O eu através do espelho

Algum homem

Mesmo a distância a primeira impressão é incômoda. Nota-se bruscamente seu bigode mal cuidado, seu  cabelo rebelde que não decide entre preto ou branco, olhos que não se fixam em parte alguma, daqueles que se movem a cada segundo, atravessando a tudo e a todos como se não enxergasse nada ou enxergasse tudo. Percebe-se que possui uma idade avançada. Veste um casaco marrom, com aspecto velho, que esconde uma regata rosa do Mickey, certamente doados, uma calça jeans que não mais é lavada e sapatos solitários que não formam um par. Não pára de falar com interlocutores invisíveis. Gesticula, grita, ri de alguma piada, canta, troca o português por uma língua própria. Não respondeu minha pergunta, afastou minhas palavras com a mão e comentou com alguém que não era feito de átomos e moléculas, que a noite era de disco voador. Era uma noite úmida de lua cheia; a crença medieval de que a lua interfere na loucura e nos amores ainda corre por aí. Mas, ora, não é a lua, literalmente, um disco voador?

Esse homem é uma lenda que círcula pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. As histórias que giram ao redor dele são muitas, mas ninguém parece se importar com a verdade, cada um divulga a que achar mais interresante. Inquestionavelmente é um louco. Quando se aproxima é interressante, as pessoas perdem a naturalidade, não sabem o que fazer. Era uma fila enorme dos atrasados para a aula das sete e meia, que ninguém assiste sem café. Ele chegou, falando alto, sozinho. Percebe-se quem ainda não o conhece, pois esboça um riso bobo. Ele se aproxima e então quem ia rir vira a cara, muda de assunto, finge que não viu. Já quem o conhece, finge com esforço que ele não existe. Às vezes, alguém dá uma esmola, um cigarro, ele se aproxima faz o gesto de pedir fogo, mas nunca pára com seu interminável colóquio consigo. Ao mesmo tempo que é risível, a loucura, assusta.

O segurança do prédio de Filosofia (prefere não se identificar), afirma que ele mora nas proximidades da faculdade e recebe ajuda de alguns funcionários, comida e roupas. Alguns o chamam de Piauí, outros apenas de “louco da FFLCH”. Não se sabe ao certo quanto tempo ele está por lá, mas “com certeza, é mais de cinco anos”. Conta que já tentaram o internar, mas ele não faz mal a ninguém, está melhor assim, e ninguém sabe a respeito da família. Bruno Sanzonne, segundo ano da Letras, divulga que ele é um estudante de Mestrado em Antropologia, que está fazendo uma experiência. E como você sabe disso?, pergunto, “Me contaram”, evasivo. Continuo: “então ele é muito bom ator, não causa um incômodo sua presença?”; “sim, não estamos acostumados, é como ver poste mijando em cachorro” conclúi com essas belas palavras.

Quanto mais se pergunta, menos se sabe. De repente, entra numa sala de aula. Senta, fica em silêncio, parece que presta atenção. Os alunos confirmam que geralmente ele assiste aulas, e se comporta bem, mesmo naquele tedioso seminário sobre o tedioso Kant e sua tediosa epistemologia. Acaba, levanta-se e volta para suas discussões e músicas obscenas, de si para si. Percebo que seria extremamente descortês continuar a segui-lo. E pior ainda entendê-lo, catalogá-lo, isolá-lo, impor um diagnóstico, trazê-lo para uma realidade limitada. Ora, sua vida normal não mais existe, seria apenas sofrimento fazer com que ele se adequasse a algo tão distante, tão fora de si. Felizmente não é minha função; é muito mais humano deixá-lo em paz.

Algumas informações

A humanidade sempre teve um jeito mágico de lidar com os indesejáveis: fazendo-os desaparecer. Na época das Cruzadas os loucos e leprosos eram enviados para Jerusalém para serem purificados, era um castigo divino. Já no Renascimento Cultural, A Nau Dos Loucos, entrará no imaginário europeu; um barco que literalmente, leva os loucos de um lugar para outro, para que a distância e a água, os salvassem. Nessa época começa a internação e a substituição nos leprosários por loucos. O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdã, Dom Quixote de Cervantes, Jerônimo Bosch com A Cura da Loucura e A Nau dos Loucos, entre muitas outras obras de arte, mostram como a loucura vai aos poucos mudando de forma e torna-se o outro lado da razão, podendo até ser necessária para a “verdade”, pois o louco pode dizer (e fazer) o que o são não pode.

Entretanto a revolução científica, vai colocá-la no estado de mais absoluto dos erros. Nos séculos XVII e XVIII explode o número de casas de internação na Europa, locais que assemelhavam-se mais a masmorras e calabouços do que a hospitais. Até que em 1792, Pinel, médico francês, tira das correntes os loucos de Bicêtre, onde eram tratados como criminosos e passa a tratá-los como doentes. Era o nascimento da psiquiatria.

Em novembro de 2011, foi divulgado a Avaliação dos Hospitais Psiquiátricos, pesquisa encomendada pela Política Nacional de Saúde Mental. É influenciado pelas novas políticas antimanicomial  que surgiram na segunda metade do séc. XX. O programa analisou 189 hospitais psiquiátricos brasileiros que participam do SUS, para determinar a situação e as novas resoluções. Chama a atenção que 75% são privados, e que 69% são de pequeno porte (até 160 leitos). 37% das pessoas internadas estão lá há mais de um ano. 30% dos hospitais não estão com estruturas minimamente adequadas.

Algum especialista

Egle Maria Brighi é uma psicóloga que trabalha a dezessete anos no Centro de Tratamento Bezerra de Menezes, em São Bernardo, um hospital que trata de casos de dependência química e de casos psiquiátricos graves. Loira, gentil, Egle passa a sensação de que se pode confiar. Durante a entrevista, em aproximadamente trinta e cinco minutos, a palavra “sofrimento” foi dita mais de quarenta vezes.

Começo perguntando qual o limite, o momento da internação. “É muito difícil. Às vezes é subjetivo. Quando o caso é muito grave, muito explícito, quando coloca em risco a vida dele e de outras pessoas, é mais fácil saber o momento. Mas, às vezes, o problema pode ser até em casa e o paciente precisa de um isolamento.” Pergunto se é subjetivo para quem, para o médico, ou para o paciente. “Depende. Mas a internação é só no último caso. Não pode ser a única coisa. Mas, por exemplo, um paciente Esquízo Paranóico, pode achar que você quer matar ele e ele te mata. Parece que é muito violento, mas muitas vezes só esse afastamento da sociedade já ajuda.”

Aos poucos nossa sociedade começa a mudar, os confinamentos deixam de ser externos, rígidos, e começam a ser internos, flexíveis, mascarados. Pergunto se o remédio pode confinar o paciente, dentro dele mesmo. “É muito sério isso. Tem paciente que realmente precisa, senão fica completamente fora da realidade. Hoje em dia, os efeitos colaterais são menores, pode até conseguir tocar a vida. Não vai ser uma maravilha, mas… O medicamento que confina o paciente, geralmente, é o Aldol, que é antigo. Esse confina. É mais barato, muito usado, mas deixa robotizado, é só olhar que você sabe quem usa.” E pergunto se eles viciam: “o remédio é bom para ajudar os pacientes a virem para terapia, a pensar e a tentar melhorar; ter a condição para isso. As vezes, é mais fácil só tomar o remédio. É só tomar a pílula da felicidade que naquele momento está tudo bem”, o que me lembra a minha religiosa cerveja de sexta.

Mas o remédio é química. Pergunto então a relação entre os processos químicos e psicológicos. ” Risos. São várias as linhas. Cada corrente fala uma coisa. Mas eu acho que junta as duas. Não vejo separado e depende do caso, cada paciente é único. Hoje, nesses casos mais graves, eu acho que é a química cerebral que se altera, e acaba levando a fragilizar o emocional que prejudica mais ainda a química e por ai vai.” É genético, pergunto. “Nós usamos a palavra constituicional, não genético. Tem pessoas que tem uma estrutura emocional mais fortes, outras mais fracas. São vários os fatores. Nunca vi um fator que fecha a questão em um paciente, um único motivo. Nas alterações menos graves, que se manifestam quando se já está mais adulto, a vida vai ficando mais difícil e um momento talvez não se aguenta e altera a química, por exemplo. Agora as que se manifestam na infância, as mais graves, meu deus, a pessoa tem muitos mais aspectos doentes do que saudáveis, é muito sofrido”.

Pergunto, maldosamente, se a psiquiatria e psicologia servem para manter a normalidade na sociedade. ” Sem dúvida. Se todo mundo fizesse psicoterapia as pessoas teriam muito mais qualidade de vida, é um processo de auto conhecimento.” Pausa. Deixa para entrar o terceiro personagem; ele é careca, usa óculos e morreu na França em 1984, Michel Foucault. Foi exatamente investigando essa questão social, a normalidade, que Foucault descobriu o que chama de “poder disciplinar”. É um micropoder que age sobre os hábitos, costumes, corpos, que evidencía e exclui os “anormais”. Ele molda nossa sociedade e “as fibras moles do cérebro” utilizando a disciplina, com uma ocupação do tempo, da vida e do corpo do indivíduo: escolas, prisões, fábricas, hospitais… E para Foucault, simplificadamente, é esse poder que cria o indivíduo, e a ilusão de subjetividade.

Mas voltando, pergunto o que fazer quando alguém está fora da nossa realidade: ” um paciente que fala, por exemplo, que é Jesus Cristo, ele realmente acha que é Jesus. Não adianta falar, ele é. Então você tolera, conversa com Jesus muito tempo. Um dia ele tem que entender o porque que ele foi ser Jesus Cristo. E cada um tem um sentido próprio. Eu tive um caso uma vez, de um menino de dezessete anos, começou a usar cocaína e surtou. Ele tinha alucinação olfativa, tudo que ia comer cheirava podre. Ele realmente sentia o cheiro podre”. E hoje como ele está: ” Surto aos dezessete e desencadeado por cocaína? Hoje ele tem uns quarenta anos e nunca trabalhou, ou constituiu família, aspecto de bobão”. E é um exluído socialmente. “A tendência é, realmente, discriminar a pessoa. Porque, as vezes, uma pessoa desorganizada mentalmente mobiliza a nossa própria loucura interna. Mesmo quem trabalha com isso tem que ter uma estrutura muito forte. Às vezes você não aguenta nem conversar com a pessoa, quer logo isolá-la. Muitas vezes o próprio paciente se discrimina também. ” E para terminar: “O louco, psicótico, sofre muito, e não é uma dor que se vê na radiografia; é uma desorganização interna muito intensa”.

 

Algumas dúvidas


E na realidade o que sobrou foram mais perguntas. O que será que causa aquele profundo incômodo? Será enchergar a nós, em pressentir que somos iguais, como variações de um mesmo tema? Em entrarmos em contato com a nossa profundeza orgânica, em admitir que somos somente misturas de substâncias que podem dar errado a qualquer momento?  Como saber o que é real, o que é certo? E se a própria realidade é uma construção histórica cultural e estamos imersos nela, e se nós, nossa individualidade, for apenas fruto dessa construção? E se a lógica, a linguagem, a racionalidade, o “eu” forem apenas meios, modos de preencher esse animal vazio que chamamos de ser humano? Não seria a loucura, então, a única realidade? Será que escrevi oito mil oitocentas e trinta e duas palavras, apenas sobre mim mesmo?  

As Sombras

Raul Duarte

Tema: saúde| comportamento

1. Gostaria de propor uma reportagem sobre a loucura. O que é a “loucura”? Um conceito que foge, se afasta, de uma definição seja subjetiva ou objetivamente. Uma análise, principalmente, como idéia, mas com foco em personagens, do que significa ou pode significar.

2. É impossivel passar um dia sem ouvir uma das variantes da palavra “loucura”. Com múltiplos significados e conotações. Pode se referir a algo, alguém ou experiências extremamente boas, ou estigmatizar, “inutilizar” uma pessoa. Ao mesmo tempo, é pensada como doença, que talvez seja, sabedoria, que é por acaso, ou liberdade, será?

3. Tenho curiosidade em como os indivíduos lidam com a própria loucura e a dos outros. Há uma necessidade de escapar a ditadura da razão? Exemplo: uma boa parte das pessoas procuram meios que dê a permissão para atos fora da normalidade, álcool e drogas, principalmente (“nossa só fiz isso porquê eu tava muito louco”, frase proferida todos os finais de semana). O quanto a Arte deve a loucura? O quanto ela serve para nos mostrar que talvez a realidade seja apenas uma construção na qual nos habituamos? O quanto pode ser idealizada, e o quanto pode ser “a pior das desgraças”, segundo minha Vó.

4. O que significa ser louco?

5. Focar principalmente em personagens que tenham fortes experiências, sublimes ou não. Verificar o estado da saúde pública, falando com especialista (psicólogos, psiquiatras, sociólogos) e averiguando o quanto os tratamentos, e o modo de se tratar, mudaram ao longo das últimas décadas.

6. É especial porquê universal. Um conceito que avança desde a antiguidade, que reflete em cada indivíduo e está presente quase todo o tempo, a espreita, como sombras.