Jogos que não são brincadeira

Com competições profissionais transmitidas e narradas ao vivo na internet, os jogos online deixaram de ser simples entretenimento

Anna Aurili tem dezessete anos, e está no terceiro ano do ensino médio. Como qualquer outro vestibulando, sua rotina é puxada: ela tem de dividir seu tempo entre o colégio, aulas de canto e piano e estudo para o vestibular. Nessa correria, reserva nos dias de semana o horário das 16h às 22h todos os dias de semana para jogar online. Válvula de escape para relaxar? Não – é treino, mesmo. Anna participa de campeonatos de League of Legends, um jogo online de estratégia. A estudante também faz streams – ou seja, transmite ao vivo na internet as partidas de que participa. “É apertado, sim, mas não é impossível”, observa a estudante sobre sua rotina.

Engana-se quem acredita que jogos online são objetos de mero entretenimento. Nomes como Counter-Strike, Starcraft, DotA e League of Legends são mais do que jogos – são considerados electronic sports, ou simplesmente eSports. São verdadeiros esportes virtuais. Eles envolvem campeonatos, jogadores profissionais e até mesmo exibição online ao vivo de torneios, com direito a narração das partidas. Anna explica a diferença entre os eSports e os jogos convencionais a que assistimos nas olimpíadas: “os atletas não-virtuais treinam o corpo; nós treinamos a mente”.

League of Legends é atualmente um dos jogos online mais jogados no mundo. Nele, jogadores formam dois times de cinco pessoas cada, e o objetivo é destruir a base inimiga numa arena cheia de obstáculos, como monstros. Parece simples – no entanto, a estrutura do jogo é muito mais complexa. Há várias modalidades de partidas; há centenas de personagens (os chamados champions, ou campeões) com habilidades especiais diversas; e, de acordo com o desempenho do jogador, ganha-se uma espécie de dinheiro virtual, o IP, para comprar itens que aperfeiçoam personagens. Aliás, fazer uma conta no League of Legends é de graça, mas nem todos os itens disponíveis na loja do jogo são gratuitos. Alguns só podem ser comprados com IP; já outros envolvem dinheiro do mundo real, mesmo – o chamado RP. Neste caso, as compras podem ser feitas com boleto, cartão de crédito ou até mesmo com crédito de celular.

Para quem joga profissionalmente, esses investimentos valem a pena. Afinal, as cifras dos torneios internacionais são enormes: o Season One Championship, primeiro campeonato mundial de League of Legends, teve um prêmio de cem mil dólares, por exemplo. Bruno Luis Pereira, narrador – ou caster – do jogo, observa que ao contrário do que acontecia um tempo atrás, hoje os campeonatos que oferecem apenas RP não atraem mais tantos times profissionais. “Premiações de quinhentos reais já estão ficando mais obsoletas, porque os times estão treinando muito para jogar competitivamente e quinhentos reais não vale o esforço deles”, explica.

E não são apenas os jogadores que estão se profissionalizando. Grandes campeonatos não só são transmitidos ao vivo online como também são narrados pelos chamados casters – assim como se faz com qualquer outro esporte não virtual. Na Coreia do Sul, essa área dos jogos online atingiu outro nível de profissionalismo: no país, há até um canal de televisão dedicado aos eSports, o OGN. Mas lá, o jogo mais famoso é outro: o Starcraft. “Ele é quase uma religião sul-coreana”, observa Danilo Torturella, jogador amador de League of Legends há três anos. Também vestibulando, Danilo usa o jogo online para relaxar com os estudos, e acompanha os campeonatos mundiais. “Na verdade, não tenho nenhum time favorito. Só gosto de assistir o pessoal jogando”, diz.

No Brasil, o trabalho de narração de League of Legends é bem recente. Bruno Luis Pereira – ou LeonButcher, como ficou conhecido na internet – foi um dos primeiros casters brasileiros. O estudante de jornalismo começou com suas gravações no ano passado, transmitindo e narrando os jogos com o computador da sua casa. Hoje trabalha num estúdio da agência X5, que agencia tanto jogadores como narradores. Bruno tem uma página no Facebook com mais de 2.600 seguidores, por onde ele divulga os links de suas transmissões. E ainda se espanta com a fama nos torneios presenciais: “na Intel Extreme Masters, que ocorreu em janeiro, eu tanto tirei foto como também dei autógrafo. Eu não estava acostumado a isso”, ri.

No exterior, fama é pouco. Nos Estados Unidos, um dos times mais famosos de League of Legends, o Curse, ganhou uma casa em Beverly Hills com o valor de dois milhões de dólares. Mas não é qualquer casa: é uma gaming house, uma moradia equipada com computadores apenas para os membros se dedicarem aos treinos do eSport. Já no Brasil, os jogos online ainda são um campo um tanto desconhecido. “Quando digo que trabalho com locução de jogos, me perguntam: ‘então você narra joguinhos de computador?’. É uma cultura totalmente diferente”, comenta Bruno. Anna também não escapa do preconceito: “existem muitas pessoas que enxergam os cyberatletlas como aberrações nerds. Até mesmo alguns pais não aceitam que os filhos ganhem a vida na frente do computador”, diz.

De fato, o cenário competitivo no Brasil ainda não é muito rentável para um jogador profissional. Por enquanto, há apenas dois times brasileiros que recebem um auxílio para treinar. Porém, com a criação do servidor brasileiro de League of Legends no ano passado, a área profissional do jogo só tende a se expandir. Há cada vez mais campeonatos locais, as premiações são cada vez maiores. Os times começam a despontar. Recentemente, ocorreu o primeiro torneio presencial de League of Legends no Brasil, a Intel Extreme Masters. Também foi a primeira vez que um time brasileiro derrotou um time estrangeiro – no caso, um time sul-coreano. “Tudo isso faz o cenário crescer bastante, e ele ainda crescerá muito mais”, prevê Bruno.

Pouco a pouco, os jogos online formam um atraente campo de trabalho. Mas não necessariamente pela possibilidade de jogar profissionalmente. Bruno, por exemplo, pensa em trabalhar nessa área desenvolvendo algum tipo de conteúdo jornalístico – sem ser a narração de jogos, necessariamente. Ele define o cenário dos eSports como “volátil”. “Você pode não ter o resultado esperado. Você pode treinar uma semana inteira, chegar ao campeonato e perder. E daí você volta para casa de mãos abanando”, reflete. Danilo Torturella concorda: “os jogadores profissionais têm de se dedicar demais, é um trabalho muito puxado. Eu gosto de jogar mais por mera diversão”.

O “lado sério” do League of Legends

Minha proposta é fazer uma matéria sobre o lado sério do League of Legends, o jogo online tipo MOBA mais jogado no mundo atualmente.

O League of Legends não é pago (apesar de alguns itens poderem ser comprados), mas tem campeonatos mundiais que valem milhares de dólares – algumas pessoas realmente dedicam suas vidas para jogar em times profissionais. Além disso, alguns sites transmitem ao vivo jogos importantes com um trabalho de narração.

Gostaria de conhecer melhor como funcionam esses campeonatos e o trabalho de narração dos torneios, como alguém se torna um jogador profissional e como se administra tal carreira tão pouco convencional.

Para fazer minha matéria, pretendo entrevistar jogadores profissionais, narradores de campeonatos e funcionários da Riot, a empresa por trás do League of Legends.