A vida por trás de uma lente

O sábado começou como qualquer outro: mais um dia de trabalho. Porém este em especial estava envolto em expectativa pois pela tarde eu entrevistaria Flávio Tallman. Como não criar nenhum tipo de ansiedade quando você, estudante de jornalismo,entrevistaria outro jornalista? E ainda por cima um jornalista e fotógrafo renomado, com diversos prêmios na bagagem e experiência de sobra. Será que ele seria paciente com os erros de uma jornalista iniciante? Será que eu conseguiria fazer todas as perguntas que eu tanto queria? Todas estas perguntas rondavam meus pensamentos enquanto eu aguardava o trânsito da Radial Leste se mover ou os ponteiros do relógio congelarem,pois se o trânsito se prolongasse um pouco mais, eu estaria muito atrasada.IMG_6164

Depois de tentar ao máximo chegar a tempo, finalmente consegui alcançar o meu destino: a casa de Tallman. Mesmo sendo moradora do bairro da Penha por toda a minha vida, eu nunca havia reparado na pequena vila daquela rua. A casa de Tallman era ali, adentrando os portões daquela vila que parecia estar à parte do mundo agitado em que vivemos. A arquitetura antiga das casinhas, as pequenas árvores, os bancos e flores eram convidativos a qualquer um que apreciasse a beleza e calmaria do antigo. Entrei na vila acompanhada por meu pai, Milton, que fez a gentileza de me levar até lá. Sabendo de sua paixão pelo bairro da Penha e tendo o jornalismo na veia e coração, mas não como profissão, pedi a ele que me acompanhasse na entrevista. Seu Flávio já estava a nossa espera e foi nos receber antes mesmo que chegássemos a casa número 4 da pequena vila. Recebemos um caloroso “bem-vindos” do simpático Tallman e logo ele e meu pai já estavam a conversar sobre a história do bairro da Penha.

Nos poucos minutos de conversa com o jornalista, a simpatia  e atenção que deu ao nosso encontro eram facilmente visíveis. Seu Flávio é um senhor de mais de setenta anos com espírito alegre e muito bem humorado. Vestia roupa social: camisa branca com a gravata combinando e calças azuis. O senhor de cabelos brancos trazia nas mãos um quadro ao qual tinha muito apreço e era notável seu orgulho e emoção enquanto falava dele. Era um mapa emoldurado da antiga Penha, contendo os nomes as quais as ruas eram chamadas antes. Seu Flávio é um apaixonado pela Penha e foi com ela que a paixão da fotografia se deu início. “Comecei a fotografia na brincadeira. Fui trabalhar em laboratórios e lá peguei a prática, aí vim trabalhar em casa.  Sempre tive estúdios e laboratórios”. Tallman carrega anos de experiência no jornal de bairro Gazeta Penhense, e mantem- se ativo na profissão até hoje. O jornalista nunca sai de casa sem suas câmeras, pois a notícia está em toda a parte. “A Gazeta Penhense não tem cor política, mas temos força aqui na Zona Leste. As matérias que faço mexem com tudo e todos. Jornais grandes se vendem, mas nós não”.

Seu Flávio sempre esteve ligado à política e presenciou momentos importantes e decisivos de nosso país. O fotógrafo lembra da imensa quantidade de partidos políticos que havia antigamente, além de toda a questão ideológica embutida na época da ditadura militar brasileira. Sabendo de sua amizade com o ex-presidente do Brasil, Jânio Quadros, eu não podia deixar de abordar o assunto.  Quando perguntado sobre sua maior lembrança de Jânio, Tallman respondeu em forma de canção: “Ele é um colosso, é um paulista de Mato-Grosso”. Seu Flávio lembra dos primeiros anos de Jânio na política e de sua amizade com o ex-presidente da República. “Quando Jânio entrou na política em 52, eu já estava fotografando ele. Tinha muita amizade com ele, amizade a ponto de lhe visitar em sua casa no Cambuci.  O acompanhei  desde que foi vereador até a presidência, e ele realmente colocou o país no eixo”., defende o amigo. Ele conta que sua relação com a política é presente até hoje “Maluf entra na Gazeta pela porta da cozinha e já vai se servindo um café”.

Demos uma pausa na conversa pois Tallman iria me mostrar seu Museu da Fotografia, este que fora criado em um cômodo de sua própria casa. Flávio acende a luz do corredor e pude ver uma pequena placa ao lado da porta do museu: que dizia:“Uma viagem ao passado do presente”.

IMG_6179Entramos na sala e mal podia imaginar que tanta história pudesse estar contida nela. A sala acomoda diversas máquinas fotógraficas e aparatos para estas, além de fotografias que Tallman fez durante os seus anos de profissão. É um recanto apaixonante para quem ama fotografia. A máquina fotográfica mais antiga tem o carinho especial de Tallman e carrega uma homenagem escrita por ele: “Hoje estou velha, esquecida e desprezada, mas se não fosse por mi, jamais teria tanta evolução e vocês nunca chegariam até os dias de hoje com a foto digital. Tudo começou comigo, esta máquina velha…”. A sala possui um enorme armário cheio de lentes, câmeras antigas e modernas, e uma parede cheia de honrarias que recebeu durante sua carreira. A quantidade de medalhas, troféus e documentos de homenagens a Tallman são surpreendentes e a contagem só tende a aumentar pois no mês seguinte viria a receber mais uma homenagem. Ele lembra dos momentos que acompanhou, como o quarto centenário de São Paulo, a inauguração do Obelisco, o início da atividade do Penha Palace, atividades políticas. Aliás, a sala tem fotos de políticos feitas por Tallman por toda a sala, inclusive fotos do jornalista com Jânio, seu amigo.

O relógio de pêndulo já marcava seis horas da tarde. O tempo passou rápido e não queria que a entrevista terminasse. Tirei da bolsa minha câmera fotográfica e pedi ao Seu Flávio se podia tirar fotos da sala e dele também. É claro que tirar fotos de um fotógrafo não é fácil ,mas Tallman se mostrou extremamente atencioso. Arrumava as luzes da sala toda vez que eu mudava o ângulo da foto, dessa maneira minhas fotos sairiam boas. Para finalizar a nossa entrevista, perguntei a Tallman qual era o segredo de uma boa fotografia. Com um sorriso no rosto e sem pensar duas vezes, respondeu: “A boa fotografia se faz por quem está por trás dela”.

A entrevista chegara ao fim mas nosso encontro ainda duraria mais alguns minutos, pois meu pai e eu fomos convidados para tomar um café com ele. A mulher de Seu Flávio, Dona Cida,  havia nos servido uma mesa cheia de coisas gostosas para comer. Aquela ansiedade e medo de fazer uma entrevista boa terminaram assim que Flávio me deu as boas-vindas daquele jeito simples, humilde e bem-humorado. A paixão com que contou cada detalhe de sua jornada na fotografia e jornalismo deixariam qualquer um igualmente encantado. Com o relógio de pêndulo batendo mais uma vez eu me despediria daquele senhor que vivia na casa 4 da vila antiga, e que me fez sentir o quão apaixonante a fotografia e jornalismo de fato são.

Anúncios

Perfil – Flávio Tallmann

Gostaria de fazer um perfil sobre Flávio Tallmann, que está  há 55 anos no ramo da fotografia. Flávio, figura ilustre do bairro da Penha, começou sua vida na fotografia aos 16 anos, que no  início levava apenas como hobby. Anos mais tarde, a fotografia tornou-se profissão e Flávio acompanhou a vida de diversos políticos brasileiros, desde Jânio Quadros, de quem era amigo, até os políticos atuais. Após ter clicado diversas personalidades e presenciado eventos históricos, Flávio decidiu criar um Museu da Fotografia em sua própria casa, e é lá que suas memórias e trabalhos ficam expostos.

O hip hop da gente: breaking e street dance

A descriminalização do hip hop é a maior batalha que quem dança enfrenta. O hip hop é de toda a gente, da gente que aprende nas ruas ou nas academias de dança.

O hip hop está entre os mais populares movimentos culturais da atualidade e vem agregando e moldando pessoas de todas as classes sociais. A cultura hip hop teve origem nas pequenas comunidades afro-americanas, jamaicanas e latinas da cidade de Nova York dos anos 70. Os subúrbios, ou guetos, que viviam o hip hop tinham como objetivo lutar contra a descriminalização racial e problemas frequentes, como a pobreza, a violência e as drogas. Por não terem infra-estrutura adequada para suprir as necessidades básicas de uma comunidade, como educação e cultura, os subúrbios começaram a apostar no hip hop como uma forma de direcionar suas crianças e trazer os jovens para a sociedade novamente.

A primeira organização oficial do hip hop foi criada no Bronx,bairro suburbano de Nova York, e visava acabar com os problemas dos jovens e criar “batalhas” não violentas entre os guetos para pacificar os bairros periféricos. A OMG Zulu Nation foi criada pelo DJ Afrika Bambaataa (pseudônimo de Kevin Donovan) e tem como prioridade deixar vivo o espírito do hip hop, este que é baseado no amor, paz, união e diversão. A ONG organizava palestras chamadas Infinity Lessons, ou seja, aulas cujo conhecimento seria levado para a vida toda, como prevenção de doenças, matemática, ciência, economia e outros conceitos que ajudavam a direcionar o pensamento das gangues. Além disso, a ONG abria espaço para a liberdade de expressão através da arte, para assim, os jovens que se sentissem excluídos por pertenceram aos extratos descriminados da sociedade, pudessem ter voz.

A fim de organizar as vertentes do hip hop, Afrika Bambaataa , reconhecido como o criador do movimento, dividiu o hip hop em rap, djing, breakdance e grafite . Na proposta deste trabalho, iremos analisar o mundo por trás da dança dentro do hip hop que carrega filosofia e movimento.

O hip hop vem crescendo cada vez mais no mundo dos jovens, seja ele da classe social que for. Uma das grandes casas de hip hop é a filial da Zulu Nation no Brasil, em Diadema. Lá são organizadas diversas batalhas, palestras, festivais e aulas.  A cidade de São Paulo é o grande palco para os que desejam aprender e mostrar sua arte. Foi nas praças da Zona Leste de São Paulo que Leonardo Henrique Vilela teve contato com o hip hop pela primeira vez. “Comecei a dança vendo os shows numa praça e procurei a escola que eles treinavam, aí fui, curti e comecei a dançar”. Leonardo estava entre os participantes da Final Regional Batalha de Breaking, organizada pela prefeitura de São Paulo.  O evento tomou o Vale do Anhangabaú e foi parte da “Semana da Cultura Hip Hop”, cujo tema desse ano foi “arte pela vida”. O evento celebrou o Dia Internacional de luta Contra a Discriminação Racial, comemorado no dia 21 de março. A Final Regional Batalha de Breaking reuniu um público bastante variado, desde crianças fascinadas pelos participantes do breaking e seus movimentos precisos e cheios de acrobacias, até curiosos, praticantes e jovens que vibravam com as batalhas centradas no palco.

Os participantes, chamados de “Bboys”, vieram de diversas regiões de São Paulo para disputar no palco o tão esperado primeiro lugar da batalha. Embora a competição tivesse o intuito de dar o primeiro lugar a um grupo de breaking, o que realmente se tornou centro do evento foi a diversidade. Em meio ao público, a dança, a música alta ecoando pelo Vale e a gente dançando, havia invisível a bandeira da luta contra a discriminação hasteada. Não havia distinção de raça, classe social, sexo ou idade. O hip hop abraçou a todos e o Anhangabaú foi palco disso. O jovem “B-Boy” Leonardo , membro do grupo “Gang Style Tradicional”que ficou em segundo lugar na competição, adotou este novo estilo de vida chamado hip hop. “O hip hop é minha vida. É um estilo de vida muito diferente e tira muita gente do caminho errado. Não tem essa de classe social, de cor e de raça. Quando tá todo mundo junto, é uma coisa só. Não tem preconceito”. O Bboy acredita que São Paulo está pronta para agregar o hip hop à sociedade e passar a valorizar a dança como um estilo de vida que encaminha os jovens.

FOTO: Juliana Sonsin LimaFOTO: Juliana Sonsin Lima

Mas as danças do hip hop não são coisas de homem não. No meio de uma roda de Bboys no Vale do Anhangabaú, estava Ana Carolina fazendo as acrobacias no chão e no ar sem desarrumar o cabelo. Ana começou no breaking há quatro anos e já está no street dance há mais de dez e diz conciliar ambas as danças de forma harmoniosa. Ana explica a diferença entre o breaking e o street dance “O Breaking, se você perceber, é mais free style. Você dança o que cria, então exige muito mais disciplina. O Street dance já é mais coreografia, mais show”. Ana diz não haver preconceito pelo fato de ser mulher, pois o hip hop não tem preconceito com nada e nem ninguém. Embora tenha consolidado seu espaço no meio dos Bboys, a Bgirl reclama da falta de mulheres no hip hop.  “Tem pouca mulher pois exige força e resistência e muita menina não quer treinar. No street como é coreografia, é mais fácil, então tem mais mulher. A gente compete também e qualquer evento que tiver marcamos presença,  mesmo que for só pra assistir, pois queremos fortalecer a cultura hip hop”.

Os jovens do hip hop são extremamente conscientizados e por estarem à margem, vivem a descriminalização e falta de valorização todos os dias. Esta descriminalização do hip hop envolve retirar da imagem deste, aquele de periferia, bandido e ladrão. O hip hop não é isso, mas sim uma forma de expressão artística e filosófica onde os jovens encontram seu lugar na sociedade. O estudante e Bboy Erick Brown, diz que tudo no hip hop é fantasiado, pois todos acham que hip hop é coisa de bandido, coisa dos guetos violentos dos EUA, e acabam ficando na margem, sem reconhecimento. Para ele, os eventos são extremamente importantes para incluir os Bboys na sociedade novamente, porém diz que isso não é o bastante. “Tem muitos eventos, mas a maioria é de iniciativa privada. A prefeitura só sede o lugar e mesmo com alguns eventos e um investimento mínimo, acho que podia ser bem mais, por exemplo, organizar junto com os eventos de hip hop, onde muitas pessoas carentes vem assistir, uma assistência médica de graça, odontológica, workshops….”.

Erick Brown teve seu primeiro contato com o breaking dance  no interior de São Paulo, nas ruas, como quase todos os dançarinos, em um espaço que a prefeitura cedia.  Quando veio para a capital, começou a dar aulas em céus visando um trabalho filantrópico de ajudar os meninos que estavam sem rumo. “O hip hop acaba sendo um meio de recreação e um meio de salvar a vida das pessoas. O que me trouxe ao meio social novamente foi o breaking e aqui eu tenho um lugar. Na favela não tem academia, parque, nutricionista, médico…o que acaba direcionando e salvando as pessoas é o breaking, que é acessível a todos. O que me salvou e me trouxe de volta à sociedade foi o breaking. Só com o hip hop eu voltei a ser reconhecido e respeitado tanto quanto o cara que estudou, entende de política, economia e línguas”.

Em outro ambiente e numa outra condição social, o hip hop com o breaking e street dance também é praticado por inúmeros jovens das academias de dança. Embora a vivência destes jovens não seja a mesma que a dos Bboys, a filosofia da dança e da conscientização de que esta pode salvar e direcionar vidas é a mesma.

Lorenza Teixeira de onze anos é estudante de uma academia de dança da zona leste da de São Paulo. Embora sua condição social seja extremamente diferente da de Leonardo, Ana e Erick, Lorenza acredita que a dança do hip hop é uma das melhores formas de expressão. “Comecei no street dance com seis anos na escola. No início era apenas uma modalidade de dança que a escola tinha, mas depois resolvi continuar o street por conta em outra escola. Se eu fosse escolher entre jazz, ballet ou street escolheria street dance! O Street dance é mais solto, mais livre e a gente pode criar”.

Num mesmo contexto social, mas fora das academias de dança, está o estudante de engenharia Mauricio Murakami, que também tomou paixão pela dança do hip hop, porém de um jeito um pouco diferente. Maurício não treina em academias ou vai às ruas. O estudante resolveu começar a praticar o street dance por conta própria após assistir vídeos na Internet e campeonatos mundiais.  “Eu comecei através de meus amigos que viram vídeos e estavam querendo iniciar uma vida no street dance, e eu os acompanhei.” Os amigos praticam com o único intuito de viver a dança e eventualmente participam de alguns campeonatos. “Já presenciei por volta de 5 eventos e participei de 2. Impressionei-me com a diversidade de pessoas, sem preconceitos de tamanho, raça, sexo ou descendência, que participam dessa cultura hip hop”.

Mauricio também acredita no hip hop como filosofia e como guia de vidas. O filantropismo por trás do hip hop é uma ferramenta indispensável no futuro dos jovens do nosso país.  “Muitos jovens e crianças tem a oportunidade de ter um entretenimento para períodos fora da escola, e evitar com que tenham más influências para as drogas e crimes”.

FOTO: Juliana Sonsin Lima

O Hip Hop de toda a gente

1. Quero propor a seguinte reportagem temática: investigar os eventos de hip hop em são paulo e a diferença das danças do movimento em diferentes classes sociais .

2. Estou propondo-a com base nos seguintes fatos e/ou percepções: após assistir à alguns eventos de hip hop, quis saber mais deste movimento e estilo de vida que agrega e valoriza tanto os jovens Bboys.

3. O que eu tenho muita curiosidade de saber? Expor a diferença entre breaking dance e street dance, apontar se há disparidade da cultura hip hop em classes sociais distintas e apresentar a cultura hip hop.

4. O que você conhece de breaking e street dance?

5. Que fontes (obras e pessoas) poderiam me ajudar a repondê-la? Entrevistaria os dançarinos de breaking e street dance (Bboys), sejam eles dançarinos das ruas ou das academias de dança.

6. O que acho que há de especial nesta minha proposta? Esta pauta visa expor a cultura hip hop de uma maneira que  mostre a dança e as pessoas por trás dela, além de descriminalizar o hip hop, pois este é uma filosofia de expressão artística e um movimento social de encaminhamento de jovens que antes estavam sem rumo e á margem da sociedade.  Meu objetivo é mostrar que a dança e o hip hop ajudam a salvar vidas.