Wagners

Wagner resfriado pode não afetar a vida de dezenas de pessoas, mas com certeza afeta o cotidiano do estreito Centro de Formação de Condutores do Campo Belo. Sem ele, a casa amarela decorada com placas de trânsito vira Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível, porque ele é o único professor da escola. Quem está doente, no entanto, não é Wagner, é sua mãe – o que na prática não muda muita coisa, já que, seja quem for o enfermo, ele não pode faltar no trabalho.

Dulce dos Santos também é única. A única que sabe a senha do cofre que esconde a arma, a única que faz o melhor estrogonofe do mundo e a única que descongela o coração de Wagner.

Enquanto ela se recupera da obstrução de um vaso sanguíneo ligado ao seu cérebro que impediu a circulação adequada e interferiu as funções neurológicas dependentes da região afetada, seu filho sacrifica o sono, a integridade psicológica e os sorrisos habituais. O acidente vascular cerebral isquêmico de dona Dulce a obrigou a passar uma semana na cama de um hospital em Higienópolis, próximo à casa de Wagner, e tornou imperativo o revezamento entre ele e a irmã no quarto de internação.

O pai aguentou um câncer de estômago por três anos, mas há uma década acabou falecendo. O senhor Amadeu dos Santos foi militar durante a ditadura nos anos 60 e 70. Perguntei se ele achava que o pai participava das torturas e assassinatos sistemáticos da época, ao que respondeu com um sorriso irônico: “Eu era pequeno. Ele ia trabalhar de manhã e voltava no fim da tarde. Não contava nada para a gente e nós também não questionávamos”. Wagner dos Santos herdou do seu genitor o amor à mãe e o sangue nos olhos.

 

“PM presta?”, pergunta a um aluno no primeiro dia do curso para condutores, que se inicia a cada duas semanas. Repete a pergunta a mais três alunos – “PM presta?” – e conclui: “PM não presta. Não vou mentir para vocês, o meu objetivo aqui não é ficar enganando ninguém. A realidade lá fora é dura e vocês têm que saber o que acontece para se protegerem”. Wagner chegou a ser Capitão da Polícia Militar e, mesmo não exercendo mais a profissão, continua recebendo como se estivesse no cargo

– Queria te acompanhar durante um dia, posso? Qual é a sua rotina?

– Claro, minha querida! Minha rotina? Vou para academia de manhã e de tarde venho dar aula, das duas às seis da tarde. E uma vez por mês vou naquele meu outro trabalho, você sabe né, assinar uns papéis lá, com o Coronel – pisca.

A sala sem janelas e sem ar condicionado acolhe os aproximadamente 30 alunos que, durante quatro horas de 10 dias úteis, ouvem as aventuras e opiniões do professor. “Normalmente a gente escuta que as aulas do CFC são entediantes e sonolentas; Wagner as faz ser uma experiência um bem menos insuportável”, diz André, um de seus pupilos. Para isso, além das piadas a cada cinco minutos, o mentor usa truques ligeiramente controversos, como a foto do crânio deformado de um presidiário, acompanhada de explicação: o hoje morto ficou louco na cadeia, saiu correndo e se atirou na parede.

Wagner é também generoso, empresta seu pendrive para os alunos que querem copiar as fotos dos bastidores da vida policial para seus computadores, que incluem tanto assassinatos, quanto acidentes de trânsito. O fetiche por cadáveres, sangue e decapitações, assim como o desejo de poder, é intrínseco a qualquer alma que tenha nascido para o ofício, e ele deixa isso claro nas aulas. “Por que vocês acham que as pessoas querem ser policiais? A gente tem muito poder. Você nunca vai conseguir me prender, sabe por quê? Porque eu conheço todo mundo que está dentro da delegacia”.

Já em casa, enquanto comprime repetidamente seu “aperto de mão” – aparelho para fortalecer a musculatura usada no tiro –, comenta: “A arma muda a pessoa, ela passa a se sentir poderosa de um jeito imbatível e na hora H não está nem aí para as consequências. Por isso não se pode discutir no trânsito; se o cara do carro da frente tem uma arma, ele atira sem pensar duas vezes.”

O Capitão tem autocrítica. Sabe disso porque sabe que se esse cara fosse ele, faria o mesmo. Sabe também que é uma pessoa difícil de lidar. É ‘estourado’ e, à mínima possibilidade de qualquer ameaça, mesmo que não envolva riscos físicos, reage de maneira impulsiva. Eis o porquê de sua mãe ser a única pessoa que sabe a senha do cofre. “Uma vez fui com uma ex-namorada num restaurante e um cara começou a se engraçar pra perto dela. Quando eu vi fiquei louco, se tivesse uma arma não sei o que faria. Sei que é errado, mas é o meu jeito.”

 

O homem Wagner dos Santos é dividido substancialmente em duas partes: o militar e o professor, mas que involuntária e diariamente se misturam num Wagner só, isso porque ele passou por uma cama de hospital muito antes de sua mãe. Aos 28 anos, três tiros o derrubaram na maca de um pronto socorro. Sobrou desse dia uma lembrança que enraizaria o futuro. Seu corpo, um médico, duas assistentes, um desfibrilador e um apito constante. Um choque e nada. “Os batimentos pararam, mas vamos tentar mais uma vez.” Outro choque e um apagão. Ele só acordou oito meses depois.

“Eu tenho certeza de que naquele dia morri e voltei. Narrei para o médico o que vi e ele me disse que foi exatamente assim, depois descobri que tem muita gente com relatos parecidos. Comecei a ver a vida de um jeito totalmente diferente.” Se hoje tem cabeça quente e dura, já foi muito pior. “Agora se vocês me falarem uma coisa e eu não concordar, dificilmente vou mudar de opinião, mas pelo menos vou tentar ouvir e entender”, se descreve para os seus alunos depois de mostrar a cicatriz abaixo do peito. Indiretamente o acidente foi um dos motivos pelos quais resolveu virar professor alguns anos depois.

– Filho, você pode colocar uma lixeira na frente do portão da sua casa?

– Acho que posso, professor.

– Lógico que não pode, filho. A rua é do governo, a rua não é sua. Nem a sua casa é sua, sabe por quê? Porque assim que alguém quiser, pode vir e tirar de você em nome do bem público. Está na lei. Vocês têm que conhecer as leis do país que vocês vivem.

O professor erra o nome dos alunos sempre e fala errado de vez em quando. “Ah, eu também falo errado de vez em quando. ‘Seje’, ‘seja’, essas coisas, eu me confundo. Se eu falar errado vocês me corrijam, não precisa ficar com vergonha. Depois tem nego que fica rindo de mim aí atrás. É, você mesmo, tá olhando o quê, filho?”, brinca. De vez em quando relaciona as situações no trânsito com princípios do direito ou com leis da física, gosta de mostrar o que leu.

Wagner faz o tipo do cara forte, inabalável, carismático, malandro, que se dá bem e que tem poder – ou faz questão de se assimilar a esse tipo de cara. É sincero com os outros e consigo mesmo; o personagem que cria parece simplesmente fazer parte da sua personalidade, uma faceta indissociável de seu caráter. Apesar da frieza nas ações, é extremamente carinhoso e atencioso, ainda que o carisma (característica de quem atrai muita atenção e causa boa impressão naturalmente, sendo consequentemente muito querido) pareça imprescindível para o cultivo de seu ego.

 

Ele se casou seis vezes. Descobriu há sete anos um filho desconhecido – mas que não era fruto de um dos casamentos – no velório da mãe do menino, com o padrasto ao lado. “Não tinha como negar. Eu olhei pro moleque, ele olhou pra mim e a gente era igual. A gente simplesmente sabia.” O “moleque” tinha, nessa época, 19 anos.

– A gente ainda se fala, ainda se encontra, mas o padrasto não tem nem ideia, pensa que o filho é dele.

– E como ela escondeu que tinha tido um filho na época?

– Conheci ela em uma das viagens que fiz, era linda. Naquela época eu ainda viajava muito por causa do trabalho militar, conheço o Brasil inteiro, já morei em quase todos os estados. Mas enfim, a gente acabou namorando e quando eu fui embora ela não falou nada. No fundo eu sabia que tinha alguma coisa estranha, sempre fiquei com essa história da Ana na cabeça. Por isso quando encontrei o menino não tive dúvida.

– Ele lidou bem com a notícia?

– Sim. Ele me procura bastante, a gente se gosta muito.

A última ex-mulher foi uma juíza, e ele deixa isso claro para os alunos. Márcia recebia ameaças de vez em quando porque julgava casos criminais. “Ela era muito inteligente. É rapaz, tá pensando o quê? Ela lia muito e me ensinava várias coisas sobre direito, leis e até literatura”, diz ele sentado à frente do balcão da padaria, a três quarteirões do CFC. “Acho que elas gostam mesmo é do meu excesso de gostosura, da minha saliência, ri. Ou então da minha tonalidade marrom bombom.”

Wagner não é maior do que qualquer mulher de estatura média. A academia diária lhe rende torso e braços fortes, mas não é suficiente para desaparecer com a barriga arredondada, coberta sempre com uma camisa preta ou branca, de mangas curtas ou compridas. Usa calças jeans escuras e manchadas com tons mais claros, tênis pretos e uma delicada corrente de ouro enfeitada pela imagem de Maria Aparecida. O corte de cabelo é naturalmente militar, rente à cabeça, sem maiores invenções. E o sorriso Colgate contrasta com a pele, escura, mas nem tanto. Completa tudo com uma aliança prata de uns quatro milímetros de espessura.

Quem a colocou em seu dedo há dois anos foi Fabiana, contadora. Assim como dona Dulce e Wagner, ela acabou de passar por uma cama de hospital. O silicone lhe rendeu complicações, mas acabou saindo ilesa. “Wagner é tudo para mim agora. Ele passou todo o tempo do meu lado, e depois ainda teve toda a história da mãe dele. Sempre foi muito atencioso e preocupado”.

 

“Ju, me desculpa, não vou poder me encontrar com você amanhã. Tenho que ir lá no tribunal resolver uns negócios do processo. Até te chamaria para ir comigo, mas você não ia poder entrar – explica-se ao telefone. Me desculpa mesmo, viu querida. Depois te ligo de novo para a gente combinar direitinho, daí eu te pego de carro e você vai comigo para tudo quanto é lugar”.

O Capitão responde por três processos na justiça, herdados da época de PM. Só revela isso para os seus alunos ao fim de duas semanas, no penúltimo dia de aula, mesmo assim sem responder sobre mais detalhes. O professor assume um tom enigmático, proposital, e usa o senso de humor para desviar das perguntas: “O cara ficou desesperado e pulou da janela, olha só!”

O olho esquerdo sofre uma alteração curiosa toda vez que a conversa se relaciona com a morte. As pálpebras se acirram involuntária e repetidamente até que o assunto passe.

– Você já notou que o seu olho treme toda vez em que a gente fala sobre alguma coisa assim?

– Como assim?

– É, o seu olho treme.

– Nossa, nunca reparei. Que estranho.

Mudança de Perfil: Wagner dos Santos

Resolvi mudar o personagem do meu trabalho. Fúlvio Scorza parecia uma boa ideia, mas durante o bimestre lembrei do meu professor do CFC (Centro de Formação de Condutores), Wagner dos Santos, que sempre me intrigou como ser humano.

Ex-PM, vidrado em fotos de pessoas amputadas, carismático, enigmático, carinhoso e conservador. Lembra do dia em que três tiros quase o mataram e que depois mudou a sua vida. Seis ex-mulheres, um filho descoberto no velório de uma delas e um falecido pai que trabalhou a serviço da ditadura militar.

Por fim, um homem que fala sobre tudo isso sem culpa, pudores ou censuras.

Proposta de Perfil: Fúlvio Scorza

Gostaria de fazer um perfil sobre Fúlvio Alexandre Scorza, professor do programa de pós-graduação em Neurologia e Neurociências da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Scorza concluiu seu pós-doutorado em Harvard, publicou 17 capítulos em livros e 218 artigos científicos, leciona em diversas universidades, coordena pesquisas nas linhas de epilepsia experimental, morte súbita nas epilepsias e neurofisiologia e, para completar, já recebeu mais de 25 prêmios na área.

No entanto, por trás do currículo de páginas e mais páginas existe um homem de fala descomplicada, tatuado, apaixonado por Freud, curioso até a medula e ocupado com as crianças da comunidade de Higienópolis, para quem dá aulas de Judô toda semana.

Gostaria, portanto, de conhecer a fundo o Fúlvio humano, que vive além dos trunfos apreciados por uma sociedade que atribui mais valor a títulos do que a causas.

Promessas ao Vento

Quem são as mulheres por trás das castigadas folhas sulfite nos postes da região central de São Paulo que garantem trazer a pessoa amada

Macumba, bruxaria, vudú, babaçuê, feitiçaria. Uma mulher com longas roupas de pano e grandes pulseiras, em frente a uma bola de cristal em algum cenário sombrio e misterioso. Típicas unhas e cortinas ao estilo hollywoodiano, no sentido menos original da palavra. Ela encarna fictícia e exageradamente enquanto seus ajudantes recolhem o dinheiro dos clientes, e por dentro sorri com um ar de sadismo.

Preconceitos e suposições, em detrimento de uma visão menos hostil e mais curiosa, costumam dominar o imaginário diante do comportamento por trás de práticas sobrenaturais. Talvez seja essa a razão de “Trago seu amor em sete dias” não ser uma boa estratégia de marketing. “Às vezes me pego olhando para esses anúncios, depois caio em mim e olho para os lados disfarçadamente, preocupada em não ser taxada de ridícula”, diz a administradora Sônia dos Santos. Só na região da Bela Vista, zona central de São Paulo, são aproximadamente 400 cartazes colados, muitos deles em sequência, o que, nas grandes avenidas como a Brigadeiro Luís Antônio, não deixa quase nenhum poste nu.

No entanto, ao contrário de seus números de telefone, os espíritas do amor não gostam de se expor. Depois de doze tentativas para marcar uma entrevista sobre as previsões, constatei que metade das linhas não existe mais ou permanece ocupada durante dias. Já a outra metade “não quis falar sobre o assunto” ou “não podia atender no momento”. A única terapeuta holística que concordou em conversar a respeito do trabalho desistiu mais tarde por causa do recente terceiro filho, que “a deixava sem tempo para nada”. Marquei então horários pagos, como cliente, sem que soubessem que eu era a mesma pessoa com quem haviam conversado nas ligações.

As consultas duram de 20 minutos a uma hora, “dependendo da pessoa e do trabalho que será feito”, costumam responder ao telefone. Elas – a maioria é mulher – atendem aproximadamente das 9h às 18h e cobram em média 25 reais para as cartas, 30 reais para o tarô e 50 reais para os búzios ou tarô de Marcelha, um padrão a partir do qual todos os tarôs derivam. A diferença entre a cartomancia e a taromancia está na simbologia dos baralhos. Diz-se que o tarô tem significados mais abrangentes, portanto trata do lado mais psicológico e filosófico da vida, enquanto as cartas têm símbolos mais direcionados e são mais voltadas para as previsões, mas há estudiosos que discordam. O psicanalista clínico e psicoterapeuta holístico Antonio Gallo, por exemplo, defende que as diferenças são apenas estruturais e iconográficas, logo a profundidade da leitura é determinada somente pelo grau de conhecimento, habilidade e intuição do leitor.

Cartazes na Rua dos Ingleses, no bairro da Bela Vista: concorrência com outros anúncios.

Normalmente as consultas são feitas nas próprias casas das “videntes”, que se localizam na região onde os papéis foram colados. Entre os cartazes há anúncios de previsões não só por cartas ou búzios, mas também baseadas em outras vertentes. É o caso dos que dizem “Pai Damião. Trabalhos infalíveis para todos os fins”, por exemplo. “Eu estudei muito para ler as cartas. Fiz um curso de terapia holística, portanto sou terapeuta. Mas há muitas pessoas que fazem porque aprenderam com outros membros da família ou que não têm relação com a religião católica, e sim espírita, umbandista ou outras”, explicou Renata, a taróloga citada acima que desistiu de conceder uma entrevista sobre o ofício e terceira mulher com quem marquei um horário.

A CONSULTA

Diferentemente das outras casas, que não costumam ter nenhum tipo de identificação, o seu portão serve de apoio para as letras vermelhas que indicam “Terapeuta Holística. 96431-3065/ 4113-1315”. O sobrado é cor-de-rosa e relativamente grande. Renata abriu a porta vestindo uma blusa de linho azul turquesa, uma calça preta justa e, nos pés, havaianas. Trazia os cabelos negros presos em um coque, deixando à vista seu rosto claro. Era nova e tinha mesmo “cara de mãe”. Quando contei que no momento estava sem o dinheiro suficiente para a consulta, disse: “Imagine, depois você paga, fique tranquila”.

Ela é dona da maior parte dos cartazes entre a Alameda Campinas e a Rua Padre Manoel de Nóbrega. Muitos deles competem com os de compradores de ouro e estão colados por cima de outras propagandas holísticas ou de seus próprios cartazes velhos, já depredados pelo tempo e pela chuva. Afirmou, contudo, que a maioria de seus clientes a conhecem por indicação e que são poucas as pessoas que ligam por causa dos anúncios: “inclusive foi uma cliente minha que gosta muito do meu trabalho e quis divulgá-lo que resolveu fazê-los”.

Subindo as escadas, apontou para o sofá. “Pode deixar sua bolsa aqui, querida. Não tem problema, ninguém mexe”, sugeriu. O lugar em que recebe seus clientes não é diferente de um pequeno escritório. Em cima da mesa de madeira, apenas um computador, um telefone e um pequeno livro. Atrás dela, os doze apóstolos de Jesus preparavam-se para a ceia e, ao lado desta, outras cinco passagens bíblicas seguiam suspensas em pequenos quadros espalhados pelas paredes.

Embaralhando o tarô, quis entender porque eu estava fazendo a consulta. Respondi que nunca tinha experimentado, mas que sempre tive curiosidade nas cartas. Depois perguntou o meu nome completo e minha data de nascimento, colocou duas fileiras de cartas sobre a mesa e começou a adivinhar a minha personalidade. Incrivelmente, acertou em detalhes. Em seguida, espalhou linearmente todo o tarô e pediu que eu perguntasse o que quisesse e tirasse três cartas para cada questão. Ela as interpretava então de acordo com as minhas indagações. Durante a leitura, fazia mais perguntas, previa acontecimentos do ano seguinte e dava conselhos enfática e repetidamente, citando sempre Deus.

CRENÇA OU ENGANAÇÃO

Renata não ofereceu nenhum tipo de serviço para remover “encostos” e “forças ruins” ou qualquer produto. Já as cartomantes e tarólogas Letícia e Ludmilla recomendaram trabalhos com este fim. Diferente da primeira, as duas afirmam ter muito retorno com os cartazes.

Entre uma embaralhada e outra, Letícia, que também segue a vertente católica, apontava para uma carta e dizia “olhe”: “Você tem uma barreira no amor, olhe”. Indicou então uma vela de 41 dias, se dirigindo ao espesso cilindro laranja sobre a mesa ao lado: “Cada uma custa 52 reais, quantas velas você quer acender para ele?” Quando perguntei se não havia outro jeito, respondeu: “Não. Não faço essas coisas de macumba, macumba não entra aqui não! Esse menino te ama, querida, com a vela com certeza ele voltará para você.” Acabei convencendo-a de que uma era suficiente. “Coloca a graça aqui”, disse apontando para a mesa, e vendo minha cara de dúvida continuou: “O dinheiro, querida”.

Questionada sobre a credibilidade e as intenções das cartomantes, Giovana, outra terapeuta holística que segue a linha católica, respondeu: “Não existem médicos que desligam os aparelhos para colocar outro paciente no lugar do que morreu? Não existem advogados que mentem para tirar vantagem dos clientes? Então é claro que há quem queira tirar proveito com as cartas. Existem pessoas mal intencionadas em qualquer lugar. Mas também tem outra questão. Se você me diz uma mentira, eu vou fazer uma previsão mentirosa; eu não faço vidência, eu estudei para ler as cartas.”

CADA CASO COM SEU CASO

O quarto de Letícia era diferente do escritório de Renata. Era pequeno e tinha muitas alusões a figuras de diversos imaginários religiosos, tal como arcanjos, mulheres nuas e colares de búzios. A cartomante se assemelhava mais à figura hollywoodiana. Letícia é uma senhora de estatura baixa, prende os cabelos lisos e brancos acima da nuca e mora com o neto de 18 anos. Usava uma saia azul abaixo dos joelhos, um par de óculos de hastes finas e delicadas pulseiras. Falava rápido e baixo e articulava um “r” levemente puxado para o espanhol que escondia suas origens soteropolitanas. Tinha um ar cansado e agia como dona do meu destino.

Contou ter começado a ler as cartas aos 11 anos, o que não é raro neste ofício. Ludmilla começou aos 9. Hoje, aos 17, decidiu seguir a carreira de cartomante depois de terminar o colegial. Pela pouca idade, não me chamava de “filha” ou “querida” como as outras. Os seus longos cabelos pretos caíam sobre a camisa xadrez, que cobria o início da calça jeans branca. Brincava com o cachorro quando ele invadia o quarto semelhante ao de Letícia, decorado com velas e arcanjos, e ficava sem graça quando eu perguntava sobre a sua história de vida. Em geral as cartomantes evitam falar sobre si mesmas; costumam desviar o olhar ou mudar de assunto.

Espaço reservado para consultas na casa de Ludmilla, de 17 anos. Ela divide os clientes com sua mãe.

O trabalho delas muitas vezes não se resume só às consultas. Ludmilla, por exemplo, frequenta um centro espírita todas as noites com sua mãe para realizar trabalhos espirituais. Contou que as duas são frequentemente convidadas para casamentos de pessoas que uniram. Já Renata escreve na coluna de astrologia do jornal editado pelo marido, cujo nome não citou, mas, por causa dos filhos, está parada há seis meses.

Perguntei como Ludmilla havia tomado a decisão de se tornar cartomante, ao que ela respondeu: “Não recebi nenhum tipo de chamado, é mais um dom. E também considero o fato de que muitas pessoas na minha família têm a mesma habilidade.” Renata discorda: “Não acho que tem que ter um dom, mas com certeza o leitor precisa de uma sensibilidade maior”.

Cada caso é um caso. As opiniões, intenções e métodos em torno do ofício da previsão variam largamente. Em outras palavras, os estereótipos não são suficientes para explicar a diversidade que existe por trás das castigadas folhas sulfite dos postes da cidade de São Paulo, sejam elas coladas por cartomantes, pais de santo, médiuns ou terapeutas holísticas.

Cartazes “Trago a pessoa amada”

 

Tema: Comportamento/ Sociedade

Foco: Cartazes “Trago a pessoa amada” 

 

1. Quero escrever sobre os cartazes grudados em postes que prometem trazer a pessoa amada em uma semana ou um mês, particularmente sobre algum que fique próximo ou na Av. Paulista.

2. Esses cartazes sempre me intrigaram. Sempre os vi como algo abandonado, velho, mas será que foram esquecidos mesmo? Desde criança imaginava por trás deles uma mulher com longas roupas de pano em frente a uma bola de cristal em algum cenário escuro e misterioso, enquanto seus ajudantes recolhiam o dinheiro dos clientes. Mas quero descobrir as histórias que eles realmente transportam.

3. Tenho curiosidade em quatro lados da história. Quem faz, quem experimenta, quem ignora e quem já parou para pensar sobre isso. Primeiro, de onde surgiu essa ideia, onde colocam os cartazes, quem realiza esses “trabalhos” para atrair o amado, onde aprenderam e como se vestem. Só trabalham com isso? Algum já cumpriu o que prometeu? Há na sua razão de ser alguma curiosidade na vida alheia? Como isso funciona no dia a dia? Existe isso em alguma outra cidade ou país, a prática faz parte de alguma religião e como são e onde ficam esses lugares? Depois, quem acredita nessas promessas, quem já foi nesses lugares, já havia experimentado algo do tipo? O que fez essas pessoas pegarem o telefone? Um ato de desespero? Curiosidade? Em terceiro, será que esses cartazes funcionam mesmo ou ninguém nunca ligou? Por que não ligar? Descrença? Receio? E, por último, alguém já pensou em ligar mas não ligou? Por quê? Alguém já reparou nisso? Alguém já escreveu sobre isso?

4. Na verdade a matéria pretende responder três perguntas centrais: será que quem colocou os cartazes realmente acredita e sabe o que faz ou faz por dinheiro? O que exatamente essa pessoa faz? E será que os cartazes funcionam mesmo ou são sempre ignorados?

5. Pretendo procurar primeiramente quem colocou os cartazes (se der, mais de um) e depois pessoas que experimentaram ou usufruem do serviço. Por último, pessoas nas ruas que frequentemente passam em frente a eles e, se houver, alguém que já tenha refletido sobre o assunto ou escrito sobre ele.

6. Acho que é algo que passa totalmente despercebido aos olhos em meio às nossas vidas agitadas e em um ponto da cidade tão movimentado; uma peculiaridade de São Paulo como aquelas que Gay Talese numerou em Nova York. Também me parece interessante por ser um mundo totalmente desconhecido para quem nunca experimentou. Vejo como um mistério a ser desvendado, como um lugar incomum que pode trazer histórias inusitadas.

JÚLIA BARBON