O viajante curioso

Confira a trajetória de um senhor com muita sede de conhecimento e bom humor

O mundo da tecnologia muda a todo tempo. Novas tecnologias podem alterar o mercado em dias. Se para um consumidor já é difícil escolher entre uma variedade de produtos, imagine para um jornalista de tecnologia que tem a missão de facilitar o contato entre um mundo técnico e seus consumidores.

Nosso primeiro encontro estava marcado para as 15h de uma quinta-feira. O lugar tinha tudo a ver com meu perfilado. A Biblioteca Alceu de Amoroso Lima fica na Avenida Henrique Schaumann no bairro de Pinheiros. O tema da biblioteca passou a ser poesia em setembro de 2006.

Carlos Machado não chama atenção enquanto sobe a Rua Cardeal Arcoverde. Camisa social, calça jeans, relógio grande e dourado, óculos com uma armação prata e antiga. Um visual comum para alguém de terceira idade. Porém muito se esconde por detrás das olheiras e dos 1,50 de altura de Carlos Machado.
Atualmente aposentado, Machado passa a maior parte do tempo fazendo uma de suas atividades preferidas: escrever poesias. O seu primeiro livro, Pássaro de Vidro, foi lançado em 2006 pela editora Hedra. O lançamento de seu segundo livro, ainda sem nome, está marcado para esse ano. Mas a paixão pela poesia sempre esteve presente em toda sua vida, como conta “Eu andava com Drummond debaixo do braço em plena faculdade de engenharia e ninguém se importava”.

Nascido em Muritiba, no interior da Bahia, em 1951, Carlos Machado aprendeu a ler e escrever de uma maneira inusitada “Eu morava perto da minha avó e ela escrevia cartas para o povo da cidade porque naquela época era comum ter parente no Rio de Janeiro no final dos anos 50. Ai ela lia as cartas que chegavam do Rio e escrevia as cartas das pessoas. E como eu ficava muito na casa dela, ela começou a me ensinar. Eu já sabia ler e escrever com 4 anos sem nunca ter ido a escola”.

O olhar de Machado parece cansado, mas na verdade ele não parou durante nossa entrevista. Não foram poucas às vezes em que ele se levantou, ajeitou os óculos, pegou algum livro na prateleira, anotou o nome em um bloquinho gasto de papel, ajeitou as calças e voltou a sentar.

A entrada na vida escolar “normal” também não foi nada comum, como relembra “Minha vó comprou uns livros escolares e passou a me ensinar em casa. Ela gostava de me exibir, sabe? Coisa de parente. Um dia ela me leva na casa de uma professora, eu achava que era mais um daqueles “showzinhos” que ela promovia, e a professora pedia para que eu escrevesse coisas. No final ela olhou e falou: gostei, começa comigo ano que vem”.

A curiosidade de Machado pelos mais diversos assuntos é representada em uma frase, no mínimo, polêmica “O que passava na minha frente, eu lia. Tanto é que eu sou o único cara que não tem religião que já leu a bíblia inteira, eu gosto de ler, acho interessante”.

Machado se mudou para Salvador e ingressou no Colégio Estadual da Bahia. O Colégio era dividido em três grandes áreas: científico, voltado para quem iria prestar vestibular para exatas, o clássico, voltado para letras e direito e o científico voltado para a área das biomédicas. A escolha, como ele explica, foi baseada na eliminação “Eu sabia que não queria ser advogado e muito menos médico, então sobrou engenheiro. O curso era bom e no terceiro ano eu me juntei com um colega e passamos o ano inteiro revisando”.

O pesadelo do vestibular não é algo somente vivido por nossa geração. Machado conta como era o processo naquela época “Era uma maluquice, seis dias de prova, uma por dia. Você podia se ferrar de varias maneiras. Imagina se você passasse mal em um dia ou se você não conseguisse chegar?”.

Ditadura

Após a eclosão do golpe militar em 64, o controle sobre a educação foi um dos principais focos de atenção do novo governo. Na situação de estudante, Machado relembra alguns episódios dessa fase conturbada de nossa história “Durante os anos de 66,67 e 68 você tinha invasões do colégio. Ele era aberto então quando tinha alguma manifestação, muitas pessoas corriam pra dentro do colégio quando a polícia chegava. Eu me lembro de jogarem gás lacrimogênio no meio da aula”.

O período de maior repressão, como se recorda, foi em 69 “Depois do AI-5 o bicho começou a pegar mesmo. Tinha um veterano meu, ele era monitor de química e a gente tirava dúvidas com ele. Na volta das férias do primeiro semestre, ele estava todo quebrado, de muletas. A gente perguntou o que tinha acontecido e ele disse que tinha ido passar férias em São Paulo, se hospedado em uma pensão e que um dia a polícia baixou lá, levaram ele e torturaram até ver que ele era um baiano perdido”.

Sempre com bom humor, Machado resume o clima de repressão na seguinte frase “ Eu achar? Eu não acho nada. Conheço um que foi achar e nunca mais foi achado”.

A segunda faculdade

Depois de terminar engenharia, Machado foi cursar economia no Pará. A opção não foi baseada somente na educação “Sai da Bahia com a polícia atrás de mim. Em 72 deu um problema e eu tive que me mandar. Como eu gostava de discutir economia, a faculdade era perto de casa, então eu fiz”.

Neste momento a nossa primeira entrevista terminou. Combinamos de tratar sobre a parte profissional no nosso segundo encontro. Ele ocorreu na terça-feira da semana seguinte. A escolha do local foi um consenso de ambas as partes: a Pinacoteca do Estado.

Confesso que foi bem mais fácil chegar na Pinacoteca. Desci na estação Luz da linha amarela, paguei meu ingresso e esperei. Machado chegou uns 10 minutos depois. Entrou gratuitamente, devido à idade, e se dirigiu rapidamente para as estantes. Usava o mesmo estilo de roupa do nosso último encontro. Camisa social, sapato, calça jeans, relógio grande e brilhante e óculos. Mas dessa vez ele carregava algo diferente. Era um pequeno pacote marrom. Não perguntei o que era. Ele me disse naturalmente “É uma surpresa”.

Como combinamos, o nosso segundo encontro trataria da trajetória profissional. A chegada em São Paulo foi por um motivo bem simples “Alguns amigos me incentivaram e, como eu teria referência aqui, acabei vindo”.

Começo na Abril

Os primeiros trabalhos na capital paulista foram para o jornal Movimento “Eu fazia parte do movimento estudantil, o Movimento fechou em 81 e eu comecei a fazer uns freelas na Abril e me chamaram pra fazer esses freelas porque eu sabia engenharia. O trabalho era na Ciência Ilustrada. A revista era formada, basicamente, por matérias traduzidas de uma revista americana chamada Science Digest”.

Com o tempo, a Ciência Ilustrada ganhou corpo e a ideia de criar uma redação própria começou a sair do papel. Naturalmente, os freelancers que trabalhavam para a revista foram convidados a participar.

Cásper e Avenida Paulista

Não posso deixar de dizer que fiquei surpreendido nessa hora. A curiosidade de saber como era a Cásper antigamente nos fez desviar um pouco do caminho profissional de Machado. A entrada na faculdade de jornalismo, assim como outras situações, não foi por vontade própria “Naquela época o sindicato dos jornalistas batia forte. Então eles viram um engenheiro trabalhando na redação e disseram: não é jornalista. Foi ai que eu decidi entrar pra Cásper”.

Pergunto como era o ensino na Cásper. A resposta não é das mais diretas “Eu não tinha ideia de como era uma escola de jornalismo, mesmo já tendo atuado na profissão. Eu fui pra ser um jornalista diplomado sem medo de exercer a profissão”.

Hoje lugar de movimento constante, a Avenida Paulista nos tempos de Machado possuía outro “clima”. “Era muito mais tranquilo e chique. Ainda tinha alguns casarões, mas você ainda tinha o Belas Artes como referência”.

Uma pergunta chama a atenção de Machado. Seus olhos se abrem e a voz ganha um novo tom. A questão foi: Estudando na Cásper, o senhor nunca pensou em seguir uma carreira acadêmica? A resposta entusiasmada “Agora que eu tenho mais tempo, estou pensando nisso, mas não sei se eu vou pra área jornalística ou pra área de literatura”.

Preferências

Quando perguntei onde era o seu lugar preferido de atuação, obtive uma resposta categoria: na redação. “Eu nunca gostei muito de ser repórter, de sair perguntando, até porque eu sou meio tímido. Meu negócio é redação. Lembro de quando a gente fechava revista que vinha metros de telex de vários cantos do país”.

A nossa conversa é sobre os mais variados temas. O número de digressões é grande. Passamos de literatura para engenharia, de engenharia para poesia, de poesia para mercado editorial, mas sempre com bom humor e leveza. Uma hora o assunto foi jornalismo científico, Machado estava dando um exemplo “Se, por exemplo, eu te desse uma notícia que fosse… fosse… eu completo com: a cura do câncer. Ele ri e diz: isso, estava pensando nisso, toca aqui, estamos afinados!”

Exame e INFO

A revista INFO surgiu em 1986. Originalmente, ela era um anexo da revista Exame e circulava quinzenalmente com o nome de Exame Informática, intercalado com outro anexo, Exame VIP. As mudanças de nome vieram com o tempo. Primeiro uma troca de lugar. Exame Informática virou Informática Exame, para só depois virar INFO Exame.

Machado entrou na revista por indicação de Antônio Machado de Barros. Jornalista que já dirigiu as redações de Exame, Informática Exame, VIP, Melhores e Maiores, além de ser repórter econômico em Veja e editor no extinto Jornal da República. O convite, como explica Carlos, deu origem a uma brincadeira “O Antônio Machado de Barros me ofereceu uma vaga em informática porque ele sabia do meu interesse pessoal. Eu aceitei e após a nossa parceria, começaram a chamar ele de Machadão e eu de Machadinho”.

Os primeiros trabalhos na Exame Informática eram sobre como as empresas estavam começando a utilizar a tecnologia para melhorar e expandir seus negócios. O início não foi muito jornalístico. “No começo, nós não escrevíamos para quem gostava de tecnologia, nós fazíamos muito mais uma divulgação de empresas que estavam começando a utilizar”.

Machado se orgulha de ter criado duas coisas na Exame Informática. A primeira foi o diálogo com o leitor dando respostas, utilizando seu conhecimento prévio, a dúvidas que eram enviadas para a revista. “Nós transformamos a revista em uma ferramenta para as pessoas porque elas criaram uma relação pessoal e não somente empresarial”.

Relações e futuro

Outro momento de emoção. Carlos Machado tira os seus óculos e os coloca na mesa. Diz com uma voz baixa “Uma das maiores satisfações da minha jornalística foi encontrar pessoas em eventos e elas dizerem: Você é o Carlos Machado? Queria te agradecer. Foi por sua causa, lendo as suas matérias, que eu escolhi a minha profissão”.

O segundo motivo de orgulho foram os tutoriais. Neles, Machado ensinava, com uma linguagem fácil, a utilizar funções dos programas que estavam instalados na maioria dos computadores domésticos.

Anos de redação fizeram com que Machado criasse varias amizades. Maurício Grego, ex-redator-chefe da revista INFO e atual editor sênior de tecnologia no site EXAME.com descreve como era seu relacionamento com Machado e como ele se comportava na redação “Trabalhamos juntos durante muitos anos. Machado é inteligente e tem enorme bagagem cultural. Está sempre descobrindo coisas interessantes em áreas como tecnologia, literatura e música. Uma conversa com ele nunca era tempo perdido. Era sempre tranquilo, bem humorado e um tanto reservado. Querido por todos, Machado não falava muito sobre si mesmo. Preferia discutir cultura ou tecnologia. E sempre demonstrava muito bom senso em suas opiniões.”

O engenheiro chefe do INFOlab, laboratório de testes de produtos da revista INFO, Luiz Cruz, concorda com as opiniões de Maurício Grego “Machado é um jornalista com vasta experiência e vivência. Por isso, em nossas conversas sobre tecnologia, sempre tenho algo a aprender. É como uma relação de professor-aluno em alguns momentos. Como conhecedor profundo da nossa língua ele também dedicou um tempo para corrigir meus textos.”
As mudanças no mundo da tecnologia sempre foram recebidas de braços abertos pelos jornalistas do ramo.

Mas as coisas não são bem assim para quem não é da área, como diz Machado “Jornalista tem medo de tecnologia. Muitos jornalistas ainda usam bloquinho pra anotar ou só sabem fazer o básico no Word, por exemplo. Então enquanto eu fuçava as coisas quando elas eram lançadas, muitos colegas se recusavam a inovar e preferiam fazer como sempre faziam”.

A INFO mudou de cara com o tempo. Deixando de ser uma revista com foco somente em tecnologia e passando a abordar como o próprio logo diz: informação, tendências, inovação e cultura digital. Machado não concorda com essa mudança “A INFO se alinhou com a linha de uma revista americana chamada WIRED. Só que o problema é que a WIRED é feita para um público que não é o mesmo público do que no Brasil. E lá também há o culto ao freela. Ou seja, as matérias são feitas por colaboradores que não são fixos. O que dificulta manter uma uniformidade editorial”.

A saída de Machado ocorreu em Junho de 2012. Mas ele não sente mágoas “Era natural se eu não saísse, eles saíram comigo. E foi mais ou menos o que eles fizeram. Só que eles não podiam me mandar embora, era para eu ter sido “executado” junto com a diretora de redação, o Maurício Grego e o diretor de arte, mas eu me salvei porque meu cargo não era de tanta importância. Só que com o tempo eles começaram a cortar os veteranos. Mas eu não levei a ponta de faca, não estava a fim de brigar”.

Nossa entrevista chega ao fim nesse ponto. Nos levantamos, saímos da Pinacoteca e nos dirigimos ao metrô. Pergunto sobre o futuro e ele responde “Olha, talvez eu me mude para Salvador. Lá é mais calmo. Quero passar um tempo com a minha filha. Vai demorar para se acostumar com a cidade, mas a gente tenta”.

Antes de nos despedirmos, Machado tira um exemplar do seu livro, Pássaro de vidro, daquele envelope marrom que mencionei. Anota algo na primeira página, entrega o livro em minhas mãos e diz: “Até mais!”. Chego no metrô e institivamente abro o livro “ Para Lucas, com abraços de Carlos Machado maio/2013”. Mesmo sem ter começado a escrever, chego em casa com a sensação de dever cumprido.

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Perfil – Carlos Machado

Minha escolha de perfilado é Carlos Machado. Nascido em Muritiba na Bahia no ano de 1951, Machado foi o primeiro negro a se destacar no jornalismo de tecnologia.

Além de ser super simpático, escolhi Machado pois ele vivenciou uma série de mudanças no jeito de se fazer jornalismo e sobre o que ele fazia jornalismo. Fazer um perfil sobre ele seria interessante para sentir como é passar por mudanças tão radicais e como ele enxerga os focas que já entram “informatizados” na profissão.

É pela barriga: restaurantes temáticos de São Paulo

Espalhados pela cidade, esses restaurantes oferecem muito mais do que uma refeição.

A correria já está inserida no DNA do paulistano. Não importa se ele está adiantado ou atrasado, o melhor jeito é sempre o mais rápido. Uma prova da correria cotidiana é o crescimento das redes de fast-food. Oferecendo alimentos rápidos e, nem sempre saudáveis, elas se tornaram a opção número um do paulistano na hora do almoço.

Os restaurantes a seguir não servem comida rápida e para viagem. Eles contam com uma temática, decoração, iluminação e atendimento únicos. Não são lugares só para pegar comida, são lugares para serem vividos.

Escondida no fundo de uma galeria na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio está a WAKA HOUSE. O visual do lado de fora dá uma pista sobre a especialidade do restaurante. Especializado em cozinha japonesa, o restaurante nos surpreende logo quando passarmos pelas suas cortinas na porta de entrada. A sensação é de que estamos em outro tempo, em um Japão feudal.

A história do lugar é contada pela gerente Maria Mello “Esse restaurante foi criado em 1960, desde então não mudamos o cardápio uma só vez”. O sucesso do restaurante não está só nos pratos mais conhecidos como o yakissoba e o tempurá, mas sim na criação de uma experiência que parte da escolha do lugar na bancada de madeira, continua na degustação das primeiras entradas, tem seu ápice no prato principal e termina suavemente com a sobremesa.

Os detalhes do trajeto começam nas bebidas. O refrigerante e a água dão lugar ao chá verde. Servido em uma xícara que mais parece um pequeno barril, ele reconforta e aclimata o estômago para o que está por vir. A simplicidade e suavidade dos pratos escondem algumas dificuldades para encontrar certos ingredientes, como explica Maria “Tem uma florzinha chamada mioga, ela é muito difícil de encontrar porque ela floresce só uma vez por ano. Também é difícil encontrar verduras realmente frescas, bem crocantes”.

A rodada de entradas começa com verduras em conserva e tofu (queijo de soja) e são encerradas por legumes cozidos no vapor e fatias de peixe cru com broto de feijão. A seguir o prato principal depende da escolha de cada cliente, mas o mais pedido e recomendado é a pescada frita servida com molho de soja. Falando em favorito, Maria destaca dois perfis distintos de público “Na hora do almoço a maioria são empresários que trabalham por perto, mas na parte da noite o número de japoneses é maior. Eles vêm para beber e conversar até de madrugada.”.

Antes de continuarmos o relato, vale ressaltar a organização dos pratos. Tudo é servido em pequenas tigelas e com o maior cuidado. Isso faz com que nenhum componente seja mais importante que o outro, tudo é apreciado em seu devido tempo.

Um pai sentado com suas duas filhas reforça a última fala de Maria durante nossa conversa “Tem muitos clientes que vinham comer com os pais quando eram pequenos e agora trazem os seus filhos para comer aqui, é uma maneira de transmitir a cultura de geração em geração”.

A refeição termina com bananas carameladas de sobremesa. E ao sairmos pela porta voltamos à correria do dia a dia. Mas com a barriga satisfeita e com a alma tranquila.

Seguindo a linha de uma experiência imersiva, o Gopala Hari também foi uma descoberta muito agradável. Localizado perto da estação Consolação do metrô, o restaurante indiano tem uma característica muito especial, ele é lacto vegetariano. Isso significa que os pratos não possuem qualquer tipo de carne e são preparados utilizando somente vegetais e derivados de leite. Mas se você acha que a comida fica sem graça ou sabor, você está muito enganado.

Como sempre, o almoço não começa na chegada dos primeiros pratos, mas sim logo na entrada do restaurante, as janelas e fachadas decoradas se destacam no meio das casinhas residenciais. As pétalas de rosa nos degraus da escada, o cheiro de incenso e a música fazem a “descompressão” de quem vem da correria do dia a dia.

Nenhum detalhe escapou dos olhos da gerente Mitra. Tudo tem um toque indiano, de pinturas na parede até o suporte do ventilador. O cardápio do restaurante está restrito a duas combinações a cada dia da semana.

Escolho o arroz jasmine com manga verde, a pakora (legumes empanados com especiarias), torta de abobrinha com tomate seco e Gulab Jamun de sobremesa.  A melhor pedida pra se beber é o txai, um chá com leite e especiarias.

A minha primeira surpresa chega depois de uma salada fresca e bem temperada. A sobremesa chega junto com os pratos principais.

Como era de se esperar, tudo é muito colorido. O arroz mistura o amarelo, com o verde e o vermelho. Os legumes são crocantes e leves. A organização dos pratos lembra um restaurante oriental, tudo vem separado em tigelas de inox. Os temperos também marcam forte presença, desde o agridoce até o picante. Mas nenhum deles chega a se destacar em excesso. Eles conseguem trabalhar juntos tornando o prato leve, mas muito carregado em sabor e personalidade. Três indianos se sentam ao meu lado passam a elogiar a comida em um inglês carregado de sotaque, a impressão é que concordam com as minhas afirmações.

O Gulab Jamun fecha a refeição. Feito com leite e farinha, o bolinho é frito e depois mergulhado em um xarope de água de rosas. O resultado é uma sobremesa incrivelmente leve e ao mesmo tempo doce.

Antes de voltar à correria, dê uma passada na loja que fica embaixo do restaurante. Nela você pode comprar especiarias importadas diretamente da Índia, tapetes e roupas, incensos e acessórios de cozinha.

Enquanto os restaurantes acima se especializaram em temáticas de seus respectivos países, o restaurante a seguir foi mais radical: se especializou em um tipo de peixe.

Assim funciona a Salmon & Co. Localizado na Rua Jaú, o estabelecimento estampa a sua especialidade logo na entrada. O cardápio só tem pratos preparados com peixes nobres como truta, salmão e bacalhau. Quem me conta a ideia de criar o lugar é o gerente Araújo “Quem pensou foi o Hélio, meu sócio, ele saiu do Banespa em 1996 e a gente já tinha essa vontade de criar uma casa de peixe. Acabou calhando com a chegada do salmão no Brasil.”.

Separo este parágrafo para contar algo engraçado que aconteceu comigo durante a refeição. Entro no restaurante e peço mesa para um. O garçom me oferece uma mesa e me entrega o cardápio. Pergunto a especialidade da casa e ele responde: É o salmão. Você gosta de salmão? Ah, deve gostar sim. Não sei se o fato de eu ser japonês influenciou na resposta. Talvez sim. Voltemos à matéria.

A ambientação do lugar é igualmente bem feita se comparada com os outros restaurantes. As mobílias de madeira, a luz baixa, a adega, tudo trabalha junto para criar um ambiente agradável e aconchegante. Quem frequenta a casa? Araújo responde “É relativo, por ser um lugar comercial, segunda a sexta são os dias que pagam as contas. Então nos dias de semana quem frequenta são executivos que trabalham por aqui. Sábado e domingo diferencia. Ai o público é “público de peixe”, pessoal com uma faixa etária entre 50 e 70 anos.”

Estar funcionando a 17 anos é uma prova da aceitação do público. Sobre o prato favorito de quem frequenta, Araújo surpreende na resposta “O salmão é o carro-chefe, apesar de hoje estarmos vendendo muito é pescada branca que na verdade não é pescada, é filé de pangasius, um peixe do sul do Vietnam.”.

Os prêmios na parede dão uma dica da qualidade dos pratos. Por escolha do próprio gerente, sou servido com um salmão À Belle Meunière. Preparado com champignons, alcaparras e camarões, o peixe vem grelhado a perfeição. A pele é frita até se tornar crocante e prender todo o sabor do pescado. A carne se desfaz com facilidade e não tem sequer um espinho. O prato é saboroso, mas não chega a ser salgado demais. Todos os ingredientes convivem muito bem entre si. As alcaparras, e seu salgado, não conseguem esconder o sabor característico de mar do salmão e do camarão. Os champignons e a manteiga harmonizam muito bem com os outros componentes. O veredito é uma refeição que alterna entre momentos de sabor acentuado e momentos de sabores suaves.

Ter um restaurante com pratos tão específicos causa certas dificuldades para manter sempre as mesmas opções no cardápio, como conta Araújo “É meio coisa do tempo, sazonal. Tem épocas onde o salmão sobe muito, ou no Natal o bacalhau também sobe de preço e isso acaba afetando o consumidor. Mas a gente conseguiu montar um menu bem diversificado pra que a gente não fique sem trabalhar só porque está difícil de adquirir um certo produto no mercado”.

A refeição se encerra com um caloroso “Até logo!” e voltamos para a correria do dia-a-dia com a sensação que almoçamos com velhos amigos.

Restaurantes como esses estão espalhados por toda a cidade. E cabe a nós encontra-los, pois nunca se sabe quando uma simples refeição pode se transformar em um episódio que marcará a sua vida.

É pela barriga: os restaurantes culturais de São Paulo

Tema: Cidade/ cotidiano

Viés: Turismo/ curiosidade

1) Quero propor uma reportagem temática sobre a diversidade cultural dos restaurantes na  cidade de São Paulo.

2) Essa reportagem temática surgiu através da observação dos mais diversos tipos de restaurantes servindo os mais diversos pratos das mais diversas culturas (diversidade é a palavra-chave)

3) A minha curiosidade está em saber qual foi a inspiração ao criar um certo de restaurante e quais foram as dificuldades logísticas (onde abrir) e ideológicas ( aceitação do público).

4) A minha pergunta principal seria: “O que te fez escolher este tipo de restaurante?”

5) As fontes seriam os donos dos restaurantes (obviamente) e os frequentadores do lugar (qualidade do serviço e se o restaurante é fiel ao tema que ele propõe)

6) A pauta pode ser considerada especial pois ela não abordar só o que é servido pelo restaurante, mas sim quais foram as dificuldades em implanta-lo e qual foi o seu sucesso baseado em opiniões de clientes.