O homem por trás dos discos

Luiz Calanca, dono de uma das lojas de discos mais tradicionais do país construiu um acervo que resiste ao tempo

Uma quantidade de discos aparentemente incontável compõe a loja Baratos Afins, uma das mais tradicionais lojas de vinis e CDs do país, situada na meca da música, a Galeria do Rock, em São Paulo. Porém, o que faz do estabelecimento um lugar curioso é o seu dono, Luiz Calanca. No auge dos seus 60 anos e apaixonado por música desde sua infância, ele é o tipo de pessoa que parece se deixar levar pelas surpresas da vida.

Em uma terça-feira de maio, Calanca volta de seu almoço depois de conceder uma entrevista a um grupo escolar que o havia procurado pela manhã. Com uma camiseta da banda The Beatles e um tênis All-Star, ele entra meio ofegante na loja sob os olhares curiosos de sua esposa, Victoria Calanca, de sua filha Carolina e de um de seus fornecedores que o aguardava ansiosamente para resolver assuntos profissionais.

Engajado com os shows que iriam acontecer no palco que seria montado no Anhangabaú no sábado seguinte e com a organização da nova edição da Virada Cultural, o dono da Baratos Afins encontrou mais um motivo para ir de um lado para o outro. O desejo de estar em todos os lugares ao mesmo tempo lhe rendeu o apelido de “pau de enxurrada”, pois, segundo sua esposa, ele está sempre “escorregando pelos lugares” em um piscar de olhos.

O que ele não sabia era que meia hora antes, sua esposa e sua filha conversavam com os funcionários da loja e com o fornecedor sobre o seu paradeiro. Calanca não usa celular porque não gosta, conta Victoria, e desse modo, achá-lo em suas andanças pelo centro da cidade é uma difícil missão. Entre reclamações, risos e suposições de todos na loja, Carolina Calanca, filha de Luiz, diz, “Até parece que vocês não conhecem o meu pai!”.

Seus horários de almoço costumam durar de uma a duas horas e quem trabalha na loja nunca consegue imaginar onde ele possa estar. Sem acalmar a curiosidade geral, Calanca chega sem responder perguntas e não diz por onde andou. Segundo Victoria, ele aproveita essa pausa em seu dia para passear pela região e resolver assuntos geralmente ligados à música.

Durante a montagem do Palco Anhangabaú, Calanca andava pelo centro. Falando com o máximo de pessoas possível ele conseguiu colocar três bandas de seu selo na programação do evento. Diante do fato de que alguns artistas com cachê de 150 mil reais participariam do line – up, Calanca diz querer ver bandas desconhecidas, desejo comum aos seus clientes da loja na Galeria do Rock.

Uma trajetória pouco planejada

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O simpático senhor por trás do balcão da Baratos Afins fala gírias e palavrões, parece estar sempre desencanado e com isso, faz todos se sentirem “de casa”. Em um dia comum, as pessoas entram na loja e geralmente são recebidas com brincadeiras e saudações animadas de Luiz Calanca, sempre acompanhado por sua filha e esposa, que o ajudam no comando da tradicional loja de discos. O lema da loja é “A pioneira dos independentes” e o seu dono gosta de classificá-la como um estabelecimento que vende música alternativa. E quanto mais diferente, melhor.

Calanca resolveu abandonar a profissão de farmacêutico em 1978, quando a sua filha Carolina nasceu, para abrir a Baratos Afins como uma tentativa de ampliar a sua renda, dando vazão a uma antiga mania: colecionar discos. Em seu acervo pessoal havia aproximadamente 4000 discos de vinil, conquistados por meio de trocas com amigos e de muitas pesquisas pelas lojas da época. A Rua 24 de maio, onde se situa o Edifício Grandes Galerias, conhecido como Galeria do Rock, era conhecida na década de 80 como a “boca dos discos”. Porém, os aluguéis na região eram caros. “A gente tava na Galeria no 2º andar porque era tudo que a gente poderia ter naquele momento. Na rua tudo era muito caro e a galeria tava abandonada, muitas lojas vazias” explica Calanca.

Com o aumento do número de lojas de discos, a famosa Galeria logo passou a ser conhecida como um dos redutos do cenário musical paulistano. Foi quando a concorrência aumentou, algo com o qual ele diz não ter se incomodado. “Começou a virar um point de música. Em 1981 veio o selo, fiz o primeiro disco do Arnaldo Batista e por uns três anos era só a gente. Logo outras lojas começaram a produzir selos e aqui chegou a ter 23 selos de música, criando etiquetas alternativas. Virou uma moda criar discos independentes” lembra.

O selo da Baratos Afins veio em 1981, quando Calanca produziu meio que por acaso o primeiro disco de Arnaldo Batista, responsável por lançar o artista no cenário musical. Se hoje qualquer pessoa dotada de certo capital financeiro pode fazer um disco, na época em que o selo dava seus primeiros passos era necessário criar um CNPJ exclusivo e submetê-lo à censura federal. Porém, as dificuldades impostas pelo governo não conseguiram frear o potencial criador dos novos produtores. “Fui para cima. Superei todas as dificuldades, necessidades e obrigatoriedades da época para fazer o disco. Depois disso não tinha razão para parar. Então nós continuamos, fomos quebrando a cara em umas situações, acertando em outras e deu no que deu depois de 35 anos” conta o seu criador, com certo orgulho.

Mesmo com tantas mudanças em sua vida, o dono da Baratos Afins, sempre envolvido em algum projeto, deixa tudo correr solto e, sem desperdiçar oportunidades, enfrenta os obstáculos que possam surgir. Ele diz ser uma pessoa que planeja pouco. “Nunca tive idéia de nada. Acho que se tivesse, nada teria acontecido. Foi tudo muito natural”. E é com essa mentalidade que Luiz Calanca comanda os seus negócios.

Apostas musicais

A Baratos Afins foi uma das primeiras lojas a compor a Galeria do Rock e sobrevive até hoje, apesar das transformações do local. Na década de 80 o lugar era um ponto de encontro de roqueiros interessados em trocar idéias sobre música e discos, como não poderia deixar de ser. Alguns desavisados chamavam a polícia, pois pensavam que os frequentadores do local eram bandidos. Era a Era de Ouro do rock nacional, quando bandas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Ultraje a Rigor faziam sucesso nas paradas. Hoje, as lojas de discos da Galeria deram lugar a lojas de roupas, de skate e de tatuagem. A Baratos Afins, porém, continua firme sob o comando de Calanca.

O acervo da loja é de quase 65 mil títulos de vinil cadastrados e cerca de 40 mil ainda não catalogados. Calanca acredita que eles nunca conseguirão cadastrar todos os discos. Mas não é só de vinil que vive o dono da Baratos Afins. Quando a moda dos CDs invadiu o mercado eles chegaram a abocanhar 70% do faturamento da loja, algo que se inverteu novamente com a volta do desejo pelos discos, hoje considerados objetos “vintage”.

Em meados da década de 90, Calanca era contra os CDs, e como não poderia deixar de dar a sua opinião abriu uma discussão no meio musical, que gerou muitas críticas em relação a ele. “Quando o CD surgiu todo mundo quis colocar uma pedra em cima do vinil e eu fui uma voz que pregou evangelho contra o CD, porque tinha um império de discos e de repente alguém disse que aquilo não valia mais nada e que a moda era essa bolachinha plástica” resume.

Ele diz ter perdido muitos amigos e clientes, que viam a sua aversão aos novos compactos como uma teimosia. Porém, depois de muito criticar a nova aposta do mercado, o dono da Baratos Afins viu nela uma oportunidade de crescimento e assim, resolveu redirecionar os seus investimentos, pois poderia trocá-los por mais discos de vinil. Foi a maior guinada econômica de sua vida. A quantidade de discos adquirida por meio de trocas fez com que comprasse dois depósitos na Galeria para abrigá-los.

Em certo momento, os discos se espalharam também pelo seu apartamento. A solução encontrada foi comprar um imóvel no andar de baixo. “A gente teve dois quartos como depósito e entupiu de discos. Eu precisava mudar porque a minha mulher me deu um ultimato, a gente estava dormindo em cima de discos. A nossa cama era cheia de vinil em baixo e ele tem uma estática que absorve muito pó” conta.

Nadando contra a corrente só para exercitar

Se tem algo que Luiz Calanca não sabe fazer é ficar calado. Mal entra na loja e já começa a discutir com Carolina, sua filha. Mas logo depois tudo volta ao normal. Falante e sempre com uma resposta na ponta da língua, ele cria pérolas raras sobre o mundo atual. Para ele, o Brasil é o país onde as bandas têm apenas uma música conhecida, afinal, a maioria das pessoas não se interessa em ter o álbum completo, mas em baixar os hits na internet. “Muitas pessoas baixam essas músicas e acham que estão com a coleção completa do artista e é isso aí. Mas é uma questão de cultura, acabou aquela coisa de a gente ouvir música em coletivo, sabe?”

Na sua juventude, Calanca se reunia com amigos para compartilhar discos e ouvi-los na companhia de uma garrafa de vinho ou de cerveja. Em época de festivais esses momentos de troca de ideias eram mais frequentes. “A gente conversava, debatia sobre música. Hoje acabou, cada um tá no seu mundinho, na rodinha aqui, um tá ouvindo Punk, outro o Bonde do Rolê, outro Jazz e pronto, cada um na sua cápsula” critica.

Mesmo assim, ele não rejeita a internet e, apesar de se irritar com a quantidade de e-mails que recebe diariamente, utiliza redes sociais como Facebook para manter um diálogo com seus amigos e diz acreditar na web como uma ferramenta que poderia ser usada de maneira inteligente. Porém, diz ver nessa aparente facilidade do mundo contemporâneo uma idéia falsa, pois acredita que ao nos tornarmos escravos de aplicativos e arquivos estaríamos fazendo dele um lugar muito mais difícil. “Nós estamos perdidos na poeira cósmica da internet. Tá chato” opina.

Em poucos minutos de conversa, Luiz Calanca começa a criar seus aforismos. Ele evita nostalgias excessivas, mas se mostra crítico em relação aos rumos que a humanidade anda tomando. É nesse momento que aflora o lado profético do dono da Baratos Afins. “A impressão que dá é de que o mundo ficou globalizado, mas o indivíduo cada vez mais solitário, isolado, dentro dessa cápsula universal que é o mundo. Ficou sem graça” diz com certa melancolia. Para alguém que gosta de conversar e trocar ideias, as relações supérfluas das redes sociais parecem encerrar o diálogo verdadeiro.

A aparência jovial conferida por uma camiseta de banda e um modo de falar repleto de gírias esconde sua infância pacata. Ele cresceu em uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo e uma de suas principais lembranças é a de ir ao circo, diversão tradicional da região. Alguns artistas que estavam começando as suas carreiras apareciam de violão em mãos no circo que Calanca costumava ir e este passava por baixo dos panos para ver tudo de perto. Foi assim que a sua paixão pela música começou.

As suas histórias vêm sempre acompanhadas pela frase “Desculpe, eu viajo muito mesmo”. Ele adora contá-las para quem quer que seja. Afinal, o dono da Baratos Afins trabalha até o final do expediente, às 19h, recepcionando as pessoas que entram na loja de tempos em tempos.

Quem vê o senhor que comanda a loja talvez não imagine que foi depois que ele enviou um disco de Os Mutantes para Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, que este chamou a imprensa e classificou o grupo brasileiro como “a melhor banda do mundo”.
Outra história que ele gosta de contar envolve um dos maiores ídolos do Rock. Quando o sobrinho de Calanca encontrou Robert Plant, vocalista da banda Led Zeppelin em uma praia de Salvador e disse que seu tio vendia discos, o líder da banda americana foi pessoalmente comprar um vinil do próprio grupo na loja.

Entre uma história e outra, Calanca encontra um pretexto para criticar o mundo contemporâneo. Ao lembrar dos tempos em que Raul Seixas, esquecido por muitos, andava nu pela Galeria do Rock, o dono da Baratos Afins encontrou uma brecha para criticar a mídia brasileira. ”O Brasil é um país necrófilo. Ele só dá valor ao artista depois de morto. A nossa mídia é muito babaca, muito ignorante. Eles têm vergonha de falar que uma coisa é boa. Precisa vir um gringo falar que algo é bom para as pessoas acreditarem” se exalta, contando que Seixas foi cultuado postumamente. Ele diz que nos anos 80 tudo era Rock: a Galeria do Rock, o Rock in Rio, a Rádio Rock; mas que depois a mídia colocou uma pedra no gênero e passou a promover outros estilos. “A mídia faz média. Quando o povão adere, eles se entregam” diz.

Apesar de o pessimismo não combinar com o jeito falante e amigável de Calanca, aparece em momentos nos quais o assunto é a tradicional loja de discos. A crueldade do mercado é algo que ele diz influenciar na formação do público da loja, definido como “um nicho diferente”. O que vende na Baratos Afins é o que o mercado recusa. Segundo ele, não há outra solução. “Eles tem poder, tem a máquina na mão. E a gente tem que engolir tudo isso e remar pela contramão. É o que resta para nós, porque não dá para competir” exclama.

Calanca respira música. Não há história que possa ser contada sem que um artista, famoso ou em ascensão, não seja citado, sempre com muita empolgação. Talvez seja por isso que sua vida se confunda um pouco com a história de sua loja.

Ao final de nossa conversa e depois de passar por entre vários discos, muitos dos quais tirou do lugar, Calanca volta para trás do balcão. De repente entra na loja um homem de meia idade com sua filha adolescente à procura de um CD da artista pop Miley Cirus. Calanca pede que Carolina consulte o acervo no computador e ao receber um “não” como resposta, diz ao cliente “Desculpe, nós não temos nenhum CD da Miley Cirus, porque não trabalhamos com esse tipo de coisa”. Volta para o balcão e começa a falar sobre vitrolas antigas.

Perfil – Luiz Calanca

Pretendo realizar um perfil de Luiz Calanca, dono da tradicional loja de discos Baratos Afins, colecionador de discos e produtor cultural. Formado em Farmácia e dono da primeira loja da Galeria do Rock, Calanca lançou o seu próprio selo com o objetivo de lançar artistas independentes. Foi ele o responsável por lançar Arnaldo Batista no cenário musical em 1982. Desde então, já produziu 82 discos de 53 artistas, seis coletâneas e 16 relançamentos e hoje colabora com eventos como a Virada Cultural, além de ser reconhecido no cenário musical brasileiro.

Calanca abandonou a profissão de farmacêutico para abrir a Baratos Afins em 1978, deixando aflorar a sua antiga paixão de colecionar discos – ele tinha cerca de 2000 LPs na época. Hoje ele é respeitado no cenário musical, além de ser uma lenda viva da Galeria do Rock. Defensor do vinil, ele revelou em algumas entrevistas a sua opinião de que a internet vulgarizou o CD e os meios antigos de se ouvir música. Nadando contra a corrente em uma época na qual quase todos baixam música pela internet, o dono da Baratos Afins continua a se dedicar a um mercado de raridades e de certa forma, contribui para a vida cultural paulistana.

Apesar de ser conhecido no meio musical, Calanca é desconhecido pela maioria das pessoas, que em visitas à Galeria do Rock às vezes passam pela Baratos Afins e vêem o simpático senhor como mais um dono de uma das infinitas lojas de CDs que compoem o lugar, sem saber da sua contribuição para a música brasileira. Desse modo, acho que um perfil de Luiz Calanca seria relevante para revelar uma pessoa que de certa forma influencia todo um cenário, mas que nem todos conhecem. Além disso, gostaria de descobrir facetas não reveladas de uma pessoa que parece ter muitas histórias interessantes para contar.

Muito além dos palcos

Com o aumento do número de espetáculos do teatro musical a seleção e preparação dos atores se torna cada vez mais desafiadora

Em um espaço despojado alunos assistem sentados a três colegas se apresentarem para as pessoas que irão avaliá-los. A vaga é para o papel do personagem Claude, protagonista do musical Hair, sucesso da Broadway que conta a história de uma tribo de hippies através de canções contagiantes. Os três candidatos atuam separadamente. Se alguém esquece uma fala, os outros alunos ajudam. “Eu? Eu na verdade não sou ninguém. Eu sou só um ser humano”. Quando começam a entoar a primeira frase, Maiza Tempesta, criadora de escola de formação de atores para o teatro musical,TeenBroadway, e Fernanda Belinatti, professora de interpretação, se concentram em analisar cada detalhe.

A preparação de atores para o teatro musical exige cada vez mais aptidões, afinal, o gênero enfrenta hoje um aumento de produções. “Não era da cultura brasileira assistir musicais” conta Maiza Tempesta. Maître em jazz dance, coreógrafa e diretora de espetáculos, ela criou em 1992 um curso para atores de teatro musical que só aceitava adolescentes na escola de idiomas Cultura Inglesa, em São Paulo. Ao perceber que havia cada vez mais adultos procurando por cursos como aquele, já que tinham que estudar interpretação, canto e dança separadamente, Maiza – que integrou o elenco do musical A Chorus Line na Broadway em 1983 – criou um curso de férias para adultos “No primeiro curso já tinha 50 pessoas” lembra.

A TeenBroadway surgiu em 1996, após Maiza perceber que ao mesmo tempo em que o número de espetáculos crescia, faltavam cursos de preparação para o teatro musical. Ela conta que a escola foi pioneira e que depois dela, outras escolas começaram a surgir através da demanda do mercado, que passou a incorporar cada vez mais profissionais que dominassem as três áreas essenciais do gênero: canto, dança e interpretação. “Abriu um mercado de trabalho para um cantor, para um bailarino. Então, quem era só cantor começou a estudar interpretação. O mercado pedia mão de obra especializada” explica.

Para a montagem do musical Hair em solo brasileiro no ano de 2011 se candidataram cinco mil profissionais que tiveram que passar por testes de dança, canto e de personagem. Dois mil atores foram selecionados por currículo e apenas trinta integraram o elenco do espetáculo de Charles Möeller e Claudio Botelho, pioneiros no estabelecimento do gênero no país.

Fernando Rocha, ator e bailarino que interpretou o personagem Berger, outro protagonista do musical, conta que no Brasil é mais difícil fazer uma carreira de musicais. Ele abandonou um curso de Direito para seguir a carreira de bailarino e dançou no Balé da Cidade de São Paulo até se aventurar pelo gênero musical. “Tive uma audição para (o espetáculo) Blue Jeans e fui fazer o teste sem saber do que se tratava um musical. Fui porque tinha um teste dança, foi na cara de pau. Nunca tinha cantado e me joguei para cantar” brinca.

Foi em 2002, com o espetáculo A Bela e a Fera que Fernando começou a se especializar para o teatro musical através de aulas de canto. Ele conta que hoje a concorrência é maior. “As pessoas estão começando muito jovens. Hoje em dia tem muita gente preparada”. Porém, as dificuldades são igualmente grandes. “Musical é muito específico, principalmente para uma carreira na qual você quer se destacar como ator” conta. Além disso, encarar a rotina de um musical requer muito esforço. Rocha entrou para o elenco do musical Hair depois que o diretor Charles Möeller o viu em um espetáculo de ópera. Como ocorre quando há indicações, o ator fez apenas um teste de personagem, no qual foi aprovado. “A indicação tem que ser válida. Se você tem uma pessoa que é muito boa no que faz e você acha que ela seria bacana então ela merece estar ali” opina.

A primeira seleção se dá por currículo, etapa na qual ocorre uma triagem grande. Dependendo do musical, a próxima etapa geralmente é um teste de dança, no qual os atores entram em contato com trechos da coreografia para serem avaliados tecnicamente. Em seguida os candidatos recebem uma partitura para executar o teste de canto. A etapa final consiste em um teste de personagem, que avalia a compatibilidade com o perfil do ator. “É tudo muito rápido. Você tem que lidar com a tensão de ter uma banca na frente. É fazendo os testes que a gente avalia como está” acrescenta Fernando.

Hugo Bonemer, ator paranaense que interpretou o personagem Claude em Hair, conta que o teste para o musical foi carregado de muita tensão. Ao conseguir o papel do hippie introspectivo que é convocado para lutar na guerra do Vietnã, Hugo mergulhou em dias de muito estudo. “A busca pelo personagem Claude foi uma pesquisa intensa do texto. A peça tem uma série de elementos incríveis para uma construção” conta. O musical é acompanhado por canções às vezes frenéticas e exige muita energia dos atores. “Fazíamos um treinamento físico quase militar para suportar a temporada que viria. A exigência física e mental foi gigantesca. Mas, depois de um tempo, passou a ser o ‘novo-normal’” conta Hugo. Com tanto estudo e concentração o trabalho acaba rendendo bons frutos e os atores se acostumam com a dor, que passa a ser uma companheira. “Tanta coisa se aprende e tudo o que parecia difícil foi se tornando prazeroso” lembra.

Para Fernando Rocha, que interpretou o personagem Berger em São Paulo, o desafio também foi grande. “Fiz o pai do Claude no Rio de Janeiro e era cover do Berger. Um dia o Igor (Rickli) se machucou e eu tive que entrar em cima da hora. Imagine uma cena de abertura como a do Berger e entrei quase sem ensaio”. Fernando teve que entrar em cena com um solo no qual cantava de tanga depois de interagir com a platéia subindo nas poltronas. Quando um ator tem que entrar em cima da hora para substituir um colega, quase não há tempo para ensaios. “Você passa o dia todo estudando. O coração parece que vai explodir, mas você tem que fazer. Foi um sufoco, fiquei sabendo no dia, mas o show não pode parar” lembra Fernando, com certo desespero. A sua atuação agradou os produtores do espetáculo e quando Hair foi para São Paulo, Rocha foi convidado a interpretar o personagem Berger, já que o ator que o interpretava antes se engajou em outro projeto.

No Brasil, os espetáculos geralmente têm sessões de quinta a domingo, diferente da Broadway que investe em dois elencos para encarar sessões de terça a domingo. Em dias de duas sessões, como nos sábados, a exigência física é muito maior. “A gente fica morto no final. No começo é sempre mais cansativo, mas no decorrer do tempo você aprende a dosar a energia” completa Fernando. O cansaço assim como a recepção do público varia ao longo das apresentações. “Cada dia é um dia, cada sessão é uma sessão, cada público é um público, não há muita regra” explica.

Se antes os atores viam o gênero com certo receio e tinham que estudar tudo separadamente, hoje a preparação dos atores para o teatro musical acompanha as exigências do mercado, que promete crescer ainda mais. “O mercado de musical chegou para melhorar a qualidade dos atores porque deu esperanças a milhares de pessoas que queriam seguir a profissão e não sabiam por onde começar. Agora existe um ponto de partida. Canto, dança e interpretação. Todo mundo está correndo atrás por uma questão mercadológica” resume Hugo. Com o aumento da concorrência, o investimento dos atores para se aprimorar no cenário começa cada vez mais cedo e fora dos palcos. “Quem está começando já tem essa consciência. Os cursos de teatro musical hoje em dia são quase uma faculdade” analisa Fernando.

Na escola TeenBroadway, que é voltada para o público jovem, os alunos aprendem atuando em diferentes gêneros de musicais e é a partir deles que se estuda a técnica e os estilos de cantar, dançar e atuar em cada caso. “Cantar para o teatro musical é diferente, a atuação e o modo de dançar também. Todos os testes aqui são feitos como é feito no mercado profissional” explica Maiza, criadora da escola. Segundo ela, os treinos ocorrem com a leveza e a rigidez necessária para prepará-los para o mercado. A única diferença está no fato de que na TeenBroadway os alunos recebem um feedback para avaliar o que precisam mudar, algo que não ocorre em testes de elenco do mercado. “Costumo dizer que a gente faz um espetáculo profissional para amadores” define. Desde a iluminação até a qualidade técnica do som, a infraestrutura segue os padrões de espetáculos profissionais.

No primeiro semestre de 2013, os alunos têm a oportunidade de estudar a partir dos musicais Mamma Mia e Hair. As audições para selecionar os alunos para cada papel ocorreram na manhã de um mesmo sábado. Na audição do espetáculo Mamma Mia havia crianças. Os alunos conversavam sentados no chão e pediu-se silêncio. Aqueles que estavam sendo testados pareciam nervosos e os avaliadores indicavam os pontos a serem melhorados e às vezes pediam que alguma cena fosse refeita. No final, houve uma apresentação com todos os alunos, que levaram um puxão de orelha por esquecerem parte da letra e da marcação. “Tem que estudar em casa” aconselhou Maiza Tempesta. Logo em seguida ocorreu a audição para o musical Hair, no qual só podem se inscrever adultos por causa da temática do espetáculo. “É um espetáculo que pede menos técnica na parte de dança. É mais complexo na parte da atuação e de canto. Então damos preferência para atores que consigam se desenvolver melhor nas duas áreas” explica Fernanda Belinatti, atriz, diretora de espetáculos e professora de interpretação da escola.

Pietro Lacerda, aluno da TeenBroadway há dois anos, concorria ao papel do personagem Claude. O nervosismo o fez esquecer algumas falas, mas ele logo foi aconselhado a relaxar e a improvisar. Pietro começou a atuar aos 15 anos e quando entrou para a escola de preparação de atores para musicais não tinha experiência em canto e dança. A escolha em seguir uma carreira de musicais, diz ele, veio naturalmente. “Crescemos assistindo os musicais da Disney. É um grande impulso. Quem nunca sonhou em ser o Aladdin e cantar como ele? No teatro conseguimos consolidar isso e ser o personagem”.Hoje, aos 21 anos, Pietro tem uma carreira como ator e cursa Administração de empresas. “Não sei se eu estou completamente preparado. Hoje eles exigem muito mais do que antigamente”. Para ele, um dos diferenciais da escola, onde diz ter se sentido bem acolhido é a identificação que ela ajuda a criar entre os alunos. “É uma energia diferente. A gente aprende a ser companheiro um do outro.”

A determinação e a vontade de aprender é algo que todos parecem ter em comum. A professora Fernanda conta que aqueles que procuram pelo curso são dedicados, estudam e tiram dúvidas. Tão importante quando cantar, atuar e dançar bem é a dedicação, pois sem esforço o aluno não alcança bons resultados. “A maior dificuldade é juntar as três áreas, canto, dança e interpretação” explica. Roberto Donadelli, aluno da TeenBroadway desde 2004, sente mais dificuldade nas técnicas de dança. Ele já atuou em espetáculos profissionais como Avenida Q e hoje se considera um ator. Porém, o esforço não para por aí. “Eu ainda enfrento o desafio de mixar todas as coisas juntas. O musical é um show e sempre exige o máximo de todo mundo. É um desafio constante”. Na escola, as diferenças entre os alunos e a renovação dos cursos permitem que cada um leve um pouco de sua bagagem. Mesmo assim, os testes de elenco ainda o assustam. “Eu fico desesperado em audições. Não tem jeito, faz parte” brinca. Seu sonho? Interpretar o personagem Marius do espetáculo Les Miserables. “Hoje se perguntarem a minha profissão digo que sou ator” conclui.

Com tantos musicais em cartaz, a criadora da escola consegue identificar alunos em diversos espetáculos. “Temos alunos em todos os musicais de São Paulo e cada vez mais estão pedindo um pessoal especializado”. A explosão do número de produções do gênero no Brasil chama cada vez mais a atenção dos atores, afinal, todo ano ocorrem várias audições. Além disso, o salário para o protagonista de um espetáculo musical pode chegar a 15 mil reais. Mas nem tudo é glamour, pois muitas vezes faltam condições de trabalho. É comum que alguns espetáculos migrem de cidade sem pagar hospedagem e passagem para os atores, principalmente quando estes são coristas.

Além disso, ainda falta uma cultura de musicais no país como a da Broadway, onde a maioria dos espetáculos passa por muitas cidades antes de estrear oficialmente no circuito e nas faculdades há sempre a apresentação de um musical no final do ano. Porém, a criação de escolas específicas para a preparação de atores para o teatro musical parece ser um grande passo para aqueles que querem se aventurar pelo gênero, mas não sabem por onde começar. “Eu acredito muito no estudo de teatro musical, mas gosto de estudar tudo separadamente. Principalmente para não pegar vícios de interpretação, de canto. Tem os dois lados da moeda” pondera o ator Fernando Rocha.

A preocupação de Maiza em afinar a escola com os interesses do mercado só aumenta com a procura pelo curso. Ela conta que o objetivo da escola é treinar os alunos para que eles estejam preparados se amanhã aparecer uma audição. Todos têm alguma fragilidade, então os professores tentam trabalhar o lado que está faltando em cada um. Além disso, a criadora da TeenBroadway chama atenção para o fato de que às vezes o ator não está preparado para encarar o peso da personagem, mas não faltam oportunidades para que o aluno estude. “Dá para ver o desabrochar dos alunos” diz com certo orgulho.

Hugo Bonemer, que hoje está em cartaz como o protagonista do espetáculo Rock in Rio – O musical lembra que nem sempre os atores tem o perfil exigido por determinado musical. “Cada produção tem seus próprios critérios. Pode ser que uma queira grandes bailarinos, enquanto outra queira grandes atores e outra queira tudo. Uma talvez queira lançar uma cara nova e outra alguém que já seja de nosso conhecimento. Então não há como prever”. Resta a eles então a dedicação de se aprimorar em todas as áreas para que quando chegar a sua vez estejam preparados para encarar o desafio.

A seleção de atores para o teatro musical

Tema: Cultura

Viés: Teatro musical

1. Quero propor uma reportagem temática sobre a seleção de atores para espetáculos do teatro musical.

2. O Brasil é hoje o terceiro maior produtor de musicais do mundo. Se antes havia um número limitado de atores que participavam desse gênero de espetáculo, agora a concorrência cresce. Para o espetáculo O Mágico de Oz se apresentaram 5 mil candidatos e o site de seleção ficou fora do ar por algumas horas.

3. Tenho curiosidade em saber os motivos do aumento do número de atores especializados em musicais, o que conta mais na hora da seleção, quais são os pré-requisitos e como esses profissionais se preparam para um teste de elenco.

4. A minha pergunta inicial seria: “O que o ator de musical precisa para ser selecionado?”

5. As minhas fontes seriam atores que costumam fazer testes, protagonistas de grandes montagens e produtores de espetáculos responsáveis pela seleção do elenco. Procuraria ouvir também atores que foram convidados a participar de determinadas produções.

6. Acredito que a pauta tenha de especial o fato de se propor a investigar um lado do teatro que poucos conhecem. Quando assistimos a um espetáculo musical geralmente não imaginamos as dificuldades dos atores e o trabalho na escalação de um elenco.