celular do meu lado não conseguia conter um sorriso no rosto.

Enquanto observava o movimento, uma mulher passou por mim. Era idosa, deveria ter por volta dos seus setenta anos. Usava uma saia muito esfarrapada e uma camisa igualmente rota. Segurava uma sacola furada pesada, e todos os seus pertences deviam encontrar-se ali dentro.

Ao mesmo tempo em que parecia olhar para todos os que estavam à sua volta, olhava além de todos e para ninguém. Estava inquieta e andava a esmo; parecia xingar uma pessoa invisível com palavras de baixo –calão. Ao mesmo tempo em que parecia se dirigir a todos os que andavam à sua volta, esquivava-se de qualquer um que estivesse perto demais. Ela sofria daquilo que alguns chamam de “loucura”. Assim como Estamira, protagonista do filme de 2004 do diretor Marcelo Prado, esta moradora de rua encontrou na insanidade uma forma de lidar com a condição em que vivia – a de viver, desprotegida, nas ruas de São Paulo.

Ela logo desapareceu da minha vista, ainda amaldiçoando todos e ninguém. O menino de antes agora chorava no celular ao meu lado, e minha amiga chegou. Resolvemos andar um pouco na Paulista. Percebia que, apesar de o perfil dos transeuntes ter mudado muito por ser um fim de semana, alguns deles permaneciam ali, apesar de serem invisíveis para muitas pessoas que ali transitavam. Os que não tinham para onde ir, aqueles que adotaram a avenida mais famosa de São Paulo como seu lar.

A vergonha e o desvario

Naquele domingo, uma multidão se reunia na avenida para mais um protesto, mais um contra a presidência de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos.  Por este motivo, aquele lugar se tornara ainda mais plural. Enquanto os manifestantes se organizavam na Praça do Ciclista, um morador de rua se aproximou, apenas observando o movimento. Boné desfiado na cabeça, de onde saíam cabelos grisalhos e desgrenhados, que se juntavam a uma vasta barba. Estava de cadeira de rodas.

Fomos até ele e lhe perguntamos o que achava da manifestação. Ele apenas balançou a cabeça negativamente, claramente envergonhado. Disse que estava apenas de passagem, e evitou olhar-nos nos olhos. Não quis prolongar a conversa, e logo se foi. Ficou claro que muitos também se envergonham da situação em que se encontram e pensam que não são capazes de ter uma opinião formada a respeito de qualquer assunto, que seja ouvida.

De volta à caminhada na avenida. Ao longe, avistamos uma moça sentada em um pequeno murinho, próximo ao MASP. Usava uma camisa social, e parecia mexer dentro de uma bolsa vermelho vivo. Conforme nos aproximávamos, a primeira imagem foi se desfazendo. A camisa, de cor verde-limão, estava cheia de remendos e tinha muito tempo de uso; a bolsa estava na verdade muito desbotada, de alças esgarçadas. Seus pés estavam nus, onde deveria haver um sapato. Ela parou de mexer na bolsa e começou a olhar com indiferença à sua volta.

Sentamo-nos no mesmo murinho, ao lado dela, e começamos a conversar. Percebi que ela ficou inquieta, assim como a primeira mendiga que encontrei aquele dia. Enquanto eu conversava com minha amiga, a mulher levantou-se tranquilamente. Passou por nós, e simplesmente nos deu um susto. Sim, um susto. Como uma criança de 5 anos faria, e ainda saiu com um sorriso no rosto, como uma criança que acabou de fazer uma travessura.

Mais uma que se encaixava no perfil de “insanidade” criado pela sociedade. A violência de viver nas ruas só poderia ser suportada por algumas mulheres através da loucura. Devo salientar que, mais uma vez, os dois pareciam ser um ímã repelido por todos à sua volta. Era como se simplesmente não existissem.

Enfim, um passo a frente e uma conclusão

Depois de tanto andar, resolvemos nos sentar na escada de um Banco Itaú. À nossa frente, mais uma mulher pedia esmola para os transeuntes, ignorada por todos. Foi aí que nos demos conta de um homem sentado também na escada do banco. Ele observava a pedinte com furor, e fazia comentários exaltados contra a pobre mulher. Quando perguntei para ele o porquê da indignação, ele respondeu: “as pessoas não param não, fico nervoso. Se fosse ladrão, davam celular, dinheiro, tudo”.

Logo, soube que seu nome era Carlos Alberto Rodrigues, e que viera de Minas Gerais. Há 3 semanas estava em São Paulo, e não tinha como voltar, pois estava sem dinheiro. Tinha olhos cansados e entreabertos, barba farta e sem corte, e estava com camiseta e calça desgastadas. Em uma mão, segurava uma Coca-Cola, enquanto a outra segurava uma mochila – o que parecia ser seu único pertence. Um tênis de esporte aparentemente novo destoava do resto de sua imagem.

Depois de um pouco de conversa, ele revelou que já era avô, com 44 anos. Porém, há muito tempo não via sua filha e nem sua neta; não tinha mais contato com sua família. Só soube informar que eles estavam “lá para os lados de Rondônia”. Quando morou em Minas, trabalhou como taxista e fazia mudanças também. Em São Paulo, tudo isso acabou.

Contou que fora roubado na semana anterior, e só lhe restava a roupa do corpo. O mistério do tênis dissonante foi revelado, quando disse que este lhe foi dado por uma loja de calçados da Paulista, porque o produto tinha um pequeno defeito e não poderia ser comercializado.

Era uma pessoa muito lúcida, e se dispôs a contar as andanças que havia feito ultimamente. Eu me surpreendi quando ele disse, de forma extremamente natural, que já foi para Praia Grande a pé, a partir da Avenida Paulista. “Eu já fui pra Santos, peguei a Paulista aqui e fui diretão. Deu na praia. Fiquei um mês em Praia Grande. Lá é bom pra passar Réveillon e mais nada”.

Quando terminei nossa conversa, ele pediu dinheiro para que pudesse, finalmente, voltar para sua terra natal e recomeçar sua vida. Desconfiei da veracidade do seu pedido, mas dei o dinheiro mesmo assim e me despedi. Passei lá na semana seguinte, e ele estava no mesmo lugar.

Sim, ele mentiu. Mas será que estou em posição de julgar o fato de ele ter contado uma mentira? Viver nas ruas é muito intenso e degradante. As pessoas precisam se adaptar bem a esse meio para sobreviver. Se muitas perdem inclusive a sanidade neste penoso caminho, outras dariam tudo por alguém que lhes desse um minuto de atenção.

 

Muito além de um centro econômico

Tema: Cidades

Viés: Economia

Foco: O lado menos lembrado da Avenida Paulista

Muito além de um centro econômico

  1. Proponho uma reportagem temática sobre as facetas menos gloriosas da Avenida Paulista.
  2. A Paulista é conhecida por ser o centro econômico de São Paulo e do Brasil. Mas isso não a define como um todo – ela é feita de várias facetas que, juntas, correspondem à avenida mais famosa de São Paulo.
  3. Todos conhecem o lado rico da Avenida Paulista. Mas gostaria de saber se ela tem personagens que podem provar que o lado oposto também estaria presente ali.
  4. Existe uma Paulista pobre, menos favorecida, ou somente aquela avenida exportada como cartão postal da cidade de São Paulo?
  5. Procuraria pessoas simples que costumam frequentar a Paulista, e partes nem sempre lembradas, mas que também são parte dessa região.
  6. Acho ele um diferencial porque a maioria das matérias que já vi sobre essa região só exalta os pontos altos da Paulista, mas não faz menção a um possível lado desfavorecido desse lugar.

Gabriel Henrique