Pequeno grande homem

Felipe da Silva Braga, ou Felipe Krust, como é conhecido, tem o braço direito coberto por tatuagens e está (quase) sempre com uma camiseta estampada. Aqueles que o veem de longe podem o julgar pelas tatuagens e não acreditar – erroneamente – que, apesar da pouca idade, ele é um homem cheio de histórias pra contar.

Para os que conheceram Felipe superficialmente um ano atrás, ele parecia ter a vida perfeita. Mesmo sem nunca ter estado em um curso superior, com apenas 22 anos ele já ocupava um alto cargo como designer em um dos jornais mais importantes da maior metrópole do país, o periódico Folha de S.Paulo. No final de 2012, porém, Felipe largou seu emprego, foi até o aeroporto e comprou a primeira passagem aérea que viu.

Olhando para trás, ele admite que largar a Folha e sair sem destino foi uma atitude “impulsiva” e “imatura”, mas sabe que, o que considera ter sido a maior loucura de sua vida, foi o que o salvou.

Impulso e responsabilidade

Felipe é o tipo de pessoa que teve que aprender a enfrentar seus problemas desde cedo. Quando nasceu, em 1990, seu pai, que já era alcoólatra, passou a usar drogas. O fato gerou uma espécie de racha na família. Dois de seus irmãos viam no pai certa fraqueza e defendiam-no, enquanto outro era completamente contra o vício. E, no meio do caminho, ele. Seis anos mais novo que o então caçula, Felipe tentava não se envolver e manter uma posição neutra.

Os acontecimentos fizeram com que ele crescesse muito apegado à mãe, que sempre tentou poupá-lo de brigas e chateações. Apesar da proteção da mãe, desde os 17 anos, é Felipe quem ajuda o pagamento de contas. Todos os seus irmãos se casaram e tiveram filhos muito cedo, saindo de casa quando ele era apenas um adolescente.

Por ter assumido a responsabilidade de ajudar no sustento do lar, Felipe admite que não poderia ter largado seu emprego na Folha de S.Paulo, mas, se hoje ele tem maior liberdade para trabalhar com o que gosta e pode ajudar quem ama, foi muito devido à sua coragem de jogar tudo para o alto e correr atrás da felicidade – e de si próprio.

A louca viagem é o que parece separar o menino do homem. O garoto impulsivo e empolgado deu lugar a um homem mais calmo e responsável, que aprendeu a pensar mais em como seus atos podem influenciar a vida das pessoas que se importam com ele. Segundo Rafael Felix, além de ter mais coragem e cabeça para correr atrás de soluções de problemas antes deixados de lado, Felipe aprendeu também a dar mais valor às pessoas próximas.

Mesmo não considerando que vivenciou grandes problemas e de não sentir orgulho de ter passado por dificuldades, Felipe admite que, devido aos acontecimentos anteriores, hoje ele é capaz de lidar com situações que, talvez, pessoas da mesma idade dele não consigam.

De garoto a homem

Quando tinha 16 anos, Felipe se deu conta de que gostava mais de comerciais do que dos programas televisivos. Apesar de considerar “meio estranho para uma criança”, ele lembra que quando via uma propaganda que não gostava, pensava em como ele poderia torna-la melhor. Amante de games, o então garoto percebeu também que os sites dos jogos não eram muito atrativos para os gamers.

A observação e percepção logo deram lugar à curiosidade. Felipe começou a procurar na internet apostilas e tutoriais de design. Depois de algum tempo e muita leitura, ele já se arriscava e modificava o layout dos sites por diversão.

A brincadeira ficou séria quando, depois de fazer um site para a rádio na qual trabalhava, ele começou a receber propostas de freelances. O feedback positivo animou o garoto, que logo começou a pensar em tornar o passatempo em trabalho. A sensação de se sentir capaz de fazer algo por conta própria, e as boas respostas ao seu trabalho, o animaram a levar a paixão adiante.

Entretanto, ele logo percebeu que não seria fácil se tornar um designer. Com grande demanda para montar o layout de sites, Felipe se deu conta de que precisava se organizar melhor e se profissionalizar para poder ganhar dinheiro e mergulhar no mercado. Sempre de bom humor, ele conta que quando começou a receber pedidos de sites ficava perdido e não sabia quanto cobrar por eles.

A determinação e a força de vontade, características marcantes de Felipe, fizeram com que ele voltasse a estudar por contra própria para aprimorar seu serviço. Se com 18 anos grande parte dos jovens passa dias fora de casa e indo a festas, Felipe muitas vezes  deixava de sair com seus amigos para ficar estudando, passando horas e horas em frente ao computador.

Para ter uma base de quanto valia seu trabalho, já que não conhecia ninguém da área, ele entrou em contato com agências de publicidade fingindo ser um cliente. Rindo, ele conta que fazia sites “a preço de banana”.

As pesquisas ampliaram seus horizontes. Felipe descobriu que além de ganhar dinheiro fazendo algo que gostava, tinha a possibilidade de poder “fazer a própria empresa”. Antes de montar o próprio negócio, porém, era preciso conhecer o mercado.

Precisando ganhar dinheiro e sem ter como conciliar trabalho e escola, Felipe foi se dando conta de que o design estava virando mais que um hobbie, e que estava “se divertindo muito e trabalhando pouco”. Foi em seu primeiro emprego, no Instituto Universal Brasileiro, que ele aprendeu como funcionava o mercado de design.

No Instituto, ele se deu conta de que “achava que sabia tudo, mas, na verdade, não sabia nada”. Felipe sentiu a necessidade de aprender mais e voltou a estudar sozinho. Percebeu também que “quem faz design não sabe programação, e quem sabe programação não faz design” e começou a estudar códigos. No esquema “design no trabalho e programação em casa”, Felipe foi se diferenciando dos outros profissionais da área e novas oportunidades foram surgindo.

Com 19 anos, duas experiências profissionais, e cerca de 100 sites feitos, um amigo o indicou para uma vaga no jornal Folha de S.Paulo. Como não tinha formação universitária, Felipe sabia que teria que se empenhar muito para se equiparar aos seus colegas, mas ao mesmo tempo, se sentia confiante por estar no mesmo nível de profissionais formados.

A confiança e a consciência do seu potencial não atrapalharam Felipe, que não assumiu uma postura arrogante. Mesmo com muita empolgação, vontade de mostrar seus trabalhos e de ser cada dia melhor, ele continuava se esforçando, mantendo a característica humildade. Fez cursos livres, estudou, trabalhou duro e logo foi promovido. E foi na Folha que percebeu que “poderia ser um profissional de design, e não uma pessoa que trabalha com design”.

Mas nem tudo é o paraíso que parece ser. Aos poucos, os problemas começaram a aparecer. A rotina se tornou cansativa e o trabalho tomava muito do seu tempo. Paralelamente ao trabalho na Folha, Felipe fazia freelance, mas sentiu que a qualidade destes trabalhos estava caindo por não ter tempo para se dedicar a eles.

Depois de dois anos no jornal, Felipe percebeu que apesar da estabilidade e conforto financeiro, ele não estava mais feliz, e começou a pensar: “eu preciso fazer o que eu gosto”. Quando falava em sair da empresa, seus amigos o criticavam, dizendo lá ele tinha um plano de carreira e estabilidade financeira, ao passo que ele se perguntava: “vou ter todas as minhas necessidades econômicas em dia e vou ser infeliz, até quando? E a minha felicidade?”.

Em setembro de 2012, os aborrecimentos da vida pessoal começaram a se transpor para a vida profissional. Os problemas se acumularam de tal forma, que quando Felipe percebeu, eles já haviam se tornado insuportáveis. O problema de seu pai com as drogas, o sofrimento da mãe, a falta de apoio dos irmãos e amigos somaram ao descontentamento com a rotina maçante do jornal. O designer diz que estava “uma pilha de estresse” e não conseguia mais lidar com os problemas e ficar em São Paulo.

Após uma noite de bebedeira na rua, Felipe pegou um ônibus, foi para o aeroporto e comprou uma passagem só de ida para o primeiro lugar que viu. O destino? Espírito Santo. Em 25 dias e com menos de 2000 reais, ele visitou Espírito Santo, Bahia, Porto Alegre, Florianópolis e Rio de Janeiro.

Apesar de admitir que foi um ato impulsivo largar tudo e ir com pouco dinheiro para um lugar desconhecido, o designer considera que o que fez foi necessário. “Acho que foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida”, afirma.

Se na primeira semana ficou sem celular e internet, isolado de tudo e de todos, pouco a pouco Felipe aprendeu a “compartilhar experiências” com as pessoas conheceu ao longo da viagem e que foram muito importantes para o seu processo de amadurecimento ao dar conselhos que eram ouvidos com humildade e absorvidos como novos conhecimentos.

Já no final da viagem, em Porto Alegre, uma ligação de sua mãe fez com que Felipe se desse conta de que “estava sendo egoísta”, se esquecendo das pessoas que dependiam e se importavam com ele.

Por “sorte divina”, Felipe conseguiu comprar uma passagem de volta para São Paulo com o exato valor que sobrara em sua conta.

A relação de Felipe com a Igreja e com sua fé, inclusive, é conturbada. Sua primeira tatuagem, um ideograma japonês na nuca, significa Deus, pois segundo ele, Deus o salvou várias vezes, “não pode ser ciência, não tem explicação”. Em um momento “mais revoltado”, porém, ele tatuou uma cruz rachada no braço para simbolizar sua falta de fé, desenho que ele se arrependeu de ter feito e que pretende preencher, já que voltou a crer.

Uma nova fase

No dia 1 de junho, Felipe realizou um sonho e teve oito peças expostas na casa noturna Lab Club em São Paulo. O feedback foi positivo e o dono da casa, depois de ouvir muitos elogios, deixou as portas abertas para Felipe, que recebeu um convite para expor obras no Rio de Janeiro também.

Além disso, o designer sentiu a necessidade de voltar a estudar e agora cursa Design de Mídia Social na Faculdade Impacta de Tecnologia junto com Rafael, amigo que “contaminou” depois que voltou de viagem, e que também “resolveu tomar um rumo na vida”.

Felipe conta também que tem planos de ir para os Estados Unidos para estudar efeitos visuais e foto manipulação depois que terminar a faculdade, e brinca: “dessa vez é programado, chega de loucura”.

Autonomia

Hoje, Felipe faz seu próprio horário. Acorda cerca de nove horas da manhã, checa e-mails e Facebook. Gruda papeizinhos no home-office que montou, para organizar as tarefas do dia. Almoça, passeia com o cachorro e trabalha até o horário de ir para a faculdade, que vai das 19h às 23h.

“Quando se abre mão de algo, se ganha outra coisa em troca”. Se hoje Felipe é feliz porque consegue fazer o que gosta, concretizar seus desejos e ajudar as pessoas próximas, é porque abriu mão de apenas uma coisa: o emprego.

Apesar de gostar da liberdade para fazer seus freelances, o designer admite que às vezes fica preocupado com a instabilidade do negócio, e por isso, quer agora arranjar um emprego fixo que dê segurança financeira, mas que o permita continuar com o trabalho de casa.

Ao mesmo tempo em que sua vida pessoal parece ter se acertado, ele tenta acompanhar a profissional, que sente estar passando “tão rápido que às vezes não dá tempo de acompanhar”.

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Troca de perfilado

Por uma série de problemas, mudei o meu perfilado.

Vou escrever sobre Felipe “Krust”, designer que já trabalhou em veículos importantes como a Folha de S. Paulo mesmo sem ter um diploma (ainda). Um dia, Felipe largou seu emprego, foi até o aeroporto e comprou a primeira passagem de avião que viu, buscando fugir de seus problemas. Um dia, Felipe voltou para São Paulo para encará-los.

 

 

Perfil – Claudia Mª Bigoto Rodrigues

Em outubro de 2011, às vésperas do ENEM, a vestibulanda Claudia Maria Bigoto Rodrigues, de 20 anos, foi diagnosticada com insuficiência renal crônica. Para não morrer intoxicada com o próprio sangue, Kraw passou por diversas sessões de hemodiálise, não podendo fazer as provas para as quais tanto havia estudado.

Em julho de 2012, Claudia passou por um transplante renal e se viu longe da hemodiálise. O rim transplantado, porém, não estava funcionando como o planejado. Os médicos descobriram que uma de suas artérias havia “estenosado”, o que diminui a eficiência e a vida útil do órgão.

Para extravasar as emoções e passar o tempo, Claudia criou um blog que chegou a quase 20 mil visualizações – um dos fãs do diário virtual é o cantor e compositor Arnaldo Baptista.

Escolhi fazer o perfil de Claudia porque me admira sua luta diária. Porque apesar dos problemas de saúde, ela é como qualquer outro vestibulando de medicina e passa horas e horas estudando. Porque apesar de ser como qualquer outro estudante de medicina que passa horas e horas estudando, ela é diferente. Diferente porque já viu de perto muito daquilo que só vai ver nos livros quando estiver na faculdade. Diferente porque uma vez por mês tem que largar os estudos e vir para São Paulo buscar seus remédios.

A Anarquia da Arte

O surgimento da Arte Postal como alternativa à arte burocratizada das galerias e sua sobrevivência frente ao surgimento de novas mídias.

Imagine chegar em casa após um longo e exaustivo dia de trabalho e estudos, abrir a caixa do correio e ver que o carteiro só te deixou uma pilha de contas para pagar. Desanimador, não? Agora imagine que junto a essas contas, venha um envelope de endereço e remetente desconhecidos. Você, curioso, abre o envelope e descobre que seu conteúdo é um cartão postal artístico. Melhor?

Os participantes de grupos de Arte Postal dizem que essa experiência de chegar em casa após um dia cansativo e ver que em meio a contas do mês se encontra um pequeno envelope anônimo, alegra o dia, tornando-o mais leve e gostoso. Para Raquel Marques, artista e professora de artes na Rede Municipal de Jandira, “a melhor parte da Arte Postal é a troca, a ansiedade de saber se a pessoa recebeu, se gostou. É a sensação de receber uma carta quando menos se espera e isso mudar todo seu dia”.

 

A Arte Postal surge nos anos 1960 a partir do compartilhamento de criações artísticas através dos correios, como uma alternativa às exposições de arte. O marco do seu surgimento é a criação da “New York Correspondance School of Art” em 1962 pelo artista americano Ray Johnson.

Johnson rompeu com o conceito de privacidade das cartas ao utilizar o envelope para se expressar, escrevendo frases e colando imagens no lado externo, de forma que qualquer um pudesse ver o que estava sendo enviado. Ele não limitava o envio para seus amigos e conhecidos, e trocava postais com quem quer que enviasse cartas à escola, formando assim uma grande rede de artistas.

O artista, porém, não foi o primeiro a utilizar os correios para difundir arte. Pintores e escultores como Pablo Picasso, Henri Matisse, Marcel Duchamp e Francis Picabia já utilizavam os correios para compartilhar sua arte com seus colegas. Os vanguardistas enviavam obras por correio para pedir opiniões, incrementos e divulgar para seus amigos suas novas criações. Futuristas e dadaístas defendiam que qualquer pessoa poderia intervir em uma criação, os surrealistas acreditavam no coletivismo e intercâmbio de obras, e os seguidores da corrente Merz introduziram a lógica da não comercialização de obras, fatores captados pela Mail Art.

A década de 1960 viu a bipolarização do mundo e o nascimento de regimes ditatoriais, e a arte refletia esse momento, no qual as ideias e os conceitos reproduzidos eram mais importantes do que a arte como peça. Ray Johnson fazia parte de um grupo de pessoas interessadas em fazer com que o objeto artístico voltasse a ser mais importante que a ideologia retratada e, a partir da Mail Art, ajudou a criar uma nova visão de arte.

A Arte Postal surgiu também em resposta à mercantilização da arte, que estava sendo julgada e burocratizada, restringida a galerias. Para o movimento, arte é um meio de comunicação e expressão, e não uma mercadoria. A utilização dos correios é uma forma de democratizá-la, tornando-a participativa e acessível para todos.

Uma das características mais marcantes da Mail Art é a formação de uma rede de contatos alimentada por uma lista de endereços, da qual qualquer pessoa pode entrar ou sair a qualquer momento.

As regras do movimento foram criadas conforme o seu desenvolvimento. Os pontos mais importantes são: as obras não podem ser comercializadas, julgadas, devolvidas ou censuradas; todo postal recebido deve ser respondido e, para receber um postal, é preciso primeiro enviar um para qualquer pessoa da lista. É essencial que a arte seja produto da comunicação e que haja a possibilidade de um intercâmbio cultural, artístico e político.

No Brasil, a Arte Postal caminhou com a luta pela liberdade de expressão. Seu surgimento coincide com a Ditadura Militar, período no qual muitos artistas tinham suas obras condenadas. Buscando um meio de se expressar e comunicar sua revolta sem sofrer censura, os artistas aderiram à Mail Art.

Assim como outros movimentos contrários ao sistema, ela acaba caindo nas teias dos militares. Em 1975, os artistas Paulo Bruscky e Daniel Santiago são presos após a abertura da 2ª Exposição Internacional de Arte Postal organizada no Recife, fechada pelos militares uma hora após sua inauguração. A prisão da dupla teve repercussão internacional, escancarando para o mundo a ditadura que não só o Brasil, mas outros países latino americanos também enfrentavam.

Reprimida, a Arte Postal volta a se fortalecer somente na década de 1980, quando ganha uma sala na 16ª Bienal Internacional de São Paulo, contando com a apresentação de obras de quase 400 artistas do Brasil e do exterior. Apesar de favorecer o movimento por dar-lhe maior visibilidade, a existência de exposições de Mail Art é um tanto contraditória, uma vez que ela surgiu com o ideal de que a arte deveria ser livre e circular fora das galerias.

A contradição não está somente nas exposições, mas também no que foi feito com o material exposto. Se a princípio a Arte Postal tinha como intuito ser algo não colecionável, hoje existe na Pinacoteca Municipal de São Paulo, o Escritório de Arte Postal, com seis coleções e cerca de 3.500 peças catalogadas.

A parceria com universidades também parece ir contra o princípio de não institucionalização da arte. Porém, por não terem características típicas de mercado e não visarem o lucro, as universidades não agridem os princípios do movimento. A Universidade Estadual de Campinas tem grande papel no processo de manutenção da Arte Postal. Há na universidade o Núcleo de Arte Postal da Unicamp, que, criado na década de 80, promoveu uma série de eventos e intervenções artísticas com objetivo de estimular a criação em rede, recebendo postais de diversos países.

A Arte Postal viveu diversos momentos. Criação em 1960 a partir do desejo de fazer uma arte desburocratizada e participativa, ascensão em 70 com a ampliação e surgimento de novas redes de relacionamentos, ganho de espaço e visibilidade com a realização de exposições em museus e em universidades em 80. Nos anos 90, com o surgimento de novas mídias, foi o momento de adaptação e luta pela sobrevivência.

Enganou-se quem pensou que a Mail Art se extinguiria com o surgimento do telefone e da internet. Mesmo que a tendência atual seja que as pessoas utilizem cada vez menos os correios, a troca de postais se modificou, ganhou novos adeptos e visões, e sobrevive.

Se antes da internet rodavam listas de endereços nas exposições e nas próprias cartas, hoje as pessoas se organizam utilizando o e-mail ou o Facebook. Através de grupos criados nas redes sociais, formam-se as redes de artistas e organizam-se as convocatórias, postagens que convidam os participantes a desenvolver sua arte sobre um determinado tema.

As únicas regras do grupo do Facebook “Arte Postal” criado por Bruno Perê em janeiro deste ano são: para receber um postal é preciso primeiro enviar, e, todo postal recebido deve ser postado no grupo.

Há total liberdade de criação, as obras podem ser feitas com diversas técnicas – colagem, desenho, fotografia, estêncil – ficando a critério do artista. Não há nenhuma espécie de censura quanto ao material a ser enviado, mas Lautaro Salgado, fotógrafo e gestor cultural, diz que tenta não enviar algo que possa desrespeitar seu destinatário.

Como o grupo de Perê é pequeno, os participantes dizem não ter receio de expor seus endereços para desconhecidos. Lautaro afirma que, inevitavelmente, a maioria dos seus dados pessoais podem ser encontrados na internet. Já a designer Carolina Daffara e a professora Raquel Marques seguem por outra linha, confiam nos integrantes do grupo, já que a maior parte deles é de “amigos de amigos”. A primeira considera “pouco provável” que alguém queira lhe causar algum prejuízo através do endereço, e a segunda brinca que “tecnicamente é uma rede segura. E se alguém aparecer pessoalmente na minha porta entregando o postal, vai ser o máximo, vou adorar e convidar a pessoa pra entrar e tomar um suco!”.

Lautaro entrou na comunidade há apenas dois meses com o intuito de divulgar seus projetos, mas participa de outros grupos de Arte Postal. Para ele, a melhor parte é poder “descobrir artistas, ideais e beleza. Poder trocar e democratizar a arte”. O uruguaio afirma que uso da internet pode facilitar a comunicação para “saber das chamadas, projetos e convocatórias”, além de democratizar o movimento, ideia da qual a professora de artes Raquel Marques discorda, uma vez que “se a pessoa fizer um desenho à mão e não tiver um scanner ou câmera, ela terá outras dificuldades para que o trabalho chegue ao seu destino”.

O uso da internet com certeza facilitou o processo para os artistas postais, que não precisam mais procurar listas de endereços, ir até uma agência dos correios, custear o envio e não saberem se a carta enviada chegou ou não ao destinatário. Mas quem disse que essas pessoas preferem o fácil? Para Raquel, a delícia é que o objeto físico tem um trabalho individual e pessoal, que é muitas vezes feito por um desconhecido para outro igualmente anônimo: “vai ter a letra da pessoa no envelope, vai ter o gesto marcado no traço do desenho, a digital na colagem, o tempo que ela usou para preparar aquilo para você, o deslocamento dela até uma agência, a espera na fila, o tempo que a carta percorreu até chegar em você”.

O uso de novas plataformas, porém, não substitui a troca de objetos físicos. Para a Carolina Daffara, a aura da carta enviada pelo correio é diferente, “incomparável a um e-mail”, uma vez que “o objeto real e físico toca outros sentidos que não apenas a visão”.

“Uma imagem virtual é reproduzível, uma carta é um objeto único”, afirma Carolina. Além da unicidade das imagens, Laurato ainda ressalta que a qualidade pode ser prejudicada quando se envia um postal pela internet, uma vez que “muitos artistas trabalham com as mãos, não com arte digital” e “a textura não se reproduz na internet e, em muitos trabalhos, é um elemento muito importante”.

Raquel, por sua vez, considera “super válida a troca pela internet”, mas vê o instauro de “outra dinâmica, que se configura na construção das relações, outros gestos”, porque apesar de mais rápida e prática, a internet vive a contradição de parecer “desconectar todo mundo”.

Em uma época em que tudo é imediato e as pessoas vivem correndo, a professora de artes desabafa: “o correio traz de volta aquela ‘magia poética’ do tempo, de te fazer esperar por algo”. Para ela, participar de um grupo de Arte Postal “é estar preparando a resposta e não saber se, de repente, a pessoa que te enviou um postal está preparando outro, ou se outra pessoa também está pensando em algo pra fazer pra você. Acho muito poético e muito louco essa dinâmica que acontece da vida em movimento, da criação de novas relações e conexões”.

Apesar de favorecer essas novas conexões, muitos participantes do grupo nunca desenvolveram maiores relações entre si. Raras vezes alguém adiciona um outro integrante no Facebook, por exemplo, a menos que a pessoa seja um conhecido. Raquel defende, porém, que “a troca de correspondências já é uma forma de ‘adicionar’ a pessoa na sua vida, sem necessariamente estar conectado pelo facebook, a cada postal trocado sinto como se ganhasse um novo amigo, uma parte dele. É um estreitamento de relações nesse mundo louco e (des)conectado que vivemos”.

Arte Postal

Tema: História da arte / cultura.

Viés: Comportamento

Foco: A resistência da Arte Postal.

1) Quero propor uma reportagem temática que aborde a história e a sobrevivência da Arte Postal em um mundo no qual a maioria das pessoas não utiliza mais o correio.

2) Estou propondo-a com base em um grupo do Facebook que reúne pessoas interessadas em trocar cartas com desenhos, poemas e fotomontagens com desconhecidos.

3) Tenho curiosidade em saber como a Arte Postal conseguiu sobreviver mesmo depois de o correio ter perdido espaço para os novos meios de comunicação como o  telefone, as redes sociais e o e-mail. Também tenho curiosidade em saber como os participantes ficaram sabendo da existência do grupo, o que os atraiu para que eles começassem a participar ativamente dele, se eles já conheciam a proposta da Arte Postal e se eles não se sentem inseguros em passar seus endereços para desconhecidos.

4) Se eu fosse começar tudo por uma pergunta aberta, seria: Por que insistir nos correios se hoje há a possibilidade de trocar informações e opiniões pela internet?

5) Participantes do grupo do Facebook poderiam me ajudar a responder minha pergunta.

6) Essa reportagem é especial por mostrar que existem pessoas que ainda utilizam o correio como uma forma de propagar arte.