“É dos carrascos que a gente não se esquece jamais”

A figura

Izildinha Aparecida Carlini Carter, 56 anos, já se destaca pelo nome. “Izildinha não é apelido, não. É meu nome mesmo. Quem escolheu foi meu irmão por causa da Santa Izildinha. Eu detesto. Até hoje pergunto pra ele: pô, não podia ter escolhido um nome melhorzinho, não?”, diverte-se.

Izildinha foi criada em São Paulo, no tradicional bairro da Mooca. Dos pais, que eram operários em uma fábrica na região, ela garante ter herdado somente uma coisa: o caráter. “Meus pais deram duro a vida toda pra nos criar [ela tem dois irmãos, Marcia e José]. O pouco que eles têm hoje foi conquistado com muito suor. Mas a lição mais importante que vão deixar pra mim e pros meus irmãos é a de andar na linha, de ser correto em tudo o que você for fazer nessa vida,” frisa.

O reencontro

Nosso reencontro se deu no mesmo lugar em que nos conhecemos há sete anos: o colégio onde passei catorze anos de minha vida. São 06h50min. Faltam dez minutos para o início das aulas, e por isso o longo corredor de paredes brancas ainda está tomado por alunos do ensino médio que se dividem em pequenos grupos, conversam em voz alta e gargalham. Percebo que o temido banco preto, onde se sentam os alunos expulsos das aulas, ainda permanece no mesmo lugar, ao lado da sala da diretoria.

Caminho na direção da sala dos professores a fim de encontrar a minha perfilada. Sentados, os professores tomam café e falam sobre os problemas com alguns alunos. Explico o intuito da minha visita. “Ela já deve estar chegando. Você sabe que ela não costuma se atrasar, né”, diz Karina, a inspetora.

Débora, professora de inglês que convive com a perfilada há treze anos também emite sua opinião. “A Izildinha é uma figura. Por trás desse jeitão, tem uma pessoa incrível, com o coração do tamanho do mundo, sempre disposta a ajudar. Profissionalmente, não preciso nem dizer. Ela está sempre lendo, se atualizando. Não é como alguns professores de história, que param no tempo”, resume.

Sento-me para aguardá-la. Ouço ecoar no corredor passos acelerados. São 7h10min. “Daqui a uns dias vou ter que sair de casa às 5h pra conseguir chegar aqui às 7h”, reclama a voz fina bastante conhecida aos meus ouvidos.

Ao entrar na sala, percebo que, visualmente, Izildinha mudou pouco desde a última vez que nos vimos, há um ano e meio. A única diferença são os cabelos agora assumidamente grisalhos. “Parei de pintar já faz um tempo. Tenho que assumir que já sou uma senhora, você não acha?”, justifica-se em tom de bom humor. Os olhos grandes e verdes, lábios finos, pele alva e o nariz fino e empinado que apoia os redondos óculos companheiros de duas décadas são heranças dos avós maternos e paternos italianos. “Sou tipicamente europeia: uma branquela azeda. Sofro muito com o sol”. Veste uma blusa de manga comprida azul, calça social bege claro e sapatos de salto alto pretos.

Ela então se dá conta de minha presença.

-Stella! Desculpa o atraso. Tudo bem?

Recebo um caloroso abraço daquela quem eu julgava ser a professora “mais bruxa de todos os tempos” há seis anos.

O susto inicial

Era janeiro de 2007. O assunto “volta às aulas” nunca é agradável a nenhum aluno por si só, mas naquele ano era ainda pior.  A partir dali, teria aula com a professora de história “mais malvada da face da Terra”, segundo a opinião de 10 em cada 11 alunos do colégio. Comentários como esses foram suficientes para deixar com os cabelos em pé todos os alunos da sétima série, inclusive eu.

Eis que chegou o dia de conhecer a tão famosa figura. Aquele foi um dos poucos dias em que todos nós nos sentamos sem ninguém ter que mandar e ficamos esperando em um incômodo silêncio “a bruxa” adentrar a sala.

Ouvimos alguém se aproximando no fim do corredor e foi o suficiente para os olhos começarem a se arregalar. Ao chegar e se deparar com aquela cena, no mínimo, engraçada, Izildinha parou na porta, e com as mãos na cintura e um sorriso irônico no rosto, olhou para cada carinha assustada e disse:

-Ai meu Deus! O que é que andaram falando de mim pra vocês? Que eu sou bruxa?

Não houve sequer um riso tímido. O silêncio persistiu até o momento em que ela se retirou da sala. E assim, ela deu início à primeira de uma série de aulas que eu viria ter ao longo de cinco anos e que me marcaram muito.

De volta ao presente

Enquanto nos dirigimos para a sala de aula, explico detalhadamente o que é um perfil e ela me ouve atentamente.

A primeira aula do dia é para o 9º ano. Ao entrar, é recebida com sorrisos e muitos “bom dia” que são retribuídos. Os alunos estranham a minha presença, mas ela logo explica:

-Essa aqui é a Stella, minha ex-aluna que veio fazer um trabalho pra faculdade. Vamos à luta, filhos da…pátria!

As risadas ecoam pela pequena sala com vinte e três alunos. As paredes, assim como o restante da sala, são brancas, ventiladas por duas janelas ao fundo.

Izildinha se senta e faz a chamada. Ao ler os nomes no diário, os olhos ágeis já percorrem a sala em busca do rosto. Ela conhece cada um como uma mãe conhece cada filho.

-Onde foi que paramos na última aula? Estávamos falando sobre a Revolução Russa se não me falha a memória.

Duas alunas sentadas nas primeiras fileiras concordam com a cabeça. É visível que a maioria dos alunos está sonolenta e para chamar-lhes atenção, ela dá sucessivos tapas na mesa e aumenta o tom de voz, enfatizando, em tom autoritário, cada palavra.

– A Rússia no início do século XX era pior do que o Brasil em termos econômicos. Imaginem só um país onde 80% da economia estava concentrada no campo.

Levanta-se de forma apressada e caminha até chegar à lousa verde. Toma um giz branco na mão e escreve no centro do quadro a palavra “sovietes”.

– Os sovietes – e é daqui que vai surgir o nome União Soviética- eram organizações de trabalhadores lideradas por um senhor já conhecido de vocês chamado Vladmir Lênin, explica.

No intervalo entre as aulas, converso com Eduarda, aluna do primeiro ano do ensino médio sobre o que ela pensa da Izildinha. “Quando comecei a ter aulas com ela, tinha medo sim. Mas logo me acostumei. Por trás desse jeito durão, tem uma mãezona! E ela é uma ótima professora. Traz sempre assuntos atuais pra sala de aula”, elogia.

Acompanho as sete aulas que ela daria naquele dia. O tom enérgico na fala – uma garrafa de dois litros de água é o alívio para a garganta – e a postura autoritária são as mesmas em todas. A expressão de seriedade, perceptível através da testa franzida, se desfaz nos raros momentos de descontração durante os cinquenta minutos em cada sala.

Mas uma coisa é inegável: ela fala sobre revolução russa, francesa, ditadura militar no Brasil com paixão de novata e a naturalidade de quem faz isso há trinta e quatro anos.

A jornada da professora acaba às 13h10min. É hora de ir para casa onde ela dará início a jornada de mãe, esposa e dona de casa.

A outra Izildinha

Seguimos de carro até sua casa, no bairro do Jaguaré, em São Paulo. O trajeto é curto, dura aproximadamente 25 minutos. Mas é tempo suficiente para darmos início a nossa conversa. No percurso, já é possível nota-la mais leve, menos preocupada em manter a pose sisuda.

– Você me disse uma vez que queria ter feito jornalismo né, Izildinha?

– Eu sonhava em ser jornalista. Mas como eu era dura, tinha que trabalhar e o curso era integral, desisti.                                                                                                                                                                                                                          – Por que você escolheu história, então?

– Porque naquela época conhecer muito de história era pré-requisito para ser um jornalista de bom nível. Economia também era importante, mas como eu não manjava nada de números…

– E como era o clima na FFLCH em plena época de ditadura militar?

– Não era tão diferente de hoje. Quando eu entrei, em 1975, havia muitos contestadores do regime. A postura “correta” era se apresentar como alguém consciente e politizado.

– E você se engajou politicamente?

– Eu gostava da leitura do Trotsky e acabei por aderir suas ideias. Mas nunca fui muito de militar ou fazer parte de algum grupo. Achava todos os discursos acalorados e medíocres.

– Mas você chegou a participar de manifestações contra a ditadura?

– Participei de muitas. Era bem diferente de hoje porque não existia o preceito da baderna. Era importante demonstrar seriedade na atitude. Mas nunca apanhei de polícia, porque era ágil.

– Então você nunca foi presa?

-Fui detida uma noite em setembro de 1977. Eu e uns amigos fomos em uma reunião na PUC pra festejar o sucesso da UNE, que tinha acabado de se rearticular. Tinha gente de todas as faculdades, estava ótimo. De repente vi a polícia indo com tudo pra cima do pessoal. Saí correndo e entrei em uma sala onde estava tendo aula. Os policias entraram e gritaram: “quem é aluno fica, quem não for, levanta e corre, porque o pau vai comer”. O professor tentou argumentar e levou a primeira bordoada.  Foi o maior corre-corre. Eu me escondi com uma amiga dentro do banheiro. De repente, escutei ela gritar porque um PM tava pegando ela pelos cabelos. Abri a porta, empurrei o cara e saímos correndo. Não adiantou nada porque fomos pegas. Passamos a noite no batalhão da Rota, mas lá foi tranquilo. A OAB havia sido acionada por moradores vizinhos que denunciaram as prisões. Bom, entrou lá uma advogada representante da ordem e adivinhe quem mais: minha mãe, que agarrou o coronel pela farda e disse que se não deixasse ela me ver mataria ele. Mais tarde o Erasmo Dias, secretário de segurança, entrou na quadra onde estávamos e saiu 1 minuto depois, pois recebeu tanto sapato na cabeça que formou um monte de uns 2 metros. Não é exagero não, tem fotos disso nos jornais do período. Fui fichada, mas não deu em nada. Foi uma curtição, mas não participei de mais nada depois disso.

A decisão de não militar mais não foi por medo de ser presa novamente, e sim por causa da mudança nos ideais. “Eu sai da faculdade em 1979, mas nunca parei de estudar. Cada vez mais me convencia de que o marxismo era a via correta. Até que chegou o momento em que percebi que os livros didáticos estavam se tornando contraditórios. Me lembrei do meu professor de história contemporânea, Arnaldo Contie, que um dia apresentou dois textos que faziam críticas à linha de pensamento marxista. Na época, eu nem li. Resolvi pegar os textos e comecei a estuda-los, buscar referências e comparar as contradições. Peguei o próprio Marx novamente e descobri que, na verdade, ele era um louco pelo poder e não um defensor do operariado. Daí muitos dos meus jornalistas e escritores preferidos começaram a perceber as mesmas coisas que eu. Comecei a ler outros filósofos, estudar com menos euforia revolucionária. E a cada dia me convenço mais de que somos manipulados por ideologias totalitárias travestidas de democracia”, indigna-se.

Chegamos então no sobrado onde ela mora há 30 anos com o marido, Marcio e os filhos Natália de 28 anos e Guilherme de 25. Na garagem, somos recebidas por Zeca e Lilica, dois vira-latas que já estão na família há 10 anos. É acariciando ambos que ela se desarma totalmente. É outra Izildinha.

“Esses dois aqui são os meus filhos mais novos. Dão muito menos trabalho do que os de verdade. Fala sério, existe coisa mais pura no mundo do que esses bichinhos?”, diz maravilhada e abrindo um sorriso.

Na sala, encontramos Natália que se prepara pra ir ao trabalho. Sobre a mãe, ela resume: “É uma pessoa única. Meio implicante às vezes, nunca foi de passar a mão na cabeça quando eu fazia besteira. Mas está sempre do meu lado quando eu preciso tomar decisões importantes”.

O cômodo é lotado de porta-retratos nas paredes e nos móveis. Fotos dos filhos, dos irmãos, dos pais e de seu casamento. Ela e o marido, Marcio, se conheceram em um baile quando ela tinha 18 anos. Começaram a namorar logo em seguida, mas ele foi aprovado na UFSCAR e se mudou. “A gente não tinha grana pra ficar se visitando o tempo todo. Aí o namoro tinha que ser via correio mesmo”, recorda-se.

A conversa informal sobre sua profissão continua enquanto ela se divide entre preparar o almoço e lavar roupas.  Ela diz não ter se conformado só com a profissão inicialmente. “Me achava uma fracassada. Já casada e com uma filha, me descabelava, pois queria fazer outras coisas. Mas um dia percebi que estava no lugar certo e que era muito feliz sendo professora ensinando outros a adquirir visão crítica, raciocinar, sempre comparando e relacionando com a vida como ela se apresenta e não como os filósofos, sociólogos, pedagogos e fazedores de ideologias querem que seja”, argumenta.

Izildinha deu aula na escola pública durante 25 anos tendo se aposentado em 2010. Contrariando a opinião de muitos, ela diz não ver muitas diferenças entre o ensino público e privado. “É lógico que a particular tem mais organização e os alunos te respeitam um pouco mais. Mas tive alunos muito bons na pública, que me fizeram crescer enquanto profissional e ser humano, assim como na particular”, constata.

Sobre a fama de “bruxa”, ela garante não se importar nem um pouco. “Eu só quero que meus alunos aprendam a pensar com o próprio cérebro, que tenham uma visão crítica do mundo. É dos carrascos que a gente não se esquece nunca. Você, por exemplo, se lembrou de mim pra fazer esse trabalho, não é mesmo?”, alegra-se.

Perfil: Izildinha Carlini

Professor, tive um problema com a minha personagem sugerida anteriormente, pois ela teve alguns problemas pessoais e precisou viajar para fora do país sem previsão de retorno. Como tive somente um encontro com ela, não será possível realizar o perfil.

Por isso, estou postando a proposta de outro perfilado: minha professora de história do ensino fundamental ao ensino médio. Acredito que ela possa ser uma boa personagem por ter entrado na FFLCH/USP justamente na época da ditadura militar e quero mostrar como isso influenciou na sua formação como professora e quais são suas ideias atualmente.

 

Stella Borges

Perfil – Valéria Piassa Pollizi

Pretendo realizar o perfil de Valéria Piassa Pollizi, que descobriu ser soro positivo no ano de 1989, época em que pouco se sabia de fato sobre a AIDS. Ela foi uma das primeiras mulheres a apresentar a doença.

O transmissor do vírus foi o primeiro namorado com quem ela se relacionou dos 15 aos 16 anos. Descobriu ser portadora do vírus aos 17, às vésperas de uma viagem para os Estados Unidos.

Acredito que Valéria se destaque da multidão pelo modo como lidou com a doença desde o início. Há 24 anos atrás, receber esse diagnóstico significava ter ,no máximo, mais 3 meses de vida . Apesar de todos os sintomas que se manifestam devido a AIDS, além do preconceito que os portadores sofrem até hoje, Valéria se mostrou confiante na maior parte do tempo.

Em 2000, incentivada pelos amigos, ela decidiu escrever um livro que contasse sua história o que mais uma vez mostrou sua coragem e seu diferencial. No início, ela diz ter relutado bastante, mas como não queria que outras pessoas passassem por essa situação, criou coragem para colocar tudo no papel. Depois daquela viagem conta todos os desafios enfrentados por ela de modo bem descontraído para que possa atingir, principalmente, o público adolescente. O livro foi traduzido para diversas línguas.

Quase três décadas depois de ter descoberto a AIDS, Valéria não se preocupa mais com a cura da doença. Diz levar uma vida normal: terminou a faculdade de jornalismo, casou-se, pensa em ter filhos e se dedica integralmente a prevenir crianças e adolescentes através de palestras.

Luz para o caos

 “O paulistano encontra agora trânsito complicado com lentidão nas principais vias de acesso à capital”. Esse é o tipo de notícia que os moradores da capital paulista costumam ouvir praticamente todos os dias. O resultado? Um prejuízo calculado em 56 bilhões de reais para a economia da cidade no período de um ano, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas. As soluções para o problema são discutidas há décadas, mas como exigem vontade política aliada à mudança de hábito dos cidadãos, as transformações geralmente resumem-se a alterações quase imperceptíveis.

Panorama histórico

A década de 1950 no Brasil foi marcada pelo desenvolvimento do capitalismo, tendo como carro chefe a indústria automobilística. Durante o governo de Juscelino Kubistchek (1956-1961) houve incentivos à aquisição e ao uso de veículos motorizados, capazes de reestruturar e, posteriormente, manter o sistema econômico em momentos de crise.

No entanto, como se sabe, o carro exerceu um papel muito maior do que o de um simples bem de consumo. Segundo Carlos Campos, consultor de montadoras, “o carro é mais ou menos como a roupa. É a forma como o dono se apresenta para a sociedade.” Em diferentes graus, ele foi transformado em valor cultural característico da modernidade, como a liberdade individual, a busca pela realização pessoal, além da promoção de status dando o início ao que alguns especialistas costumam classificar como a “civilização do automóvel”.  Devido a isso, a infraestrutura urbana foi construída privilegiando o transporte individual privado. Essa cultura implicou numa série de questões prejudiciais às cidades como a degradação do meio-ambiente, a desigualdade social, a segregação espacial e a dificuldade de locomoção.

As cifras do carro

O governo, ao invés de incentivar o transporte coletivo, viu como uma das maneiras de escapar da crise mundial de 2008 reduzir o imposto sobre produtos industrializados (IPI), beneficiando a venda de veículos. Somente em 2010, foram vendidos 3 milhões de carros. Atualmente, o mercado automobilístico representa 10% do PIB.

A situação na maior cidade do país

O “imobilismo” provocado pelo uso excessivo do carro fica ainda mais evidente em grandes cidades como São Paulo. Segundo estudo realizado em 2010 pela International Business Machine (IBM), a capital paulista é o sexto pior lugar do mundo para se dirigir. Com a frota de veículos ultrapassando os sete milhões de carros, o futuro que espera os moradores da cidade será sombrio se algumas medidas não forem adotadas para aliviar a malha da capital. A situação só se agrava com o passar do tempo. Segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN), estima-se que a capital ganhe 1.000 veículos por dia.

Esse agravante quadro vem, aos poucos, chamando a atenção de diversos setores da sociedade. Órgãos coletivos, públicos e não governamentais, cada qual na sua competência, tentam tomar medidas para livrar a cidade desse mal. Que o trânsito de São Paulo é ruim todos sabem. Mas o que pode ser feito para melhorar essa situação? A resposta seria se espelhar e implantar medidas adotadas por outras cidades que enfrentaram problemas semelhantes. É claro que não se trata de uma simples formula mágica. Há muito a ser feito, mas ao contrário do que a maioria diz transformar o caótico panorama da maior cidade do país em algo mais razoável é sim, possível.

Falta de planejamento e as possíveis soluções para o problema

O crescimento das cidades no Brasil se deu de forma completamente desordenada. Com exceção de Brasília, nenhum outro município foi projetado regularmente. São Paulo, por exemplo, teve seu primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado elaborado somente em 1971, durante a administração do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. No entanto, o Plano Diretor Estratégico do município só foi aprovado trinta e um anos depois, durante o governo de Marta Suplicy. Desse modo, é fácil perceber que o planejamento nunca foi um item muito relevante para os administradores públicos. “O planejamento das cidades no Brasil é muito recente. Foi só a partir da criação do Ministério das Cidades, em 2003, que se começou a pensar e a se discutir sobre mobilidade no Brasil. E foi somente com a melhora na situação econômica do país que o governo federal passou a disponibilizar de verbas para o setor”, explica Isabel Lins, Subsecretária Nacional de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades.

Uma das medidas adotadas pelo Ministério das Cidades no auxílio dos projetos de mobilidade é o programa “Grandes Cidades”, que disponibilizou 22 bilhões de reais para serem investidos na melhoria dos transportes públicos de regiões metropolitanas com mais de 700 mil habitantes.

Também foi criada a Lei Federal de Mobilidade Urbana, sancionada pela presidente Dilma Rousseff em janeiro de 2012, cuja função é “melhorar a acessibilidade e a mobilidade de pessoas e cargas nos municípios e integrar os diferentes modos de transporte”. De acordo com Isabel, a criação de uma lei fez-se necessária justamente pelos aspectos culturais do país: “como a nossa cultura está por fazer, a lei ajudará na construção de diferentes hábitos e costumes, além de dar respaldo ao gestor público”. A subsecretária ainda garante não ser utópica a ideia de que o Brasil conseguirá construir cidades voltadas para o bem-estar das pessoas: “é claro que isso não será possível a curto prazo por uma série de fatores históricos. Mas estamos unindo todas as ferramentas para que isso seja possível daqui a alguns anos”, afirma.

Investimentos em passeios públicos

Na contramão das ideias do Ministério das Cidades, está a visão do promotor de Habitação e Urbanismo do Ministério Público de São Paulo, Maurício Lopes. Segundo ele, de nada adianta incentivos como esses se a política econômica nacional ainda privilegia a indústria automobilística. “Nós temos uma lei boa, mas muitas que conspiram ao contrário. As práticas administrativas são ainda piores. O automóvel é um assassino de cidades. Se nós não olharmos para ele dessa maneira não há cidade que se salve”, assegura.

Para o promotor, a cidade tem que buscar soluções que motivem as pessoas a abandonar o carro em casa como, por exemplo, o investimento em calçadas. “O problema do Brasil é que aqui priorizamos o conforto do automóvel e não do pedestre. É necessário dar uma situação de conforto, identidade e bem estar aos passeios públicos. As calçadas deveriam ser um problema do município e não dos munícipes. Devemos dar condições para que as pessoas que desejam se locomover de modo sustentável o façam de forma segura. Um automóvel a mais na garagem significa um acréscimo de saúde para o indivíduo e para a cidade que se livra do monóxido de carbono. Espera-se que as pessoas cada vez mais ocupem os espaços urbanos para criar uma cidade mais humana”, comenta.

Lopes também chama atenção para uma lei municipal que obriga os shoppings paulistanos a construírem determinado número de vagas de estacionamento. Segundo ele, o novo empreendimento na Avenida Paulista terá 3.000 vagas para carros. “Na Paulista nós temos duas estações de metrô e diversas linhas de ônibus. Então não há a menor necessidade disso. Eu tenho contato com os empreendedores desse shopping e estou tentando convencê-los, dentro dos termos da administração pública, a livrar o shopping dessa lei absurda. Talvez não caia bem para o gosto do paulistano que tem a ideia fixa de que o automóvel é essencial para se locomover”, explica.

A difusão do uso da bicicleta

O arquiteto, urbanista e ciclista militante Alexandre Delijaicov assume uma posição bastante radical sobre o tema. “É uma burrice sem tamanho querer resolver o problema do automóvel do modo como temos feito até então. O melhor jeito de fazer isso é trabalhar com o conceito de percurso em contraposição ao fluxo. É colocar semáforo a cada 100 metros para que o pedestre tenha tempo suficiente para atravessar. O espaço público deve ser constituído exclusivamente por pedestres e ciclistas. Nós não precisamos dos automóveis”.

Em sua opinião, está nas mãos da sociedade e do poder público reverter esse quadro. “Podemos construir um urbanismo com dimensões humanistas, sociais, públicas e coletivas. Eu falo para os meus alunos [Alexandre é professor da FAU/USP] que a única arquitetura que realmente interessa é a das cidades, ou seja, dos espaços públicos”, analisa.

Para ele, a grande aposta são as bicicletas, economicamente acessíveis, não prejudiciais ao meio ambiente e capazes de poupar espaço nas vias e locais de estacionamento urbanos. Delijaicov, que pedala há 16 anos, classifica como “conversa mole” os argumentos usados para defender a ideia de que pedalar em São Paulo é ruim devido ao elevado número de aclives e declives. “É bem melhor pedalar aqui do que em Amsterdam porque não tem vento”, assegura.

No entanto, o uso regular desse tipo de transporte nos municípios brasileiros que mais sofrem com o trânsito ainda é bastante incipiente.  São Paulo possui somente 75 km de vias destinadas ao tráfego exclusivo de bicicletas. Para que se tenha ideia de como esse número é ínfimo, Berlim, capital alemã, possui 650 km de ciclovias.

Mesmo com todas as adversidades, há aqueles que viram na bicicleta um jeito de fugir da rotina e economizar. Rafael Vecchione, 23 anos, considerava normal gastar 45 minutos no trajeto entre seu trabalho e sua casa, um percurso de 4,5 km até passar uma temporada na Europa. “Resolvi experimentar a vida sobre duas rodas ou a pé. Gostei tanto que resolvi vender meu carro. Pagava caro para mantê-lo, vivia estressado e nem percebia direito as coisas que estavam ao meu redor”, avalia.

Melhorando a vida das pessoas

Natália Garcia, jornalista, inspirada pelas ideias do urbanista dinamarquês Jan Gehl, criou o “Cidade para pessoas”, projeto cujo intuito é visitar diferentes cidades ao redor do mundo que sejam exemplos de cidades que acolhem e promovem o bem-estar das pessoas. Natália visitou doze cidades para entender de perto como cada uma delas foi modificada, como foi o processo e quais ideias funcionaram e quais não tendo como objetivo final melhorar a vida dos paulistanos.

Nessa verdadeira jornada, a ideia que mais chamou a atenção de Natália foi a dos parklets, implantada na cidade de San Francisco, nos Estados Unidos. Eles são pequenos espaços voltados a práticas de lazer que funcionam como extensões das calçadas, instalados onde antes costumavam funcionar vagas de estacionamento para carros.

Natália, no entanto, acredita que adotar mudanças radicais na cultura paulistana não será fácil. “Pessoas são, por natureza, seres de hábitos. Mesmo que o transporte coletivo fosse magicamente mais eficiente, bem cuidado e barato, muitas pessoas continuariam usando seus carros, por pura mania”. Ela acredita que o rodízio, o pedágio urbano e outras ações devem ser analisadas e implantadas para que esse hábito seja quebrado de vez. Estudos apontam que, com um pedágio custando cerca de R$ 4, o dinheiro arrecado seria suficiente para criar, em 10 anos, 160 km de linhas de metrô, o que além de gerar melhora no trânsito da cidade, propiciaria a criação de empregos.

Solução mais eficiente

A melhor solução é diminuir o poder que o carro tem como símbolo na sociedade brasileira. Ter um carro na garagem era algo que diferenciava ricos de pobres. Ao contrário da Europa, Ásia e América do Norte, o uso do transporte público no Brasil se vincula à falta de dinheiro. Quem tem carro dificilmente troca o conforto e, sobretudo, a segurança do transporte individual pelo ônibus.

Segundo Delijaicov ,a sociedade tem o poder de reverter essa situação “desde que adquira um estado de consciência individual e coletiva”. É também necessário fomentar o debate público sobre o tema, por meio de informações e exemplos internacionais além de atuar para disseminar uma cultura cidadã, participativa, em benefício da qualidade de vida nas cidades.

Stella Borges

O caos no trânsito de São Paulo

1)   Gostaria de propor uma reportagem temática sobre a questão do trânsito na cidade de São Paulo e entender de que modo ele tem afetado a vida daqueles que todos os dias necessitam se locomover para trabalhar, estudar, etc.

2)  O trânsito na maior cidade do país nunca foi tranquilo. No entanto, houve uma piora bastante considerável nos últimos anos. De tempos em tempos escutamos nos noticiários que a cidade bateu seu recorde de congestionamento. Minha família, por exemplo, gastava cerca de quinze minutos de minha casa até a estação de metrô mais próxima há uns cinco anos atrás. Hoje para chegar até lá gastamos, em média, cinquenta minutos.

3)  Tenho muita curiosidade de saber quais são os reais motivos que levaram ao aumento tão significativo do trânsito na cidade de São Paulo. Foi por causa da redução no IPI dos carros durante a crise de 2008? O padrão de vida do brasileiro aumentou tanto assim para que hoje ele seja capaz de comprar e manter um veículo? O transporte público não é dos mais eficientes. Mas o paulistano deixaria o carro em casa se ele fosse melhor? Quanto tempo por dia perdemos nos congestionamentos?

4)  Por que o trânsito de São Paulo piorou tanto nos últimos anos e o que podemos fazer para melhorá-lo?

5)  As fontes para tratar desse assunto podem ser: Especialistas em mobilidade urbana, órgãos como a CET que está diretamente ligada com o assunto, a Rede Nossa São Paulo e, se possível, a secretaria de transportes a fim de saber o que está sendo feito para desafogar o trânsito e aprimorar os transportes públicos.

6)   Acredito que o que há de especial na reportagem seja o fato de o assunto afetar diretamente todos que vivem em São Paulo. Pelo menos alguma vez na vida todos devem ter se perguntando: “Por que o trânsito daqui é tão ruim?”. No entanto, nem todos vão atrás da resposta. O objetivo da reportagem é justamente sanar essa dúvida.

Tema: Cidades

Viés: Trânsito

Foco: Congestionamentos em São Paulo

Stella Borges