Sonhos e metáforas

Entre feiras e lojas, a determinação de Francisco Farnezi é o ponto central de sua vida

Era sábado, o terceiro dia de um feriado prolongado, quando eu passava pelo bairro do Brás, na zona leste de São Paulo. Apesar de uma grande parte da população paulistana ter viajado, os locais de comércio característicos do bairro estavam movimentados como se estivéssemos na metade da semana. Pessoas passeavam pelas ruas, comprando, e todas as lojas estavam abertas. Os veículos tinham dificuldade para andar e o barulho de falas, gritos e buzinas era constante.

Foi no meio desse caos urbano que, seguindo pela Rua Oriente e entrando em uma pequena vila sem saída à esquerda, me encontrei com Francisco Farnezi, um homem de 47 anos, bastante alto e magro. Ele acenou para mim e me cumprimentou. Logo em seguida, me mostrou o prédio por onde marceneiros entravam e saíam: aquele seria o destino de suas confecções.

“Vamos começar?”, ele me perguntou, e então me guiou até uma pequena casa de tijolos brancos e verdes. Entrou antes de mim, destrancando uma segunda porta na qual, na parte de cima, se via escrito “Jesus é fiel”. Dentro do cômodo, mal se dava para distinguir as paredes: a sala estava abarrotada de calças legging, tecidos e cortes de diferentes cores. Cada um deles cuidadosamente dobrado e embrulhado num saco plástico transparente; estavam empilhados por cor e tamanho.

O caminho era estreito e apertado, motivo pelo qual Francisco me pediu desculpas. Com certa dificuldade, chegamos até a cozinha, onde havia uma pequena mesa cuidadosamente coberta por uma toalha, por cima da qual uma cafeteira ainda quente se encontrava. Após me oferecer café, começamos a conversar.

No tempo das Vacas Magras

Há mais de dez anos, Francisco e sua esposa vieram trabalhar no Brás como caseiros, numa quadra de Futebol Society. Trabalharam lá por oito anos, fazendo a limpeza das quadras, dos banheiros, o encerramento dos jogos e o que mais fosse necessário. Nesse período, uma feira noturna se estabeleceu no bairro.

A Feirinha da Madrugada, como é conhecida, é uma feira que se localiza há mais de dez anos na região do Brás, e onde vendedores expõem seus produtos. Antigamente, a feira ficava na rua. “Os caras que trabalhavam por lá jogavam bola na quadra e a gente pegou muita amizade com eles. A maioria era lojista. E aí falavam: Ô Magrão, vai começar lá a Feirinha da Madrugada,  pega um ponto pra você e pra sua esposa lá”, diz Francisco. “Fica lá, ganha um dinheiro a mais na madrugada até às sete da manhã”.

Apesar da dúvida de que o plano desse certo, foram ele e sua esposa Romilda em uma madrugada, no dia marcado para pegarem pontos. Francisco conseguiu um e sua esposa, outro. Cada um dos pontos tinha mais ou menos dois metros de comprimento. Mas, então, veio a grande pergunta: com o que deveriam trabalhar?

Ambos guarneceram os pontos de panelas, brinquedos, pelúcias, panos de prato, pratos de resina comprados na 25 de Março, lanternas e chaveiros. Mas o que conseguiam vender era pouco e a atividade não rendia muito lucro para a família.

Então, conversando com um dos frequentadores da quadra que, hoje, é um dos seus fornecedores de tecido, Francisco perguntou se o amigo – apelidado de Cabral – não conhecia ninguém que pudesse dar a ele e Romilda uma mercadoria em consignação, para que pudessem expor nos pontos de venda. Cabral então lhe recomendou um conhecido que também frequentava a quadra onde trabalhava. “E, justamente, esse cara era com quem eu mais tinha afinidade, o que mais eu ajudava. Se ele precisava de bola, eu arrumava. Precisava de bomba, eu arrumava; no que ele precisasse a gente tava ali. E por cargas d’água foi justamente o cara que ele me indicou.”

E, sem perder tempo, Francisco lhe explicou suas intenções. “Ele me disse: Magrão, faz o seguinte. Passa na minha loja amanhã, pega dez peças e põe lá pra vender. Se você vender, tudo bem;  se achar que não dá, você me devolve e tá tudo certo.”

No dia seguinte, foi até a loja e lhe foram entregues dez peças de legging. O vendedor pediu para que acertasse tudo depois e que antes observasse o movimento do ponto. Francisco colocou as peças na banca de madrugada e, segundo ele, o primeiro cliente que passou por perto logo perguntou quanto custavam as calças. Após dizer o preço, o cliente pediu cinco delas.

“Caramba, logo no primeiro cliente”, contou Francisco. “Eu até tremia.” Entregou a sacola ao cliente, agradeceu-o e ajeitou as cinco peças restantes em disposição. Outro cliente passou e, novamente, perguntou o preço das calças. Assim que recebeu a resposta, pediu dez. Seu Francisco se desculpou e disse-lhe que só teria cinco naquela noite. “Só cinco? Então tá bom, me dê as cinco.”

Ele voltou até seu amigo e lhe disse que o plano havia dado certo. Aproveitou para comprar mais peças e estabelecer uma rotina: todos os dias ia lá com esse objetivo para depois voltar, de madrugada, ao seu ponto e revender as calças. Isso durou até o dia em que o vendedor o chamou para conversar e explicou-lhe que se comprasse dele lucraria menos do que se comprasse diretamente do fornecedor das calças.

“Ele disse: eu te vendo a cinco (reais) e você revende a sete. Eu vou te apresentar aonde vendem as calças, porque lá você vai comprar por três. Você pode vender por cinco ou continuar vendendo por sete. Se você vender por cinco, vai vender muito. Por sete vai vender menos, mas vai ganhar mais. A gente optou por ganhar menos e vender mais.”

Ele levou Francisco e sua esposa até uma antiga fábrica, a KGB, que hoje se chama K2B, referência no Brasil pelo seu imenso mercado de leggings. “Se o assunto fosse legging”, conta Francisco, “era só KGB”.

No começo, ia de bicicleta buscar na fábrica as encomendas. Muitas vezes vinha carregando presos ao veículo fardos de 300 ou 400 peças por dia. Ele menciona que essa mesma bicicleta serviu para que levasse sua filha, Thais, à escola. Colocava-a sentada na garupa e pedalava até chagar ao colégio. Ela tinha quatro anos quando vieram para o Brás.

Francisco começa, então, a relatar um episódio que aconteceu quando começou a comprar leggings na KGB. O segurança já o conhecia e permitia que ele deixasse a bicicleta por lá. O dono da loja, por outro lado, não sabia que ele era um de seus clientes e reclamava do veículo: “Não quero a bicicleta aqui não, põe pra lá, ele dizia, e eu pensava: bom, estou precisando, deixa eu ficar quieto.” Até que o dono um dia viu a nota fiscal de Francisco, que sempre pagava as compras em dinheiro, e perguntou quem ele era. Eis que o segurança diz: “É ele o dono da bicicleta que o senhor pediu para tirar daqui”. O comportamento do empresário mudou imediatamente. “Pra você ver como é que é, o ser humano é terrível”, diz Francisco, e ri.

Porém, a feirinha da Madrugada começou se tornar um problema para o casal e apenas a revenda estreitou a margem de lucro que seu Francisco e Romilda arrecadavam. A empresa na qual compravam calças ganhava dinheiro com as vendas, mas eles ganhavam “50 centavos na peça. Isso fez com que acabássemos entrando no dinheiro da mercadoria para pagar o aluguel”.

A mercadoria faltou e o casal começou a dever dinheiro. Pediram emprestado, então, cinco mil reais a um conhecido, que os ajudou sem cobrar nada. A generosidade do homem já tinha um destino: “Romilda, esse dinheiro não vai ser pra ninguém: a gente vai pegar esse dinheiro, comprar tecido e começar a fabricar.” Foram atrás de modelagens e costureiras, o que se lentamente se transformou no esqueleto da marca que mantêm até hoje.

“Tecido, antigamente, não era igual hoje, quando você diz: me vê 200 rolos! Era por quilo: três quilos vermelho, três quilos preto.” (E aqui seu Francisco me explica que o tecido esticável era por quilo, e não por metro, como é a medida do tecido reto.)

Por último, o empresário me conta que, antes de tudo isso, ele e Romilda passavam, com seu fusca, no Viaduto Aricanduva e Francisco comentava com sua esposa: “Se a gente tivesse um produto que, de cada dez pessoas aqui, uma usasse, nós teríamos uma vida mais tranquila.” Isso, me diz Francisco, era falado enquanto olhavam os prédios e os carros no horizonte.

Então, conseguiram um Box numa das inúmeras galerias que ficam na região do Brás. “Esse foi o nosso tudo”, me conta ele. A empresa foi crescendo e o investimento se tornando cada vez mais constante. Chegou a um ponto onde tanto gostavam dos produtos deles que recebiam ofertas de muitos vendedores de tecidos; desta vez, porém, Francisco já podia negá-los.

Planeta Luz

Quando foram escolher o nome da empresa, Francisco, Romilda e sua filha, Thais, se reuniram e cada um pensou em um nome, mas nenhum falou qual havia escolhido.  Cada um deles deu uma nota para os três nomes e o que vencesse seria o que mais somasse pontuação. O ganhador foi Planeta Luz, o nome de escolha de Thais. Hoje em dia, essa é uma marca registrada, com a qual será aberta uma loja única e grande.

Os boxes do Planeta Luz são três, todos localizados na região do Brás. Ficam em galerias, no meio de vários outros boxes, e suas mercadorias são dispostas por cor e tamanho. Duas pessoas ficam no local, auxiliando e atendendo os clientes. Logo, os três deixarão de existir e darão lugar a uma única loja que está sendo reformada. É um prédio de quatro andares que fica em frente à pequena casa de tijolos. Por dentro da construção de paredes brancas, a poeira e a cerragem ainda se encontram no chão. No terceiro andar, dois marceneiros constroem duas longas mesas de madeira, que servirão para confeccionar as peças que, mais tarde, serão estocadas nos segundo e primeiro andares. Há também espaço para um elevador, que será instalado no local (pois Francisco precisa se abaixar enquanto desce as escadas, para não esbarrar no teto). Curiosamente, o mesmo terreno onde foi construído o prédio era aonde estava localizada a antiga casa onde Francisco e sua família: um pequeno imóvel que dispunha de sala, quarto, cozinha e banheiro.

“Já tem uma energia nossa, ali, pulsante. Um coração que pulsa. Nada mais certo que aumentar ainda mais. E outra, é uma vila que é fácil para descarregar a mercadoria, para minha costureira levar e trazer o serviço. Já tem vaga de garagem separado para  a gente, coisa que no Brás é ouro. E a gente está com muita fé. É uma continuidade, uma ‘parte dois’ da coisa. E no futuro a gente está pensando até em comprar um terreno nosso; mas isso é futuro, a gente tá pensando em manter isso aqui por pelo menos uns dez anos. São passos muito grandes, então a gente tem de tomar cuidado pra não cair quando der.”

Nesse momento, entra Romilda, que havia acabado de chegar, na pequena sala e me cumprimenta. Sorrindo, pergunta, brincalhona, se Francisco não está falando demais. Me dá mais um abraço e se retira. Assim que sai, Francisco fala sobre a esposa: “Ela é uma guerreira. No começo, nós dois trabalhávamos juntos, 24 horas por dia, fazendo a mesma coisa. É difícil hoje em dia um casal estar tão junto e dar certo.”

Por muitas vezes, os dois iam até a oficina com o carro lotado de mercadorias para deixar os tecidos, pegar o que já estava pronto e voltar para vendê-los na feira. “Nós corríamos todo tipo de perigo, mas Deus sempre esteve conosco.” Aqui se destaca o caráter religioso de Francisco e sua família: “Eu sou um cristão; minha esposa, uma cristã. Eu não pertenço a nenhuma religião, mas acredito em Deus e  tento seguir Seus mandamentos, principalmente aquele: ‘trata o próximo como a ti mesmo’. Se todos cumprissem esse mandamento na íntegra, o mundo seria um lugar muito diferente.” Desde o primeiro dia das vendas, diz Francisco, eles carregam consigo uma frase: “Tudo posso naquele que me fortalece”. Ela está no cartão e até nas notas fiscais da loja.

Outro lema de Francisco é o de que é preciso “ver além da visão”; analisar situações e tentar mudá-las e, com isso, virar referência para as demais pessoas. “Por exemplo, muitos Box na galeria passaram a ser organizados da mesma maneira que os nossos.” A referência passa a ser, também, feita no quesito pessoal.  Francisco não fuma nem bebe, parou há muito tempo. “Beber eu já bebi, mas digamos que eu tenha um lado meio compulsivo. Eu decidi parar porque essa compulsividade estava levando ao alcoolismo, um caminho sem volta. O ignorante não pode ser punido, mas o sábio é punido duas vezes. A gente sabe o que pode e o que não pode”.

Uma breve linha do tempo

Por parte paterna, Francisco é neto de italianos. Sua mãe é neta de índios do Paraná. Ele então pausa e brinca, dizendo que também tem um lado marciano.

Perdeu os pais com sete anos de idade e começou a trabalhar aos doze, por causa de dificuldades financeiras em casa. Sua mãe, interiorana, ficou com três filhos para criar, e por isso ele começou a trabalhar. Francisco diz que a maioria das coisas em que colocava a mão davam certo, em uma primeira instância. Usando uma de suas muitas metáforas, diz que isso era como um fósforo que, quando aceso, solta uma forte luz, mas depois, inevitavelmente, se apaga.

Contou-me sobre sua banda, que tocava músicas principalmente no bairro do Bexiga. Ele tocava o violão. Por ser uma banda, diz Francisco, era comum que nem todos os integrantes entrassem em acordo nas discussões, e o grupo acabou se desmanchando. Quando foi tentar carreira solo, conheceu sua mulher e desistiu da música.

Os hobbies

Ele me conta que havia uma família de músicos perto do bairro em que ele morava, quando criança. Ele nunca havia tocado violão, mas achava que a vibração das “divisões brancas” do instrumento eram o que produzia o som. Quando pediu para tocar o violão, apertou as casas. Nenhum som foi ouvido. Foi então que percebeu que tocar o instrumento era muito mais difícil do que havia imaginado. Mas sua determinação era tanta que, sozinho, aprendeu a tocá-lo. Até hoje, esse é um dos prazeres de Francisco.

Já livros não são seu passatempo predileto. “Acho que tem muita letrinha dentro dos livros, atrapalha. Devia ter mais ilustrações”. Mas o empresário adora filmes, principalmente os de

ação, estratégia, ficção científica e comédia. Sua verdadeira paixão, contudo, é o hipismo. Francisco aprendeu a ter gosto pelo esporte e pelos animais por causa de sua filha Thais, que sempre adorou cavalos. Hoje, a jovem de 19 anos pratica hipismo na Hípica Suzano e, na sala de estar de sua atual moradia, Francisco reserva uma estante espelhada para mostrar todos os muitos troféus e medalhas que Thais ganha nas competições.

Nas aulas, um dos passatempos prediletos de Francisco é filmar a filha andando em seus dois cavalos, Universo e Caitlin. A coleção de gravações é imensa.

Com meu tempo se esgotando, me despeço do empresário e comentamos um pouco mais sobre tudo o que falamos. Uma parte da entrevista, porém, não consegue deixar minha memória. Uma simples conversa:

“Hoje em dia, nós passamos com a Hilux no Viaduto Aricanduva e comentamos: Lembra quando a gente falava sobre as mercadorias? Pois é, hoje, de cada dez mulheres que vemos aqui, cada uma tem duas ou três leggings.”

Perfil – Francisco Farnezi

Francisco Farnezi, de 47 anos, tem uma esposa e uma única filha de 19 anos. Empreendedor, é dono de uma loja de roupas esportivas que se localiza na região do Brás. Aos domingos, viaja com a família para Suzano, cidade em que sua filha frequenta aulas de hipismo.

Escolhi perfilar Francisco porque acho que sua vida vale a pena ser contada. O empresário percorreu um longo caminho até conseguir obter uma loja própria. Passou por dificuldades financeiras e já morou em uma pequena casa dentro de uma quadra esportiva. O que conta, aqui, é o exemplo de superação e persistência que acompanhou Francisco em sua vida.

Este perfil exemplificaria o quanto qualquer pessoa pode ter uma história de vida surpreendente, e o quanto a perseverança pode servir de motivação para o início de mudanças. Meu objetivo, enfim, é conhecer sua história, passando por sua infância até a vida adulta, seus hobbies e suas conquistas.

Quem manda é o público

O mercado de materiais artísticos sem dúvida é vasto. Mas por que alguns materiais parecem ser mais difíceis de serem encontrados que outros?

Madeira, grafite, tinta, carvão. Muitos são os materiais que podem ser usados na criação artística. O mercado brasileiro de materiais para a arte vem crescendo a cada ano, mas nem sempre os produtos criados mantêm-se ativos no mercado. É o caso da Super Polymer Clay Bozzi.

A polymer clay, conhecida como “cerâmica plástica” no Brasil, é uma espécie de argila que pode ser utilizada para diversas finalidades. É bastante usada por animadores na hora da criação de modelos em escultura de personagens, de modo que se possa observar seus vários ângulos. Contudo, seu uso não se resume a isso, podendo ser ela utilizada até mesmo para a criação de bijuterias.

As argilas plásticas existentes hoje no país são, em sua maioria, importadas. As marcas mais famosas incluem a Sculpey, da americana Polyform, e a Fimo, fabricada pela Staedtler, uma companhia alemã. Proveniente do território nacional, temos a massa Bozzi, produzida pela Bozz Emborrachados. Em fevereiro de 2013, o Portal Bozzi exibiu um anúncio onde comunicava o encerramento de suas atividades, devido à falta de demanda da massa. O site exibia a mensagem de que, logo, o portal seria desativado.

A respeito do assunto, Amanda Eskenazi Misan, de 32 anos, empresária da loja Casa do Artista, diz que a polymer clay é mesmo difícil de ser procurada. “Há várias dificuldades em se trabalhar com ela: uma é o mercado, que realmente não tem muita demanda. São artistas específicos que acabam trabalhando com essa massa, e a gente acaba mantendo alguma coisa (na loja) para atender essas pessoas e não deixá-las na mão, porque não tem muita saída.”

Amanda explica que, devido à falta de demanda, houve até mesmo mudança de importadores que traziam a marca Fimo para o Brasil. “Os importadores acabaram mudando de um para outro, porque na verdade não é um mercado muito atrativo aqui no Brasil. Ela (a cerâmica) endurece muito rápido; muitas vezes ela chega aqui já sem a mesma qualidade que tinha antes de vir, então acaba-se tendo muita perda de material. Esse com certeza deve ser um dos motivos.”

A falta de demanda e de instruções para o uso da massa acabam contribuindo para que suas vendas não sejam elevadas, e isso não diz respeito apenas à cerâmica plástica. Diversos artistas, ao tentarem se utilizar de novas técnicas ou materiais para a criação de seus trabalhos, encontram um ou outro obstáculo difícil de ser transposto. É o caso de Laís Sawaia, dona da loja virtual Lasawaia Mosaicos, “A dificuldade maior foi moldar as pequenas peças no formato que eu pretendia. No mosaico, cortamos pastilhas em pequenos ‘cacos’ e para o trabalho ficar mais bonito é preciso a técnica de ‘moldar’ o caco, arredondá-lo.”

Laís conta que começou a trabalhar com mosaicos após sua cunhada ter mostrado a ela uma mesa que havia feito. Depois de aprender as técnicas, Laís e o marido resolveram tentar fazer suas próprias experiências: “Pegamos algumas peças de piso de cerâmica, cortamos em cacos e começamos uma mesa. Pareceu-me mais fácil do que eu imaginava. Porém, o primeiro trabalho com piso de cerâmica foi mais difícil para cortar em cacos e eu me machuquei um pouco, mas valeu muito!”

O mesmo diz Azul Cantú, de 18 anos. O rapaz comenta que começou a desenhar desde pequeno, por influência do pai e da irmã mais velha, que sempre gostaram de deixar linhas no papel: “Eu aprendi a maior parte vendo os outros fazerem, com meu pai sempre colocando sua critica sobre o que eu fazia.”Ainda, sobre seus desenhos, afirma: “Eu não era um bom aluno, então toda teoria pra mim era cansativa e eu não absorvia muito bem, mas quando se tratava de algo que me atraía, eu pegava com certa rapidez.”

Com relação aos materiais que costuma utilizar, Laís diz que usa pastilhas de cerâmica, de vidro, pisos de cerâmica e outros materiais. “Para cortá-los, uso uma ferramenta chamada ‘torquês’, que acho bem cara, porém tem alta durabilidade. Como tudo no mercado, existem as ferramentas mais baratas – mas com menor precisão de corte – e as mais caras, que proporcionam um melhor trabalho.” Laís acredita que as cerâmicas que usa são “razoavelmente fáceis de serem encontradas em lojas de material de construção e em lojas especializadas em artesanato – mas acho que temos muito poucas opções deste tipo de loja numa cidade como São Paulo.”

Já Cantú se encontra em situação diferente. A grafitagem também faz parte de sua rotina; além de desenhar, às vezes passa seu tempo fazendo arte em paredes. Para ele, seus materiais são “apenas as latas de tintas latex. Na verdade, um material bem prático e fácil de encontrar.” Com relação à grafitagem, Cantú diz: “É uma arte que realmente está estourando. A cada dia surge uma nova maneira de se fazer graffiti, de usar uma ferramenta. E ajuda é uma coisa que não falta na internet.”

Laís também acredita que uma pessoa leiga conseguiria obter informação suficiente para começar a desenvolver mosaicos sozinha, desde que tivesse curiosidade e dedicação suficientes. “Hoje em dia, existem muitos sites na internet que ensinam, dão dicas. Também podemos encontrar lojas especializadas para comprar os materiais. Ou seja, existe bastante informação virtual.”

Analisando os produtos utilizados, Laís acredita que os materiais importados têm melhor qualidade que os nacionais. “Com certeza falta trazer material importado – ou produzir aqui mesmo – em termos de cores e texturas. Este mercado de pastilhas e afins não se diversifica e não muda em nada o que já existe, não nos permitindo melhorar ou aprimorar nosso trabalho, ou mesmo criar novidades”, diz Laís. “Sei que no exterior temos outras opções que deveriam chegar aqui.”

Já Cantú tem uma opinião relativamente diferente: para ele, o mercado poderia melhorar, mas já é satisfatório. “Poderiam diminuir o imposto de produtos vindo do exterior. O governo deveria incentivar mais a arte em geral, mas os produtos já tem bastante variedade e boa qualidade. O problema é que só correndo atrás para descobrir esses meios.”

Amanda Misan explica que essas diferenças de preço são causadas, em sua maioria, por causa dos impostos que vêm com os produtos. A empresária dá como exemplo a relação de preços entre as tintas nacionais e importadas. “Das tintas nacionais, as que vendem mais são a Corfix e a Acrilex. As nacionais são bem mais baratas, com preços que variam de três a seis, sete reais, dependendo do tubo”, relata Amanda. “Acho que o mais diferente são as importadas por conta dos impostos da importação. A gente paga de imposto quase 50% do valor da tinta, por isso que dá essa diferença absurda de preço.”

Não obstante, Amanda também comenta que a qualidade dos produtos importados tende a ser superior à dos produtos nacionais: “Uma Golden é uma tinta maravilhosa, que tem qualidade e produtos pra se misturar junto dela que nenhuma (marca) mais tem, no caso da acrílica. A Schmink, que é alemã, é maravilhosa. Ela já é uma tinta cara porque tem uma qualidade muito grande e aí chega aqui importada, dobra (o preço). Então tem qualidade e imposto. Quem compra é quem é profissional, quem trabalha realmente com isso. Não são estudantes.”

Ao relacionar as opiniões e experiências de artistas iniciantes e profissionais, alguns modelos são quebrados. Com relação à facilidade de se encontrar materiais disponíveis e usá-los, Amanda explica: “O mercado tem mudado bastante. Algumas coisas estão deixando de surgir, e temos na loja o que aparece nos cursos. Mangá, HQ, são coisas que a gente teve que começar a preencher com material, porque existe um mercado que requisita bastante. Então aumentaram muito as canetas nanquim e esses materiais mais específicos.” A empresária ainda diz que “outras coisas acabam tendo menos demanda:  material de caligrafia, por exemplo, ainda existe, mas é uma coisa cada vez menos público consome. A gente ainda trabalha com esse material, mas acho que a tendência é sumir um pouco. Acho que no futuro a gente vai entrar com os materiais que são dos cursos novos que estão aparecendo.

Dessa forma, Amanda conclui que, na realidade, a ausência ou constância de materiais, a facilidade de se encontrar instruções sobre eles ou não, não é algo aleatório: “Acompanha os cursos e acompanha o mercado.”

A dificuldade no início de novos projetos artísticos

 Tema: Arte

 Viés: Pequenos artistas/ artistas iniciantes.

 Foco: A dificuldade em iniciar novos projetos individualmente.

1)      Quero propor a seguinte reportagem temática: O artista iniciante encontra tudo o que é preciso para criar aquilo que tem vontade?

2)      Estou propondo essa pauta com base na minha própria experiência artística. Faço desenhos por hobby e, recentemente, quis começar a trabalhar com esculturas. Contudo, percebi que os textos públicos relacionados ao assunto são escassos e não detalham bem as informações para iniciantes. Alguns materiais também são difíceis de se achar.

3)      Tenho curiosidade em saber se outras pessoas já sentiram as mesmas dificuldades: a de quererem se aventurar em outros meios artísticos e não encontrarem guia ou direção suficientes para suprir suas dúvidas. Além disso, saber se os materiais necessários para uma obra são difíceis de serem achados, ou então muito caros.

4)      A pergunta que eu faria para começar seria: “Você já teve dificuldade em começar novos projetos artísticos sozinho?”

5)      Creio que as fontes variam: desde artistas iniciantes até donos de lojas que vendem materiais para artesanato. Os vendedores poderiam responder questões sobre demanda e preços, e até sobre o mercado nacional de produtos relacionados às artes plásticas.

6)      Acho que o que há de especial na reportagem é que ela aprofundaria a visão sobre o mercado nacional de produtos/guias artísticos. Ela responderia questões a respeito da escassez (ou não) de produtos e o porquê o preço de alguns materiais importados ser tão alto (seria por causa de uma qualidade distinta ou apenas os impostos normais? Ambos, talvez?).

Thaís Helena Reis