A vida em movimento

“A Martha é uma mulher de mil telefones”, diz Luiz Rogatto, o marido, que tenta localizar a esposa em seus vários números para lembrá-la da conversa que marcamos. Ele a define como uma mulher de múltiplas habilidades. “Ela busca fazer o máximo de atividades diferentes para adquirir experiências que a ajudarão em situações futuras. Às vezes eu lhe pergunto: ‘Tem alguma coisa que você ainda não tenha feito?'”.

Luiz aponta duas características marcantes na personalidade de Martha Rogatto: coragem e otimismo, muito utilizadas nas apostas dela em cassinos, nos jogos de poker online e até mesmo quando investe na bolsa de valores. Luiz acrescenta: “Ela não tem medo de errar, confia muito na sua solução para os problemas. Tínhamos um casamento para ir e enquanto grande parte das mulheres já haviam comprado seus vestidos um bom tempo antes, a Martha foi atrás de um apenas quatro dias antes do evento. Ela ainda o desmontou inteiro e o costurou novamente, acrescentando pedrarias até mesmo enquanto estávamos no carro, a caminho do casamento”.

Martha adora atividades manuais, talvez um gosto herdado da família de músicos e pintores. Um de seus hobbies é jardinagem. Nas sacadas de seu apartamento ela cultiva desde pequenas plantas frutíferas, como pitangueiras e maracujazeiros, até plantas pouco comuns, como pistache da Alemanha e noni, espécie conhecida pela seu poder de combate ao câncer. Os cuidados não se restringem a regá-las; ela também faz mudas e replanta.

A sala representa em grande medida a vida de Martha, que seguiu a carreira comissária de bordo; diversos enfeites adquiridos em viagens, móveis de diferentes estilos e vasos com plantas sobre eles, uma árvore-da-felicidade que está com Martha há 26 anos, trazida do Rio de Janeiro para sua casa, em São Caetano do Sul, e até mesmo um aviãozinho recebido como prêmio de comissária mais elogiada pelos passageiros no último trimestre de 2012. “Gosto muito do que faço e fico contente quando vejo que os passageiros saem satisfeitos do voo”.

A costura é mais um de seus passatempos. Quando ela se cansa da decoração da casa, trata logo de mudá-la, como fez com as cortinas e as capas dos sofás, costuradas por ela mesma. Se Martha pudesse ser representada por um tipo de costura, seria patchwork; diversos retalhos de experiências distintas que se juntam formando uma bela composição de vida. “Ela adora mudar a casa e tem uma capacidade muito grande para adaptá-la as nossas necessidades. Eu costumava estudar no quarto, mas me sentia distante da família quando precisava ir para lá. Então, ela improvisou um espaço de estudos na sala, separando-o por um piano e adaptando uma mesa usando como base a antiga máquina de costura da minha mãe”, compartilha Luiz.

Mas para praticar seus hobbies, Martha precisa estar descansada. Segunda ela, a aviação determina oito folgas ao mês, o que pode ser desgastante. Ela pode tanto dormir dias fora de casa, como ficar de reserva, isto é, ir até o aeroporto e esperar de três a cinco horas e, não havendo voo, ela retorna para casa e é contado o dia de trabalho, mesmo sem ter voado.

Nascida em Porto Alegre, em 1962, onde viveu até os 23 anos, Martha foi criada junto com o irmão, Antonio, o qual se formou como piloto, mas não chegou a exercer a profissão. Martha era uma criança tímida e levou essa característica para o início da vida adulta. Ao final do curso técnico em processamento de dados, ela deveria apresentar um trabalho aos colegas de sala. A dificuldade em falar em público a impediu de concluir o curso no tempo previsto, obrigando-a a atrasá-lo seis meses. Nesse período, ela cursou Dalle Carnegie, o que a ajudou a apresentar seu trabalho e finalizar a faculdade. O curso acabou sendo mais útil, entretanto, na carreira atual de comissária de bordo, facilitando o relacionamento com os passageiros.

Apesar de amar seu emprego, Martha nunca sonhou em ser comissária. Formada em processamento de dados, ela chegou a estagiar em informática na Ziivi Hércules, uma transnacional localizada em Porto Alegre, onde trabalhava o dia todo de frente para um computador. “Eu olhava pela janela e via a vida passando. Eu dizia: ‘Meu deus, o que eu estou fazendo aqui?'”. Sua função era desenvolver sistemas e programas que levavam cerca de 6 meses para ficarem prontos. Era tempo demais para alguém ativa como Martha. “Sempre gostei da vida em movimento”.

Certo dia, uma namorada de seu irmão contou a ela que faria uma prova para ser comissária. “Eu olhei pra ela e disse: ‘Tu tem coragem? Eu gosto de ser passageira. Jamais seria comissária'”. Algum tempo depois, a mãe, Marília, sugeriu à filha tentar a carreira também. A mãe quis ser comissária na juventude, mas a baixa estatura, indesejada na época para a carreira, dificultou sua entrada na área. Talvez o motivo maior tenha sido o pai, que não permitiu que a filha tentasse a função. O pai de Martha, Antonio, também tentou entrar para a aviação quando jovem, mas foi desestimulado pela mãe. Martha, que desde os 14 anos fazia tricô para vender aos amigos como forma de juntar dinheiro para viajar de avião, passou a considerar a ideia. As viagens na adolescência costumavam ser para o Rio de Janeiro onde tinha parentes e na casa dos quais se hospedava.

Aos 15 anos, Martha competiu o 1º Campeonato Brasileiro Feminino de Laser no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara. Velejar é uma de suas paixões. Amante de esportes, ela também nadou na Federação Gaúcha de Natação e jogou vôlei pela escola. Aos 14 anos, começou a velejar no Clube dos Jangadeiros de Porto Alegre, onde ficou até os 17 anos, tendo participado, nesse período, de regatas pelo sul e pelo Rio de Janeiro.

Após terminar as provas na faculdade, aos 23 anos, Martha tentou uma vaga de comissária de bordo na antiga empresa aérea Varig e descobriu que o processo seletivo em Porto Alegre havia encerrado. No dia seguinte, pegou um voo ao Rio, onde ainda haviam vagas abertas. Após ser selecionada para a função, Martha mudou-se para o Rio de Janeiro, onde alugou um apartamento em Copacabana, dividindo-o com uma amiga. Em dois meses já estava voando como comissária. Começou voando ponte aérea. Oito meses depois, passou a fazer voos de escala nacional e, após dois meses, de escala internacional. Martha encara sua rotina de trabalho como diferente. A sensação de normalidade vem quando está de folga e ela vai para casa, onde vive com o marido e as duas filhas, Juliana, de 21 anos, e Giovanna, 19 anos.

A blusa com a imagem dos canais de Veneza que veste o corpo de 1,62 e meio (como ela gosta de frisar) indica a paixão por viajar. Os cabelos castanho claro e a franja na altura dos olhos também castanhos dão um ar juvenil ao rosto que, apesar de ter vivenciado algumas primaveras, conserva a expressão animada própria da juventude. Martha conheceu o marido num voo para o México, no qual ele era o co-piloto e ela, uma das comissárias. Como o voo de volta ao Brasil seria depois de três dias, ela aproveitou para conhecer Acapulco e convidou toda a tripulação, mas somente Luiz aceitou. A viagem marcou o início do relacionamento entre os dois, que se casariam dois anos depois.

Há sete anos, Martha e seu marido têm as mesmas escalas de voo. Hoje, chefe de cabine na Gol, ela é encarregada de fazer o “speech” aos passageiros, apresentando o comandante, Luiz Rogatto, e se apresentando como Martha Rogatto. “Os passageiros mais atentos percebem que temos o mesmo sobrenome e adoram descobrir que somos um casal! Em algumas datas especiais, como aniversário de casamento, dia das mães ou dia dos namorados, o Luiz faz declarações no P.A.”

Mudança de perfilado

Estou alterando o meu perfilado. A pessoa que havia escolhido para o trabalho, o ator Cássio Scapin, tem horários incompatíveis com os meus.
Optei pela Martha Rogatto, uma mulher aventureira que aos 17 anos velejou pela costa brasileira. Hoje, comissária de bordo e com cerca de 50 anos, Martha acumulou diversas histórias decorrentes de suas viagens, as quais pretendo explorar ao longo do perfil, além de investigar as várias facetas desta mulher que, ao meu ver, é encantadora.

 

Corpo e imagem

Como homens e mulheres se relacionam com a imagem de seu corpo? Grande parte delas não perde a chance de se olhar em um espelho, enquanto a maioria deles mal percebe que passou por um. Nesta reportagem, buscamos investigar se existem diferenças entre mulheres e homens na relação com as imagens que têm de si e com os padrões de beleza produzidos para cada gênero. Se elas de fato acontecem, quais as origens dessas divergências?

Para compreender melhor a relação que temos com as imagens, devemos voltar aos nossos primeiros meses de vida. Segundo a psicoterapeuta Sandra Turco Garófalo, especialista em psicologia infantil, quando recém-nascidos, não percebemos que somos separados dos corpos de nossas mães. A descoberta do próprio corpo é realizada ao longo da infância e sustentada pelo olhar materno, o qual nos serve de espelho na construção de uma imagem particular altamente rudimentar.

Entretanto, durante a adolescência, vivemos um processo de desconstrução da imagem interna, uma das razões das angústias dessa fase. O corpo infantil fica perdido e inicia-se o desenvolvimento de uma nova imagem corporal. Até então, homens e mulheres passam pelas mesmas etapas; a constituição da imagem infantil e sua desorganização são universais. O fenômeno de reconstrução da própria imagem, contudo, é influenciado por aspectos culturais e sofre determinações sociais.

O papel social atribuído à mulher pré-histórica era amplamente ligado à sua condição materna. Vista como única responsável pela reprodução da espécie, a mulher era considerada um símbolo de fertilidade. Por esta razão, a representação estética feminina baseava-se em mulheres corpulentas que demonstravam fartura. Sua importância nas sociedades primitivas era tão grande que as figuras divinas eram femininas.

O homem, por sua vez, exercia a função de provedor e protetor da tribo. Para desempenhar tais atividades, ele deveria ser forte e possuir um corpo com músculos bem desenvolvidos. O cenário muda quando eles descobrem que também participam do processo reprodutivo. Desde então, a mulher perde sua condição de deusa e se torna submissa ao homem, o qual passa a cultuar deuses de seu próprio gênero.

Ao longo dos séculos, os padrões de beleza feminino e masculino quase não se alteraram; a mulher permaneceu cultivando um corpo vultoso, enquanto o homem seguiu na busca por músculos. O que se transformou consideravelmente foi a representação estética de homens e mulheres.

Liderada por uma aristocracia guerreira, a sociedade grega possuía valores importantes para a luta, como a honra e a virilidade. Estes princípios eram demonstrados nas imagens masculinas por meio de corpos musculosos, os quais eram representados nus na maioria das vezes justamente para evidenciar a força do homem. As mulheres, por sua vez, não iam à guerra, logo, suas imagens não eram orientadas por valores de guerra, mas pela delicadeza do corpo feminino. A representação dos tecidos recebia atenção especial; colados ao corpo, eles revelavam a anatomia da mulher. Tanto nas imagens gregas masculinas, quanto femininas, a preocupação com as proporções humanas é notória.

Jorge Paulino, professor de História da Arte da Faculdade Cásper Líbero, afirma que “na Idade Média, a partir de Santo Agostinho e a patrística, o corpo é tido como objeto de pecado e, por este motivo, não temos uma representação realista dele”. Dessa forma, homens e mulheres apareciam completamente vestidos nas obras de arte e seus corpos eram pouco explorados pelos artistas.

Orientados pela religião cristã, que desestimulava qualquer culto à imagem que não fosse religiosa, tanto o homem quanto a mulher não se relacionavam de forma equilibrada com sua imagem corporal; uma vez que o corpo era visto como pecado, a organização da própria imagem se dava de forma precária.

Já no Renascimento, que se inicia ao final do século XIII e permanece até meados do século XVII, as representações humanas recuperaram os princípios estéticos desenvolvidos pelos gregos. As imagens produzidas nesse período guardavam grande semelhança com a anatomia humana e os corpos voltaram a aparecem despidos nas telas e esculturas. Novamente, as imagens femininas eram ligadas à maternidade e as masculinas representavam a força e a virilidade.

A grande ruptura com os ideais físicos de homens e mulheres ocorreu a partir da segunda metade do século XX. A década de 60 foi palco de mudanças relevantes para que novos padrões de beleza surgissem, modificando, assim, a relação com a própria imagem para ambos os gêneros. Sandra Turco comenta: “O surgimento da pílula anticoncepcional, uma das grandes conquistas femininas, possibilitou às mulheres desvincularem sua sexualidade da reprodução, devolvendo a elas o direito à liberdade sexual”.

Quando a maternidade deixou de ser um dever para se tornar uma opção, a representação feminina perdeu seus traços adquiridos ao longo da História. As imagens produzidas das mulheres já não se relacionavam com o aspecto maternal, mas buscavam apresentá-las independentes e donas de seus corpos. Outros fatores contribuíram para as transformações na forma de representar a mulher, como o movimento da contracultura, cujo um dos príncipios era a igualdade sexual, a consolidação da indústria cinematográfica hollywoodiana, que disseminava produtos culturais os quais intensificavam a construção da imagem da mulher contemporânea e o aparecimento de modelos magérrimas, que punham um fim no padrão de beleza da mulher corpulenta e iniciavam a ditadura da magreza­­­­­.

Para compreender a relação com a própria imagem da mulher atual, precisamos analisar o surgimento da mulher contemporânea. Ainda nos anos 60, a luta pela igualdade sexual mobilizava a sociedade da época. Gradualmente, a mulher passou a se inserir socialmente, deixando as tarefas do lar e a ocupação de dona de casa para conquistar uma posição no mercado de trabalho. O direito ao voto e continuação dos estudos até o ensino superior também foram frutos dessa luta. Desse modo, a pressão social sobre a mulher, a qual antes era cobrada para ser uma boa procriadora e cuidadora, torna-se, então, uma pressão muito semelhante a que sofrem os homens: ela deve ser dona de uma carreira invejável, alcançar os mais altos cargos de sua área, estudar nas melhores universidades, ser produtiva e competitiva.

Sobre essa nova cultura feminina, o pesquisador francês e professor da Universidade de Grenoble Gilles Lipovetsky argumenta, em seu livro A Terceira Mulher (Companhia Das Letras, 2000), que ela “centrada no prazer e no sexo, no lazer e na livre escolha individual, desvalorizou um modelo de vida feminina mais voltada para a família do que para si mesma, legitimou os desejos de viver mais para si e por si”. Como consequência dessas mudanças, a relação feminina com o próprio corpo se alterou substancialmente. As mulheres passaram a consumir imagens que as representassem como protagonistas de sua própria vida.

Ao contemplar essas imagens, elas acreditam que, assemelhando-se fisicamente às modelos, poderão conquistar os ideais da mulher contemporânea associados a elas. Surge, então, uma obsessão pela imagem física, um culto à beleza corporal. Dessa relação esquizofrênica com o corpo, nascem deformações na imagem que a mulher tem de si mesma, podendo levar a transtornos alimentares, como a bulimia e a anorexia.

Mas e os homens? Como eles agem diante de tantas transformações sociais? Num primeiro momento, em meados do século XX, a grande maioria deles limita-se a observar a luta pela igualdade sexual liderada pelas mulheres. A imagem corporal masculina ainda não era para eles uma grande preocupação. Ao longo da segunda metade do século XX, entretanto, o homem passa a acompanhar a mulher na mudança da relação com a própria imagem. Segundo Sandra Turco, “o homem torna-se mais delicado, mais paterno e adquire alguma maternagem”. Ele também sofre com o imperativo do corpo perfeito e passa a promover o culto à forma física, ao saudável, ao exercício físico. Exemplos dessas modificações são a proliferação de academias e o crescimento do mercado de revistas masculinas voltadas para homens que buscam o corpo ideal. Paralelamente às mulheres, a relação desequilibrada com a própria imagem também gera transtornos, como a vigorexia, doença caracterizada pela percepção do próprio corpo extremamente magro e pela compulsão por exercícios físicos, a fim de obter cada vez mais músculos.

Atualmente, vivemos em uma sociedade em que a produção de imagens é altíssima, muitas vezes substituindo o texto escrito. A imagem deixa de ser contada para ser assistida. O bombardeio de imagens ocasionado pelo cinema e pela televisão, que ocorreu também na mídia impressa, modifica a relação de homens e mulheres com suas imagens internas. Com tantas figuras invadindo o cotidiano, eles e elas encontram dificuldades para ajustar as imagens externas, propagadas pela mídia, às internas.

Corpo e imagem

1. Quero propor a seguinte reportagem temática: investigar as diferenças entre mulheres e homens na relação com as imagens e modelos produzidos pela mídia para cada gênero, buscando compreender a origem destas divergências.

2. Estou propondo-a com base nos seguintes fatos e/ou percepções: é muito comum encontrarmos em bancas de jornais um espaço orientado para as mulheres, no qual os produtos são, majoritariamente, revistas que exibem modelos e atrizes com corpos esculturais. Os homens, pelo contrário, não costumam consumir este tipo de publicação, dando preferência às revistas que tratam de seus hobbies.

3. O que eu tenho muita curiosidade de saber? Gostaria de saber por que as mulheres estão mais suscetíveis às imagens de modelos, se há algo que as torna escravas de um ideal físico. Estariam os homens imunes a este modelo? Seria por essa razão que o consumo de revistas de beleza masculinas é menor?

4. Como homens e mulheres se relacionam com a imagem de seu corpo?

5. Que fontes (obras e pessoas) poderiam me ajudar a repondê-la? Entrevistaria consumidores de revistas de beleza voltadas ao público feminino e masculino em bancas de jornal, bem como editores destes gêneros de publicação, consultaria um especialista em psicologia, buscaria por teses científicas acerca do tema.

6. O que acho que há de especial nesta minha proposta? Esta pauta pode gerar um texto cuja conclusão permita às leitoras compreender melhor sua relação com o corpo e com a imagem que têm de si, podendo até mesmo tirar algum proveito da relação masculina com o corpo.

7. Qual o foco? A diferença entre os gêneros na relação com o corpo e sua imagem.

8. Qual o tema? Comportamento.

9. Qual o viés? Diferença entre gêneros.