“Proativo discreto”

carneiro

“Eu já era jornalista tipo com nove, dez anos. Eu já era jornalista, querendo ou não”

A primeira coisa que ouvi dizer sobre Gabriel Carneiro é que ele era um gênio. Fomos apresentados um ao outro na rádio Gazeta AM, em fevereiro de 2012. Aluna de primeiro ano da Faculdade Cásper Líbero, eu estava conhecendo a rádio universitária quando um rapaz alto entrou no estúdio. “Juliana, esse é o Gabriel Carneiro e ele é um gênio”. Assim, simples, Gabriel Medina acabava de dizer algo que eu concluiria em alguns meses. O rapaz a quem havia acabado de ser apresentada deu um risinho. Com o semblante tranquilo e olhos escuros e atentos, me cumprimentou timidamente e logo rebateu as declarações de seu xará. O ato já antecipava uma das características pelas quais mais passei a admira-lo: a humildade.

Conhecido pelo sobrenome, Carneiro é natural de Mairiporã. A princípio, prestaria direito no vestibular, uma vez que seu pai e seu irmão são bem sucedidos na área. No entanto, no último ano de colégio optou pelo jornalismo. Ele não conhecia nenhuma faculdade e sequer sabia o que se estudava no curso. “Mas eu vi que eu talvez me encaixasse naquilo, porque eu gosto de boas histórias e eu gosto de pesquisar”, explicou descontraído, enquanto tomava um sorvete.

Naquele instante nos encontrávamos na praça de alimentação do Top Center, localizado na Av. Paulista. Ele havia tentado comprar uma casquinha de sorvete no Mcdonald’s, mas a falta de atendentes o levou a exercer sua clientela no Giraffas.

“Você está presenciando um protesto”, brincou, fazendo referência ao primeiro ato contra o aumento das passagens de ônibus e metrô em São Paulo.

Ele usava um casaco escuro com o zíper fechado. Embora calmo, as pernas mexiam irrequietas por baixo do tampo da mesa. Às vezes lançava um breve olhar para o teto, ou mesmo para algum ponto fixo atrás de mim. Esquadrinhava o ambiente provavelmente atrás de alguma curiosidade, o faro jornalístico apurado. Quando batia os olhos no gravador, dava um meio sorriso e encolhia um pouco os ombros, de maneira tímida. Costuma levar as mãos para trás da cabeça, mas sem mexer muito nos cabelos curtos. Essa mania é mais comum enquanto ele escreve.

Em frente a um computador, a seriedade no rosto de Carneiro só aumenta. Ainda balançando as pernas, digita rapidamente com os olhos fixos na tela. As abas abertas na internet normalmente mostram perfis em redes sociais, email e sites de coberturas esportivas. Mas, ao avistar um amigo, ele faz questão de parar de digitar e cumprimentar quem quer que seja com um forte abraço. Carinhoso, ele diz ter três círculos de amizades: dois de colégios em que estudou e um da faculdade.

No laboratório de computação, o estudante alterna sua atenção entre trabalhos da faculdade e posts para o blog Chuveirinho FC, que tem em parceria com o amigo e ex-colega de trabalho, Bruno Grossi. “É um espaço de opinião e de reflexão também. E de compartilhar uma coisa com uma das pessoas que eu mais gosto, que é ele, que é um dos meus melhores amigos sem dúvidas”.

Bruno Grossi, por sua vez, reforça a discrição de Carneiro no dia-a-dia. “Como amigo ele nunca falta. Por mais que não fale nada, com o olhar ele já avisa o que pensa e mesmo que não concorde, ele no máximo fala uma vez”. Já como profissional, não poupa elogios ao ex-colega de Gazeta Esportiva: “O bode é um cara muito acima dos demais. Além do olhar sempre mais periférico, ele conseguia sempre exprimir os sentimentos nos relatos e nas entrevistas. E por mais que ele ficasse quieto era sempre o mais proativo. Proativo discreto”.

A passagem de Gabriel Carneiro na Gazeta Esportiva foi um marco em sua vida. Ainda no primeiro ano de faculdade, o estudante foi aprovado num dos estágios mais cobiçados da Fundação Cásper Líbero. No entanto, a demora em ser chamado quase colocou o jovem em outro estágio, no site do Uol. Ao receber a ligação do portal, Carneiro aceitou a proposta. Não era algo que o motivasse, mas o salário seria bom e ele teria a oportunidade de trabalhar em casa. Mal sabia ele que cinquenta minutos depois a Gazeta ligaria o chamando para realizar o exame médico e assinar o contrato.

“Foi a primeira vez que eu tive que ser profissional, que eu tive que escolher. Tive que fazer uma seleção de onde eu queria trabalhar. Aí também não sabia o que ia encontrar. E me surpreendi. Quando eu escolhi fazer jornalismo eu sabia que eu ia pender pro jornalismo esportivo. Só que eu não sabia como que um jornalista encontra uma fonte. Eu não tinha essa noção. Como que um jornalista encontra uma história pra contar? E aquilo eu queria começar a saber, porque a prática acaba se mostrando muito melhor do que a teoria no jornalismo. Pelo menos pra mim”.

Os dois anos que se seguiram foram de imenso aprendizado para Carneiro, que dá especial destaque a duas coberturas realizadas em 2012: a final da Copa Sulamericana e o velório de Félix Venerando, goleiro do tri brasileiro.

A final da Sulamericana ficou conhecida pela desistência do time argentino Tigre de retornar aos gramados do Morumbi no segundo tempo. O São Paulo vencia o jogo por dois a zero e estava próximo de ser o campeão. Os argentinos acusavam os seguranças do time mandante de terem partido para a violência no intervalo. A confusão que se seguiu rendeu muitas suspeitas e discussões – além do título ao clube paulista.

Gabriel, que estava cobrindo o time argentino, relatou: “Eu não cheguei a ver o momento em que os jogadores e os seguranças do São Paulo entraram em conflito, mas depois os próprios jogadores chamaram a imprensa pra ver o vestiário ensanguentado, pra ver tudo quebrado e destruído. Aquilo marcou bastante, ainda mais que depois a gente ainda foi atrás dos jogadores na delegacia. Então foi uma cobertura de delegacia!”.

“Eu acho que eu fiz um bom trabalho aquele dia… tanto que eu voltei pra redação quatro horas da manhã e ainda tinha que escrever muita coisa lá. E voltei pra casa ainda, porque geralmente, quando eu fazia jogos, chegava na redação uma e pouco, duas, e quando acabava ia pra casa de algum amigo por morar longe. Aí essa não: essa eu peguei o ônibus e voltei pra casa, de tanto tempo que eu fiquei trabalhando”.

A outra cobertura marcante, porém, exigiu de Carneiro mais que técnicas de apuração: exigiu profissionalismo e, acima de tudo, delicadeza do estagiário que foi escalado de última hora para cobrir um velório.

Ao chegar na redação da Gazeta Esportiva em 24 de agosto de 2012, ele não esperava que seu chefe fosse dizer: “O goleiro Felix morreu e eu reservei o carro pra você ir lá no velório”.

Por ter chegado cedo ao cemitério, o estudante logo foi se informar sobre os detalhes do enterro. Perguntou a um velhinho sobre o momento em que o corpo chegaria, mas não contava com as peças pegadas pelo destino. O senhor de nada sabia, e, ao revelar a identidade do velado, Carneiro mal podia imaginar que acabava de dar a notícia a um amigo do ex-jogador. Eles haviam jogado juntos na base do Juventus da Mooca e tinham sido vizinhos 50 anos depois. Ainda chegaram a se encontrar uma semana antes do goleiro adoecer.

O jovem percebeu que o senhor ia se entristecendo e começou a puxar conversa. ”Aí a gente foi conversando, conversando e não foi muito como jornalista, foi como ser humano. Foi como ser humano, eu acho, que eu reagi àquela cobertura”. Com os olhos emocionados, porém com a voz firme, Carneiro ainda explicou como se deu o resto do dia e a sua conduta num momento tão delicado. “O mais difícil foi falar com a neta, mas a abordagem que eu fazia era a mesma ‘Sou jornalista da Gazeta Esportiva, se você não quiser falar comigo não precisa falar, só queria saber se você tem alguma coisa a dizer’”.

Ao fim do dia o estagiário precisava de alguma forma colocar a matéria no ar. Percebendo que ninguém estava sendo velado na sala ao lado, pegou seu computador e se instalou ali mesmo. Depois chegaram outros jornalistas e montaram uma redação no velório. Com o olhar um pouco mais sério, falou em um tom de voz mais baixo: “É bizarro contar, mas foi marcante pra mim”.

Mas o tempo de Gazeta Esportiva propiciou a Gabriel Carneiro mais que coberturas emocionantes. O prazer de escrever sobre o assunto de que mais gosta e o privilégio de poder trabalhar com amigos deram ao estágio um caráter especial. “É um ambiente do qual eu sempre gostei muito. No último dia, até nem queria ir embora direito. Eu queria continuar lá. Eu sempre fiz horas a mais que eu devia. O trabalho era seis horas, eu sempre fiz sete, oito, nove horas, porque eu gostava. E eu gostava do ambiente, eu gostava de conversar… Eu podia simplesmente trabalhar seis horas e ir embora, mas eu gostava de ficar, sei lá, vinte minutos conversando com o repórter, pegando umas dicas, trocando ideia de tudo, de cobertura, de personagem… e aí eu perdia o tempo de trabalho, me sentia culpado e compensava aquele tempo em horas a mais”.

O último dia de trabalho, ao fim de seu contrato, foi emocionante. O estudante enrolava para terminar o texto quando o amigo Yan Resende brincou “Você não vai embora não?”. Sentindo que precisaria de um apoio emocional, Gabriel pediu a Yan que o acompanhasse até a porta. “Eu queria desabafar, queria conversar, queria… sei lá, só alguém do lado. Desliguei o computador”. E, no meio do relato, Carneiro sai de uma espécie de transe e me pergunta, olhos nos olhos: “Sabe o que é desligar o computador pela última vez? Eu quase reiniciei”.

Ao se despedir dos colegas, foi surpreendido por uma salva de palmas. Sem se conter, deixou que as lágrimas explicassem por ele tudo aquilo que não conseguiria exprimir em palavras.

“O pessoal já tinha ido embora, tinha só uns três ou quatro na redação. Aí bateram palma pra mim. Nunca tinha acontecido. E eu acho que nunca vai acontecer… bater palma pra mim. ‘Legal, você foi muito bem aqui, você fez um bom trabalho aqui. Brigada, tchau’ e aí… e aí eu chorei. Chorei e quem me confortou aquela hora foi o Yan, que é outro cara por quem eu tenho muito, mas muito carinho. Virou meu irmão”.

Sem graça com a confissão, Carneiro diz que foi muito dramático. E que, passado o momento, percebeu o início de um novo ciclo. Depois de cumprir os planos de descansar por pelo menos um mês, o estudante já tem outros estágios em vista.  Discreto, revelou que está na última etapa do processo de seleção do Lance! e que já havia dispensado um outro estágio, que seria no Tribunal de Justiça. “Eu não fui contratado pelo Lance, mas eu acho que eu não vou me achar no Tribunal de Justiça”.

A trajetória do estudante passa também pelas ondas sonoras da rádio Gazeta AM. Com um quadro semanal no programa Nordeste Futebol Clube, o Nossos Hinos, o jornalista em formação tem a missão de contar a história do hino de um clube nordestino. Mais que isso, Carneiro sempre procura entrevistados e histórias interessantes, dando especial foco às personagens de sua matéria, fugindo das perguntas superficiais que dizia fazer no início.

“Agora eu consigo fazer uma coisa mais abrangente, então eu consigo valorizar os personagens. Inclusive já teve dois com personagens especiais. Eu vi que aquele cara tinha tanto pra falar que eu não podia simplesmente colocar ele no meio da história de um time, eu tinha que colocar aquele personagem e dar um destaque para ele, eu tinha que valorizar aquele personagem”.

Dózinho, compositor potiguar, foi um deles. Responsável por compor os hinos dos três grandes clubes do Rio Grande no Norte, o personagem caiu no esquecimento em sua terra. “É um cara que tem um monte de história para contar, e nenhum dos times lembra dele mais hoje em dia. E ele é um cara fundamental na história dos três, então eu acho muita injustiça”. E, empolgado com o desabafo, emenda: “Os clubes não valorizam os caras que participaram da história, então talvez seja também um jeito de denunciar”.

O quadro nasceu durante as comemorações de três anos de existência do programa, em 2011. Carlos Sergipe, responsável pelo NFC, propôs a Gabriel que fizesse uma matéria especial para o aniversário. “Como o programa é muito musical, eu pensei em alguma coisa a ver com a música. E não sei como surgiu a ideia de contar a história dos hinos, eu sempre gostei de hino, de futebol, da relação entre futebol e música”. Aprovada, a ideia fez tanto sucesso que virou quadro.

Mal passa pela cabeça de quem escuta as matérias de Gabriel, que o dono da voz utilizada na impecável locução ficou temeroso de colaborar na rádio, a princípio. Tímido, ele diz ter ficado inibido e que só foi perder o medo de falar durante o Jornal da Gazeta. “Eu tremi demais. Eu percebi que as pessoas tavam vendo que eu tava tremendo e aquilo me dava mais nervosismo ainda. Mas depois fui participando e perdendo isso”.

A área esportiva, aliás, sempre atraiu o jovem de apenas 20 anos. Após pressionar os lábios um sobre o outro e me olhar quase que travessamente, Carneiro deixou escapar o riso e explicou o seu segredo: por brincar muito sozinho quando criança ele acabou criando um universo particular. Criativo, inventava jogadores e times baseados em clubes e personagens reais do futebol. Eram diversos campeonatos, com três, quatro divisões. “Tinha técnicos, tinha dirigentes, tinha uma emissora de TV que cobria, então eu já era jornalista tipo com nove, dez anos. Eu já era jornalista, querendo ou não. Porque eu cobria os meus próprios times”.

O menino anotava tudo em um caderninho sem deixar passar um único detalhe, cuidando das transferências no meio e no fim do ano. “Inclusive os técnicos eu anotava de lápis, porque técnico é muito demitido, então eu apagava e trocava”.

Mas a emissora de Gabriel não poderia cobrir apenas futebol. Preocupado, o garoto criou toda uma programação, com programas de entrevista, variedades, debates eleitorais e novelas. Ele escrevia os roteiros das novelas, algo que o inspirou a se tornar roteirista. “Quando eu entrei na faculdade, eu queria usar o jornalismo pra um dia talvez ser um escritor de novela, que eu sabia que a maioria dos escritores de novela haviam sido jornalistas. Então talvez foi essa a primeira motivação. E eu levo isso até hoje. Eu acho que eu quero escrever novela”.

Carneiro nunca escondeu que pretendia usar o jornalismo para, um dia, viver de escrita. Na Gazeta acabou gostando da aparente falta de rotina do jornalista e se animando com a ideia de ficar na cobertura esportiva. E faz isso com incrível competência e talento.

O amigo Yan Resende conseguiu traduzir o sentimento que acompanha todos os que convivem com Gabriel: de que ele é competente em tudo o que faz. “Tenho o Carneiro como um exemplo a ser seguido e procuro fazer o mesmo caminho dele, pois sei que é de sucesso, ou melhor, todos sabem”.

Os elogios às matérias de Gabriel Carneiro sempre o deixam sem graça. Humilde, ele sempre percebe em seus colegas e amigos pontos fortes a serem explorados e os anima com palavras de animação. É o tipo de amigo que sempre vai ler e acompanhar uma matéria sua, e mesmo palpitar com sua visão aberta.

Já durante o trajeto de volta para casa, Carneiro me contou que não se importa de fazer a viagem para Mairiporã todos os dias. Ele não se importa, pois não quer perder tão cedo a conexão com sua família, algo que mudaria muito caso ele se mudasse para São Paulo. Caseiro, ele valoriza o tempo que tem disponível com seus pais e seu irmão e acha que seria muito estranho sair de casa antes do seu irmão, sete anos mais velho que ele.

Ao me despedir dele, sempre com abraços apertados, brinquei se ele chegaria em casa a tempo de ver a novela. Rindo, ele respondeu que a das nove horas sim, mas que assistiria a das sete pelo celular, no ônibus para Mairiporã.

Já distante, com aquele sorriso tímido característico, acenou para mim e, andando um pouco encurvado por causa da pesada mochila, entrou no metrô sentido Tucuruvi, sumindo em meio à multidão que se aglomerava nas portas do trem.

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Troca de perfilado

Professor, conforme já tinha dito em sala, tive de trocar o perfilado. Infelizmente o diretor de comunicação dos jesuítas ficará para uma próxima. Mas prometo que a pessoa que escolhi se mostrará tão interessante quanto.

 

Perfil: Gabriel Carneiro

Natural de Mairiporã, Gabriel sempre soube que queria viver de escrever. Ao ingressar na Faculdade Cásper Líbero, em 2011, o estudante planejava utilizar o jornalismo como um atalho para viver de literatura, sem imaginar o quanto acabaria se apaixonando pela rotina do profissional da comunicação.

Com passagem pela Gazeta Esportiva.net e pela rádio Gazeta AM, Gabriel se destacou em todas as funções que exerceu, fosse através da escrita ou das ondas sonoras. Eu o escolhi pois, apesar da inteligência e do talento, o Carneiro – como é conhecido – é uma das pessoas mais humildes e dispostas a ajudar que já conheci. O admiro como profissional e, sobretudo, como pessoa. O intuito do perfil é entender um pouco mais esse jovem cuja maturidade ultrapassa os seus 20 anos de vida.

Perfil – Geraldo Lacerdine sj

Geraldo Lacerdine é um padre jesuíta. Formado em Comunicação Social, Geraldo é diretor de comunicação da Companhia de Jesus no Brasil. Não obstante, faz pinturas, fotografias e compõe músicas.

Achei Geraldo uma boa escolha  por ser um padre jovem, ligado às artes e que exerce diversas outras funções além de apenas rezar missas, quebrando um pouco a ideia de que padres passam o dia todo confinados rezando. Ele se destaca principalmente por suas homilias descontraídas e exposições artísticas. Atualmente alguns de seus quadros estão expostos no salão paroquial da igreja São Luís, na Av. Paulista.

Perfilarei Geraldo a fim de conhecer um pouco mais a vida de alguém que se dispôs a servir a Deus em tempo integral e ver sua relação com o cotidiano fora da Igreja. Como os jesuítas são uma ordem missionária, também seria interessante abordar a constante perspectiva de poder se mudar para o outro lado do mundo a qualquer momento.

Motorista de metrô: “Máquina de fazer louco”

Desde o treinamento até as dificuldades do dia a dia: qual a trajetória enfrentada pelo motorista do metrô?

A plataforma cheia, com pessoas se empurrando diante da expectativa de serem as primeiras a entrar no trem é mais do que parte de um cotidiano a ser vislumbrado de sua janela. À frente, os túneis escuros são mais conhecidos que a própria luz do dia. O único som presente são as vozes da central, avisando sobre problemas e falhas. Sozinho, o condutor do metrô é o responsável pela segurança diária de todo um sistema operacional de transporte público, sem que os transeuntes que dele necessitam saibam realmente a magnitude da importância do operador de trem.

Como o motorista do metrô fica isolado em sua cabine, sem contato direto com seus passageiros, acaba esquecido e, em virtude da instalação de trens completamente automáticos como os da Linha Amarela, tem seu trabalho questionado. Poucos, no entanto, se perguntam sobre a trajetória percorrida pelo profissional para se tornar apto a conduzir um metrô. Altino de Melo, diretor do Sindicato dos Metroviários e condutor da Linha Azul há 18 anos, define o operador de trem como uma segurança, pois, apesar de automática, a máquina necessita do “olho humano” para vigiar possíveis falhas.

Para se tornar motorista, o interessado tem de fazer um treinamento que leva de dois a três meses para conhecer todas as frotas da cidade. Desde o princípio, fica claro para os candidatos que o condutor tem que estar preparado para reparar as falhas, sejam elas no trem ou na via. O curso preparatório basicamente simula as possíveis falhas. “Para se ter uma ideia, o Metrô só contabiliza isso [as falhas] para a imprensa quando a falha interrompe o sistema por mais de 6 minutos”, explica Alex Santana, motorista na Linha Vermelha há três anos.

O processo é dividido em várias fases com exames e, para avançar para a próxima etapa, é necessário ser aprovado no teste.  Segundo Altino, é muito difícil alguém ser reprovado, e caso isso aconteça o indivíduo pode passar por um curso de reciclagem, no qual refaz toda a fase. No entanto, se for reprovado várias vezes, o candidato acaba indo trabalhar em outra área do metrô.

Os exames são realizados nos parques durante o dia, dificilmente sendo feitos nas vias comerciais. Se isto tiver de acontecer, será de madrugada enquanto o metrô não está em funcionamento. Ainda assim, é um processo complicado, pois é durante o período em que o metrô está fechado que é realizada a manutenção dos trens e trilhos. Desse modo, se o exame tiver mesmo de ser na via utilizada no dia a dia, é preciso que os técnicos de manutenção sejam avisados com antecedência para que não tenham o seu serviço prejudicado.

Altino compara o cuidado de dirigir um trem ao do automatismo de dirigir um carro e diz que em ambos os casos é necessário estar em sintonia com o veículo. “Você não pode só saber acelerar e frear, mas também conduzir”. No entanto, não é necessário ter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para conduzir um trem. Normalmente, a máquina está no modo automático e o condutor, como já mencionado, fica à espreita para o caso de precisar resolver alguma falha. A ação tem que ser rápida e controlada e a central tem de ser informada o quanto antes. Caso ocorra algum problema mais grave, os trens podem ser operados no modo semi-automático.

A entrada se dá por concurso público, mas Altino ressalta que o metrô de São Paulo modificou o processo de seleção diversas vezes ao longo dos anos. Atualmente, é necessário ter o segundo grau completo e ter o perfil avaliado. Quando o diretor do sindicato entrou, porém, ainda era exigido certo conhecimento técnico. Como ele havia sido operador de máquinas industriais, optou pela vaga de condutor. “Por ser operador de máquinas, achei que seria mais fácil ser operador de metrô. O metrô é uma máquina que anda”.

Mas nem sempre a escolha cabe ao concursado. Alex é um exemplo de pessoa que terminou “por acaso” como motorista de metrô: “Estava à procura de concursos públicos e foi simplesmente um dos que prestei, nunca imaginei que seria operador de trem”.

Além de saber manejar a chave de emergência e estar apto a resolver as falhas, o operador é obrigado a conhecer bem a linha pela qual conduzirá o trem, não só do ponto de vista de quem o dirige, mas também através das plataformas instaladas nas laterais dos túneis, utilizadas pelos funcionários ou mesmo pela população em casos de emergência, nos quais o trem terá de ser evacuado e os passageiros levados até a próxima estação em segurança.

A tarefa de zelar pelo bem estar dos passageiros, inclusive, também é parte da responsabilidade do condutor de metrô. Altino explica que, quando precisa retirar os passageiros do trem, por qualquer motivo que seja, normalmente começa pelos vagões mais próximos da rota de saída. Ele age dessa maneira para evitar o pânico, pois quem estiver no metrô, ao ver os outros passageiros saindo, pode entrar em desespero e começar a quebrar os vagões para tentar sair também. Após todo o procedimento de segurança dos passageiros ser realizado, o condutor terá de ficar com o trem até que todo o problema técnico seja resolvido.

A rotina de um operador é sempre caótica. Ele tem de ficar atento a tudo o que a central notifica sobre todas as vias, pois qualquer problema em uma das linhas já é o suficiente para afetar todas as outras. Se um metrô parar na Linha Vermelha, por exemplo, a Linha Azul também será afetada e os trens circularão com a velocidade reduzida. Este “Efeito Borboleta” se dá principalmente por causa do número de usuários que transita entre essas duas linhas: se a Linha 1-Azul funcionar normalmente, o número de passageiros que ficará retido na estação da Sé, responsável por interligar as linhas 1 e 3, só aumentará, superlotando a estação e dificultando a condução dos trens, cada vez mais cheios.

“O dia ideal seria operar um trem não tão lotado, com intervalos regulados, sem atrasos, sem falhas no sistema. Não teria que enfrentar a tensão de uma atuação em falha no trem, as cobranças dos usuários diretamente para o funcionário e não para o governo, cobranças dos supervisores, etc”, descreve o condutor Alex.

A visão de Altino, porém, vai um pouco além: o dia ideal seria possível somente se houvesse uma ampla reforma no sistema metroviário brasileiro. Citando os metrôs de Paris e Nova York como exemplo, o operador explica que se as linhas fossem ampliadas e entrecruzadas a superlotação diminuiria, facilitando o uso deste meio de transporte principalmente nos chamados “horários de pico”, pois as pessoas teriam caminhos alternativos a percorrer e linhas diferentes para utilizar, aumentando a capacidade de usuários.

“O metrô em São Paulo é muito limitado”. Para o diretor do sindicato a explicação é simples: “Nos anos 70, empresas rodoviárias investiram nos modelos de transporte individual, investindo principalmente na construção de pontes, viadutos e entrecortes para os carros. São Paulo hoje tem investido mais no metrô, mas não investia muito antes e a cidade é maior que antigamente”.

Dentre as grandes dificuldades do dia a dia, Altino destaca três: a superlotação, o transporte de torcidas organizadas e conduzir os trens em dias de chuva. Quando muito cheio, normalmente é comum que as pessoas acabem prendendo as portas, atrasando a saída do metrô e, consequentemente, atrasando os outros trens da linha, além do excesso de peso nos vagões.

Atualmente o metrô proíbe a baderna realizada pelas torcidas em dias de jogos de futebol, além de ter aumentado o policiamento. Mas o condutor já passou por momentos difíceis com os torcedores que, ao pularem, faziam os vagões trepidarem correndo o risco de desestabilizar o trem.

O outro problema enfrentado pelos condutores no geral é impossível de ser evitado. Com as chuvas, os trilhos ficam molhados e o trem é obrigado a circular com a velocidade reduzida de modo a evitar o deslizamento nas vias e um possível acidente. A chuva também atrai um número de usuários maior para o metrô, principalmente pessoas que não querem pegar ônibus durante os temporais. Então, novamente, o motorista se defronta com o problema da superlotação.

Ser operador de trem, no entanto, vai além de saber detectar as falhas. Exige, certas vezes, sangue frio e coragem, como no dia em que uma mulher se jogou na frente do trem conduzido por Altino. Quando percebeu que ela ia pular, o diretor acionou o botão de emergência. Apesar da medida de segurança, o freio não seria o suficiente para paralisar o trem de uma vez. A sorte é que a mulher se abaixou, conseguindo escapar da morte.

Em situações assim, o operador tem de avisar a central imediatamente para que a eletricidade da via seja cortada, evitando que a pessoa que tentou o suicídio seja eletrocutada pelos trilhos e garantindo a paralisação dos outros trens, a fim de evitar colisões. Outro funcionário é enviado ao local para prosseguir com o metrô, pois é pressuposto que o condutor que vivenciou a situação fique psicologicamente abalado.

A primeira medida da central, ao ser avisada sobre a situação, é pedir que o operador mantenha a calma e perguntar se ele tem condições de tomar as providências necessárias, como reter os passageiros no trem e fazer os últimos ajustes na máquina, antes que outro funcionário possa assumir o seu lugar. Depois, o motorista é levado até a polícia para prestar depoimento e, por último, é analisado por um médico do próprio metrô que vai atestar se ele está em condições de trabalhar novamente e, se sim, quando.

Os operadores evitam falar sobre o assunto, justamente para evitar que outras pessoas “abracem” a ideia do suicídio. “O maior medo do operador de trem, normalmente é de saber que pode enfrentar um atropelamento, pois, existem muitos suicidas no sistema e quando alguém se joga na frente do trem o operador fica muito abalado psicologicamente”, explica Alex.

É comum que muitos motoristas fiquem traumatizados com o ocorrido, encontrando apoio uns nos outros, explica Altino. “A gente fica chateado. Nem é tanto por quem tenta se matar, porque a gente não conhece, mas sim pelo operador e pelo trauma que fica”. A maneira que encontram de se sentir melhor é procurando apoiar uns aos outros. “Os operadores de metrô são uma categoria muito unida”

“Operador de metrô é máquina de fazer louco”, diz o diretor do sindicato ao tentar resumir a sensação de ficar solitário na cabine durante todo o expediente enxergando apenas túneis à frente. Os intervalos entre os trajetos são bem curtos, de modo que o operador tem pouco tempo desabafar com alguém. “Se há um problema na família, alguma coisa aconteceu, você fica remoendo aquilo sozinho por uma hora e meia, sem ter com quem compartilhar”.

Muitos acabam deprimidos por conta da solidão da cabine e das dificuldades que a frieza cotidiana impõe. A central se comunica com o condutor o tempo todo, mas o motorista só pode se dirigir a ela caso o problema seja realmente sério. De outra maneira, a central ficaria saturada de informações sobre todos os motoristas e não conseguiria se concentrar em solucionar as falhas do metrô.

A visão de Alex, em seus três anos de experiência, é dividida: “São dois extremos: primeiro, quando está havendo alguma ocorrência na linha a tensão é enorme e a atenção redobra. Segundo, quando não está acontecendo nada, num feriado, por exemplo, quando não se escuta quase comunicação via rádio e o trem está em perfeita ordem, a monotonia toma conta, somado ao calor da cabine, ruído, vibração, poeira, etc, gera desconforto, sonolência e a longo prazo com certeza problemas de saúde”.

Para Altino, se a pessoa não tem família ou objetivos de vida, é muito difícil prosseguir com a profissão, correndo o risco de ser “sugada” pelo ambiente e de se entregar à depressão.

“Os operadores trocam muita ideia entre si”, resumiu Altino sobre a união da classe trabalhadora. Dessa maneira os condutores encontram forças para reparar as falhas, olhar pela segurança de boa parte da população e prosseguir quase que anonimamente na rotina escura e enviesada dos túneis da cidade de São Paulo.

Motoristas de metrô

Foco: Motoristas de metrô
Tema: Cotidiano
Viés: Mobilidade Urbana

1. Quero propor uma reportagem sobre os motoristas que conduzem os metrôs na cidade de São Paulo
2. O metrô é, talvez, o meio de transporte público mais utilizado em São Paulo. Com exceção dos trens da linha amarela – que são automáticos – todos são conduzidos por um motorista que se comunica com os passageiros apenas para fornecer explicações sobre as dificuldades enfrentadas no dia (como objetos caidos na pista, ou reformas realizadas nas linhas).
3. Como nunca vi nenhum anúncio em auto-escola sobre aulas específicas para motoristas que conduzem metrô, me pergunto se eles tem de enfrentar algum curso preparatório diferente, se é possível se tornar motorista apenas com a CNH ou se eles possuem alguma licença especial. Quais exigências tem de enfrentar para poder conduzir os trens, como grau de escolaridade, ou experiências anteriores conduzindo outros transportes públicos. Também tenho curiosidade em saber se são feitos exames e se, sim, como são feitos: se em lugares abandonados ou nos próprios trilhos do metrô pela madrugada – que é quando não estão em funcionamento.
4. Qual a trajetória realizada para chegar ao posto de “motorista de metrô”?
5. Funcionários do metrô, professores de direção, técnicos operacionais dos trens, motoristas do metrô, RH’s responsáveis por contratar os funcionários do metrô.
6. Os motoristas de metrô,diferentemente dos motoristas de ônibus, não tem contato direto com seus passageiros e, portanto, parecem invisíveis no cotidiano paulistano. A matéria propõe dar visibilidade a esses trabalhadores praticamente anônimos que nos conduzem diariamente.