“Uma caipira metida a viver na cidade grande”

Era uma terça-feira, dois de outubro de 1968. Na Rua Maria Antônia, centro de São Paulo, as aulas corriam normal na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (Universidade de São Paulo), até o momento em que pedras começaram a estilhaçar as janelas. Era o CCC, Comando de Caça aos Comunistas. Naquele momento uma guerra entre a esquerda e a direita começava, e fugindo dela estava Maria Ivoneti Busnardo Ramadan. “Como eu poderia esquecer essas coisas, que fazem parte da minha história e do país?”, comenta a professora de língua portuguesa.

Guiada pelo sonho de estudar na melhor universidade de São Paulo, Ivoneti, ou como ela assina, Ivy (apelido dado por uma amiga há mais de vinte anos), saiu de Pindorama, uma pequena cidade do noroeste paulista, no dia 13 de dezembro de 1965 em direção à capital. Lembra-se da data porque é dia de Santa Luzia, protetora dos olhos, e nesse dia sua mãe sempre falava para ela e seus três irmãos lavarem bem os olhos, e cantava versinhos como “Santa Luzia passou por aqui, com seu cavalinho comendo capim”. O motivo? Ela tinha contraído tracoma, uma doença oftalmológica contagiosa, e receava que acontecesse o mesmo com os filhos.

Identificando-se como “uma caipira metida a viver na cidade grande”, morou primeiro em dois pensionatos próximos à faculdade. Com o tempo, porém, foi ficando independente e quis sair de lá. Então, mudou-se com uma amiga para um apartamento na Rua Doutor Vila Nova, afinal, “eu não vim aqui para São Paulo só para estudar. Eu vim para me divertir, aproveitar bastante o buchicho da Rua Maria Antônia”, confessa com uma risada contida.

Parafraseando uma frase de Guimarães Rosa – “eu saí de Minas mas Minas não saiu de mim” -, Ivonete afirma que, por mais que sua cidade natal seja um cenário estranho para ela, “eu ainda estou lá e Pindorama ainda está junto comigo”. Lá, pertencia a um grupo de estudantes que promoviam eventos culturais, o MUP (Movimento Universitário de Pindorama). Todos tinham um pendor para a esquerda, incluindo estudantes de engenharia, medicina, cursos de humanas e outros. Eles organizavam semanas culturais nos períodos de férias escolares, janeiro e julho, as quais sempre acabavam, “como vocês dizem hoje, em uma balada, mas uma balada muito sã. Eram bailes, com brincadeiras dançantes. Se dançava bastante também, se divertia muito”.

Era simpatizante dos movimentos de esquerda, mas não militante. Em São Paulo, as pessoas se afastavam do centro para poder discutir as questões políticas, e os locais onde elas se reuniam eram chamados de aparelhos. Havia um no Sumaré, do qual participou algumas vezes.

Escolheu Letras porque, dentre os tradicionais cursos oferecidos na época, esse era o que mais lhe chamava atenção. Outro fator que pesou na decisão foi a influência de uma professora que lhe deu aulas de português dos 11 aos 14 anos, com a qual mantém contato até hoje. Recorda-se de uma vez em que Dona Sílvia colocou os alunos em um trem com destino a Araraquara, cidade próxima a Pindorama, para ver a conferência de um professor português sobre Almeida Garret. “São eventos que vão marcando você. Você vai acumulando os prazeres ou desprazeres que esses eventos vão proporcionando, e lá na frente opta por uma coisa ou por outra”.

Questionada se hoje faria algum curso diferente, visto a variedade de opções que é oferecida, dá uma resposta inusitada: seria patinadora no gelo. Ao descobrir o corpo na yoga viu quão maravilhoso ele é, e gostaria de juntar as lições deste com as lições da arte. “O que aquelas meninas fazem é demais. Elas voam”. Em seguida, cita as quatro fases da borboleta e diz que está chegando na última, quase voando.

Já no quarto ano de faculdade começou a dar aulas. Não de português, mas de francês, para as turmas da noite de uma escola pública na Mooca. Lembra com orgulho daquela época, em que o ensino público era de excelente qualidade. “Todo dia a gente lê no jornal sobre as mazelas da educação. Eu falo isso com uma pontada no coração. Como é que esse estado de São Paulo permitiu que um dos ensinos públicos mais sérios do país fosse aos poucos se esfacelando?”, declara com um tom de indignação.

Trabalhou 25 anos na escola pública. Hoje, ministra aulas de Língua Portuguesa na Faculdade Cásper Líbero para os alunos do primeiro ano de jornalismo, no período diurno, com os quais nutre uma relação complicada – mas não de sua parte. Ao assistir uma de suas aulas tive a sensação de “já vi esse filme antes”, tanto da parte dos alunos quanto da sua. Saí com o pensamento de que as coisas se repetem, como em um ciclo. Assim como em meu ano, tinham os alunos interessados que não tiravam os olhos dela e aqueles que não tiravam os olhos dos celulares. O silêncio era exceção em meio às conversas paralelas constantes. Falando sobre textos descritivos, Ivoneti repete exemplos e expressões que usou em meu ano, cita diversos autores e obras, mantém uma linha de raciocínio constante, mas não linear. Talvez esse seja o motivo para a falta de atenção de muitos alunos.

Ayelen Cerda, ex-aluna de Ivy, não a entendia direito no começo. Achava que ela queria passar algo muito especial para os alunos mas não conseguia, confundindo-se no próprio discurso às vezes. “Com o tempo eu fui entendendo que ela não era uma professora que trabalhava matéria, ela trabalhava uma construção de ideias, com o pensamento do aluno, talvez uma coisa que muitos iam perceber só em alguns anos”. Lembra de um episódio em que chegou na sala e a professora estava sozinha, com um diário comprado em Havana, fazendo anotações sobre o contato das pessoas com Deus. Ela parou Ayelen e mais duas meninas para pegar seus relatos sobre o assunto, e então começaram a discutir questões sobre Deus em relação à politica, sobre Cuba. Desde aquele dia, sempre que se encontram Ivoneti a cumprimenta, pergunta como está e elas conversam. “Ela é muito humana. É uma figura muito diferente, realmente uma sonhadora, e eu admiro isso nela”. Para Ayelen, ela se envolve com o aluno de uma forma humana, não se limitando à relação mestre-aluno. “Ela expande isso para um dialogo mais direto, mais humano. Ela é uma pessoa especial”. E completa: “Ela é uma professora que chegará a inspirar os alunos que entenderem sua viagem”.

Ivoneti fica em dúvida se essa viagem é um defeito ou uma virtude, mas sabe que não vai mudar, e não quer. “Eu tenho uma certa má fama de gostar de devanear, de coisas abstratas, ideais abstratas”. No almoço daquele sábado isso tinha sido discutido entre os familiares, criticado inclusive. Sua irmã, Alba Busnardo, leva um tempo até encontrar um defeito que lhe caracterize, mas conclui: “Às vezes um pouco desligada, desatenta”. A sobrinha Érica confirma: “Às vezes a gente conversa com ela e parece que ela está em outro mundo”. E se alguém achar que ela se incomoda com isso está errado, pois ao falar do assunto é um suspiro sonhador que encerra a frase. “Eu entro numa elucubração com as coisas que eu leio. Eu acho tão maravilhoso eu poder me distanciar do mundo e ficar pensando”.

Não sabe justificar essa propensão aos devaneios, mas acredita ser pela forma como foi criada. Quando nasceu, seus pais eram mais velhos e seus irmãos já eram grandes, e naquela época não existia Jardim de Infância em Pindorama. Com isso, não desenvolveu o convívio com outras crianças, tornando-se ensimesmada, voltada para si própria, fechada. Célia Teitelbaun, uma amiga de longa data, confessa que a única queixa sobre Ivoneti é o fato dela não contar suas intimidades. Ela reconhece que não tem jeito para contar algumas coisas, mas defende que já melhorou. Recorda-se das palavras da mãe contando que, para costurar, colocava-a sentada ao seu lado e ela ficava quietinha, olhando o entorno.

Sua mãe não sabia ler nem escrever, mal assinava o nome, mas foi ela quem colocou o primeiro livro em suas mãos, “O gato de botas”. Já o pai sabia ler e escrever sem nunca frequentar uma escola, aprendeu na casa de um professor. Reconhecendo a importância da leitura, ele nunca deixou de comprar aqueles livros vendidos de porta em porta, como enciclopédias, Alelo Universal, Barsa, e a coleção completa de Monteiro Lobato. Fazia questão de tê-los em casa. “Sou filha de desletrados, mas posso dizer que foram eles que me colocaram no caminho das letras”, conclui Ivoneti com gratidão. “Essas coisas são simples na vida de cada um, mas são marcantes”.

Além da linguagem das palavras a professora tem aprendido a linguagem do corpo, e para isso faz yoga e alongamento. “Eu aprendi muito sobre mim mesma olhando para o meu corpo, vendo as limitações dele. Lendo as emoções que tomavam conta de mim quando eu não conseguia fazer um exercício ou outro, os pensamentos que tomavam conta da minha cabeça quando eu estava lá entre as pessoas”. A seu ver, o corpo é uma excelente ferramenta para conhecer as lacunas e falhas inerentes a todos nós. “Todos somos limitados, mas você pode adotar um lema, que está muito bem encerrado na frase ‘ainda não consigo’. Ainda não consigo, mas pode ser que eu consiga”. Mesmo gostando de filosofia, acredita que não é com ela que aprendemos certas coisas. “Certas coisas é só na carne da vida mesmo, na concretude das coisas”.
Em um momento da nossa conversa, Ivonete levanta do sofá, estica as mãos para cima como se fosse alongar e, aos poucos, vai descendo até tocá-las no chão, sem dobrar o joelho. Para ela, fazer esse movimento sem dificuldade é uma vitória. “A verdadeira competição é aquela que você faz com seus próprios limites”, elucida. Além de alongar o corpo, sonha também em alongar a mente, a visão de mundo e a espiritualidade. “São coisas que não se separam, e hoje nós estamos separando, compartimentando tudo. Uma hora a alma e o corpo se encontram, e ai é plenitude”. Se conseguir isso antes desse encontro chegar, afirma que morrerá feliz. “Sou metida, sou ousada. Eu quero me alongar para chegar longe, naquilo que eu acho que seria o ideal de vida para mim.”

Pedindo para que eu não confundisse espiritualidade com religiosidade, salienta que faz da religião um reduto, uma fortaleza. É católica desde sempre, mas não praticante. Gosta muito de uma cerimônia chamada “Renovação da Água e do Fogo”, realizada no Sábado de Aleluia, porém não participa todos os anos. Vê as religiões como o exercício de um ritual, “como se você estivesse lá naquele momento para agradecer todas as benécies da vida”, desde o sol que brilha lá fora até um encontro como o que tivemos naquele dia, julgando-o muito prazeroso. “Pequenas fagulhas do divino que permeiam a nossa vida, e a gente tem que ter sensibilidade para percebê-las”. Para não deixar de citar um autor, fala de Olgária Matos e seu conceito de acosmia, o qual define uma dificuldade em entender que lá na frente todos são iguais. “É a perda desse paradigma que cria os preconceitos, as intolerâncias, sejam de religião, de raça”, constata a sonhadora com um certo tom de desilusão.

Desilusão com um mundo que ainda não conseguiu colocar todos em um mesmo patamar, seja de progresso, cultura ou espiritualidade. Um mundo em que acreditar no ser humano “é uma coisa bobinha, irrelevante”, e demonstrar sentimentos “é quase um tostão furado”. Um mundo em que o que vale é ser “winner”, vencedor.

Enxergando uma falência de valores nos dias atuais, acredita que o único caminho para estancar a violência que nos é inerente é o afeto. “O homem é um ser de ternura, e deveríamos nascer com essa propensão pros afetos. Um se deixar afetar pelo outro, pela humanidade do outro”.

Apesar de pertencer a uma elite de São Paulo, Ivoneti não é materialista, qualidade ressaltada pela amiga Célia. Defende que não é necessário muito para se viver. Chega até a comentar que, se quisesse comprar uma bolsa Prada com o salário da Cásper, poderia fazer uns ajustes no orçamento para adquirir este objeto de luxo, mas que não seria mais feliz por isso. Quando, em 2011, surgiram denúncias de exploração do trabalho na produção de roupas da Zara, ela foi até uma loja, pediu para que chamassem a gerente e lhe disse que nunca mais compraria roupas daquela marca. E de fato, nunca mais comprou. “Essas pequenas ações políticas atenuam um pouco a minha dor, a minha ansiedade, a minha culpa de não atuar mais para um mundo mais justo”, destaca, com uma sensatez pouco comum entre os mais velhos.

Ainda nesse contexto de transformação, crê que apenas as mulheres podem consertar o mundo. Mas não é competindo com os homens nem sendo feministas radicais (“com as quais eu não me dou bem de jeito nenhum”), é explorando essa “característica maravilhosa do feminino que é a de agregar, unir, tecer laços”. Julga ser uma pessoa agregadora, e ela realmente é. Soube de um caso em que ela ligou para o celular de um aluno só para saber se ele e a namorada tinham se resolvido. Em outro, ao ver uma aluna chorar por um término de namoro, foi até ela e perguntou o que estava acontecendo, conversou, aconselhou. Coisas de amigo, coisas de Ivoneti.

Uma característica que lhe representa é sensibilidade. Wellington Andrade, seu colega de trabalho e de profissão, concorda: “Quando você conhece a Ivonete percebe o quão adorável ela é, quão inteligente ela é, quão sensível ela é”. Isso aconteceu em 1997, mas não houve uma identificação imediata. Ela era mais velha, fechada, sofisticada no gesto, refinada na forma de se vestir e falar. Ele, contracultura, convivia com pessoas mais alternativas. Apesar das diferenças, porém, o gosto pela literatura os aproximou. Hoje, se diz encantado por essa grande figura.

Mesmo com uma aparência frágil, Ivoneti afirma gostar de viver perigosamente. Morando na rua mais perigosa de Higienópolis, adora andar pelo bairro à noite durante o outono e o inverno. Sente prazer em passar e sentir a fragrância da Dama da Noite, uma espécie de flor que exala um delicado perfume enquanto a lua enfeita o céu. “Os pequenos prazeres da vida é que dão sentido a ela”. Além disso, gostaria de viver junto a uma comunidade que não a sua. Por exemplo, 15 dias, um mês, no fundo do Amazonas, ou em um campo de refugiados da Palestina. Planos incomuns para uma senhora que se auto-intitula sexagenária, anciã, idosa, mas que de forma alguma revela sua idade exata.

Mãe de três filhos – Tomás, Lucas e Taís –, mostra-me uma pequena escultura de ferro que está exposta no aparador em frente à porta, presente de Dia das Mães. Nela, a progenitora dança com os três filhos em forma de ciranda. Uma peça delicada e simbólica, que recebe olhares de ternura de Ivoneti, que a manuseia com cuidado. Após explicar seu significado, conclui: “Dançar é uma forma de agregar. Você dança, e dançando você encontra Deus”. Separada, mantém uma boa relação com o ex-marido: “Como eu posso ser inimiga dos pais dos meus filhos? Jamais”.

Com 1,64m, queria ter três centímetros a mais. Seus 57 quilos não são problema, pois os informa com naturalidade e sem tripudiar. A única parte de seu corpo que mudaria é o nariz, gostaria que fosse menor. Filha de pais brasileiros filhos de italianos, tem nos olhos a marca da descendência: um azul tão claro quanto as águas de Fernando de Noronha, quase translúcido. Contrastando com a delicadeza destes, seus cabelos carregam um tom forte e escuro de vermelho. O conjunto logo diz quem é Ivoneti, Ivy ou até mesmo Capitivy (Capitu + Ivy, pois adora esse mistério de Machado de Assis): uma mulher sensível mas forte, sonhadora que se fecha em seus próprios sonhos para não ser incomodada. Se fosse para compará-la com algo seria com uma obra literária mal compreendida: sua essência é única e vanguardista, mas poucos conseguem captá-la.

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Perfil – Valmir Salaro

Aos domingos à noite, quando estava assistindo ao Fantástico com a família, sua voz e seu rosto me eram conhecidos, diferentemente de seu nome. O que interessava era saber as novidades sobre determinado caso policial; talvez uma notícia ainda mais polêmica. A velha curiosidade sádica humana.
Cresci, passei na faculdade, mudei de cidade, comecei a estagiar e, consequentemente, o clássico programa das noites de domingo ficou para trás. Já não havia mais tempo e interesse para isso. Concomitantemente, aquele conhecido rosto das reportagens policiais acabou desaparecendo da minha mente. Até que, em um recente debate promovido na Cásper, eis que ele aparece como um dos convidados. Na lista de nomes estava lá, Valmir Salaro.
Jornalista policial do Fantástico há mais de 20 anos, ele se destaca por cobrir intimamente casos importantes do Brasil, como o da Isabella Nardoni, o da Eloá Pimentel e o da Suzane Von Richthofen. Suas reportagens ajudam o público a formar uma opinião, tendo por isso grande responsabilidade. Curiosamente, ele afirma que, se pudesse voltar atrás, faria tudo diferente e não seria repórter policial. Na trajetória, um arrependimento: ter condenado as pessoas erradas no caso da Escola Base, mudando suas vidas para pior.
Por esses e outros motivos é que escolhi fazer o perfil desse jornalista. Apesar de gostar do jornalismo, o que me chama atenção é o discurso arrependido de Salaro sobre sua trajetória policial. Ainda, lidar com os riscos diários da profissão tendo uma família não é tarefa fácil. Com um perfil, portanto, poderei conhecer intimamente a vida daquele que lida com a violência diariamente, saber seus receios, suas formas de agir frente o perigo, seu relacionamento com o mundo fora das câmeras. Apesar de global e conhecido, acredito que poucos realmente conhecem Valmir Salaro.

 

Estagiar(io) vale a pena?

Colocando em pauta um assunto de grande relevância, porém pouco comentado: a realidade do estágio para as empresas e para os estudantes

Estágio é uma palavra que designa fase, etapa. Para um universitário, significa um período de experiências, incertezas e transformações. Diferentemente do desenvolvimento de um inseto, que segue as mesmas leis em qualquer lugar do planeta, esse processo ocorre de formas distintas para os estudantes: basta mudar de empresa para a realidade ser outra. O panorama apresentado aos jovens brasileiros, portanto, é pouco animador e muito instável. Ao mesmo tempo, as corporações encontram dificuldade no recrutamento de novos talentos. Instaura-se, assim, o dualismo do estágio.

Segundo o último Censo MEC/ INEP de 2011, há no Brasil 6.739.689 matriculados no ensino superior. Destes, apenas 740 mil (10,98% do total) são estagiários, como mostra pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Estágios (Abres). Vistos sob um olhar superficial, esses números denotam um cenário alarmante aos universitários. Para analisá-los, porém, é preciso levar em conta alguns dados: 74,2% daqueles que cursam ensino superior o fazem em instituições privadas e 63,5% estudam no período noturno. Isso revela que muitos estudantes precisam trabalhar durante o dia para custear a faculdade, sendo o estágio uma alternativa pouco viável visto o valor da bolsa auxílio, em média 879 reais segundo pesquisa de 2012 do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube). Há ainda aqueles que decidem não estagiar para aproveitar o que a faculdade lhes oferece, como cursos extracurriculares e órgãos laboratoriais e de pesquisa. Sendo assim, o mercado se mostra otimista àqueles que buscam uma oportunidade de estágio.

Para isso, entretanto, não basta estar cursando o ensino superior, é preciso ter características que as empresas valorizam, como proatividade, bom relacionamento interpessoal e responsabilidade. Victor Noda, sócio-fundador da startup brasileira que mais cresceu no ano passado, a Mobly, defende que o estagiário deve ser auto motivado, buscando realizar suas atribuições da melhor forma e apresentando novas ideias. Além disso, ter atenção nas informações que gera é de suma importância: “Muitos, no início, não têm o cuidado necessário em suas análises e nem se preocupa o suficiente em saber a origem ou razão dos resultados que apresenta”, afirma. Dessa forma, passar pela avaliação criteriosa das empresas e ser aprovado requer um bom desempenho do estudante, o que muitas vezes não acontece e resulta em vagas ociosas.

Os contratados

Entre as principais razões para se estagiar estão a necessidade de se colocar os conhecimentos teóricos em prática e o desejo de ter o próprio dinheiro. Foi assim com Luana Lima Teixeira, 21 anos, estudante do quinto semestre da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Quando estava no começo do segundo ano decidiu fazer algo além da faculdade, e em maio começou a estagiar em um escritório de advocacia, bem pequeno. Hoje, faz parte da equipe de estagiários da Ulhôa Canto, Rezende e Guerra Advogados, referência em advocacia empresarial. “Eu adoro o que faço, tenho prazer em chegar ao estágio e ver o trabalho sendo desenvolvido, os processos andando, os novos desafios, os novos aprendizados em temas que nem imaginava”, conta Luana. Apesar das chances serem baixas devido a grande concorrência, ela declara que gostaria de ser efetivada, afinal, antes de seguir para a Magistratura (seu sonho de carreira) são necessários três anos advogando.

Para Lígia Chaves Martines Fernandes, 20 anos, a realidade é um pouco diferente. Cursando o terceiro semestre de direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ela começou seu primeiro estágio há pouco mais de um mês, no escritório Pinheiro Guimarães – Advogados. “Pensei que trabalhar seria uma boa forma de ter uma visão mais prática de como tudo funciona”, afirmou Lígia. “Vivenciar no dia a dia como as coisas acontecem também faz encarar as matérias de outra maneira e até a gostar mais de algumas delas”, completa. Embora tenha pouco tempo de casa, ela diz que já aprendeu muito e que o estágio tem sido importante para seu crescimento, tanto teórico quanto profissional. “Apesar de lidar com assuntos que estou vendo aos poucos na faculdade, os conceitos vão ficando mais claros quando os vejo em sala de aula”, conta. Para ela, efetivação é uma realidade distante, já que está no segundo ano. Seu plano é estagiar em diferentes ramos do Direito, ter um contato mais amplo e conhecer cada área para, futuramente, seguir a que mais lhe chamou atenção.

Se ambas gostam do que fazem e enxergam crescimento aliado ao estágio, com Carolina Di Fiori, 20 anos, é diferente. Também no terceiro semestre, cursa Relações Públicas na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), e estagia na Socicom, Federação Brasileira de Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação. Por o começo do curso ser muito teórico, “ficar só tendo aulas e não ver como é na prática é um pouco cansativo”, explica Carolina sobre por que começou a estagiar. Gostando de algumas funções que desempenha e de outras não, seu desejo é partir para outra empresa: “Acho que, hoje, já consegui absorver quase tudo o que a Socicom tem para me ensinar, por isso logo mais pretendo conseguir outro estágio”, pondera a jovem.

Sobre esse universo, a pesquisa Empresa dos sonhos dos jovens, realizada em 2012 pela Cia. de Talentos em parceria com a Nextview People, traz alguns dados importantes. Contrariando o que muitos gestores acreditam, 41% dos participantes desejam ficar mais de vinte anos em uma empresa que lhes faça felizes, revelando uma busca por um ambiente estável, no qual possam amadurecer e ter uma carreira sólida. Algumas características desses jovens são: mais criteriosos e angustiados; tempo escasso; busca por bem estar e desejo por novos desafios, porém sem competição em excesso. Apesar de o período máximo de um estagiário em uma empresa ser de dois anos, achar uma que lhe dê felicidade e estabilidade é o que ele anseia.

Os contratantes

Economicamente falando, ter estagiários no quadro de funcionários é muito vantajoso para uma empresa: além da remuneração menor são menos impostos a serem pagos. Em contrapartida, eles podem fazer no máximo 30 horas semanais de trabalho e possuem menos experiência profissional. Consequentemente, a produtividade é menor que a de um trabalhador efetivo. Colocando estes pesos em uma balança, será que os estagiários ainda compensam às corporações?

Victor Noda acredita que sim. “Em geral, não são caros para a empresa, por serem jovens e em início de carreira, porém são muito inteligentes, motivados e com vontade de aprender”, observa. “Essa combinação faz com que eles rapidamente tenham um desempenho elevado, que nos permite lhes dar grandes responsabilidades na companhia”, complementa o jovem empresário. Em relação à inovação, Noda afirma que os estagiários são essenciais. Com uma política de que toda nova ideia deve ser testada, tanto os efetivos quanto os trabalhadores universitários podem e devem sugeri-las, para que a empresa esteja sempre melhorando.

Indo contra os gestores que creem que, por ser estagiário, uma pessoa não deve ser encarregada de grandes responsabilidades nem nada que demande pensar, Victor defende que o mais importante é usar a inteligência e a motivação desse profissional da melhor forma possível. “Acredito que é preciso dar ao estagiário, gradualmente, mais e mais responsabilidades, forçar seu limite. Desta forma, ele vai se desenvolver muito mais rápido enquanto a empresa se beneficia do trabalho bem feito”, argumenta, mostrando que ambos saem ganhando.

De acordo com a pesquisa Empresa dos sonhos dos jovens, o que as corporações desejam é orientação para o resultado, comunicação, construção de relacionamento, trabalho em equipe e orientação para o cliente. Sofia Esteves, presidente do grupo DMRH, salienta que nas duas últimas décadas as grandes corporações têm visto o estágio como uma forma de atrair talentos que ainda não saíram da universidade, baseando-se em um modelo de atração e retenção de seus colaboradores.

Tudo ao seu tempo

O momento para começar a estagiar depende de cada pessoa, cada história. Para alguns, ingressar nesse meio o quanto antes é sinônimo de experiência profissional, mais contato com o mundo corporativo e “independência” financeira. Para outros, o estágio é uma necessidade, essencial no custeio da faculdade. Ainda, há quem prorrogue essa realidade para o mais tardar possível, apenas no último semestre do curso, tirando o máximo proveito do que a instituição de ensino oferece.

Luana Teixeira às vezes se questiona se começou cedo demais. Sempre achou que começaria a estagiar no terceiro ano, mas logo no início do segundo já estava empregada, por isso o pensamento de que poderia ter aproveitado mais as oportunidades e cursos que a faculdade oferecem ocasionalmente aparece. Contudo, ela não se arrepende. “Hoje vejo que fiz no tempo certo, no meu tempo. Estou tranquila, no lugar certo, onde deveria estar, mesmo sem saber exatamente como cheguei aqui”, confessa.

Se pudesse escolher, Lígia Fernandes também não faria diferente. Nos corredores da faculdade, sempre via pessoas bem vestidas e achava aquela realidade muito distante, desacreditando de sua capacidade de chegar lá. Em algumas tardes, quando tinha tempo para cochilar ou sair com uma amiga, pesava o fato de que se começasse a trabalhar aquilo não seria mais possível. Hoje, sente falta de momentos como estes, mas acredita que, se quiser ser bem-sucedida, terá que aprender a abrir mão de muita coisa. “Muitas vezes você vai estar doente, com dor de cabeça, de saco cheio ou simplesmente sem vontade de fazer coisa alguma, mas tem de cumprir com suas responsabilidades”, ressalta a estudante. “Isso já é algo que à primeira vista desanima, mas lhe força a crescer e a amadurecer profissionalmente”, conclui.

Victor Noda, que um dia já foi estagiário e julga essa experiência como de grande importância para sua carreira profissional, crê que tudo tem seu momento certo. Para ele, ingressar no mercado de trabalho muito cedo em detrimento da faculdade (estudos, atividades extracurriculares e até eventos sociais) pode ser um erro, mas ter pelo menos um ano de experiência profissional antes de se formar é fundamental. “Isso dará ao estudante muito mais conhecimento de como funciona o mercado de trabalho, o que é esperado dele e, assim, mais condições para encontrar um lugar legal para trabalhar”, finaliza.

Apesar das contradições e incertezas do universo do estágio, passar por ele revela-se essencial ao universitário. Independentemente do momento em que isso ocorra, ter esse contato com o mundo corporativo garante mais segurança ao estudante: ele saberá se aquilo é ou não o que deseja como ofício. Sem contar no amadurecimento que isso lhe proporciona, tanto pessoal quanto profissional, ensinando a ser mais responsável, comprometido e a se relacionar com as pessoas, por mais diferentes que estas sejam.

As empresas anseiam por novos talentos, que ajudarão em sua renovação e em seu sucesso. Os jovens desejam tornar as teorias de sala em práticas palpáveis. Com um estágio correto, no qual empresa e estudante cumprem com seus direitos e deveres, todos saem ganhando. Apostar nessa combinação é o que há.

Estagiar(io) vale a pena?

Foco: A profissão de estagiário.

Tema: Economia/ educação.

Viés: Mercado de trabalho para universitários.

1 – São Paulo é um polo universitário, portanto, abriga muitos estudantes. As empresas, vendo nisso uma grande oportunidade de negócio, oferecem muitas vagas de estágio. Pensando nisso, proponho uma reportagem especial que aborde as vantagens desse cargo para os empregadores e empregados, e o perfil daqueles que o ocupam.

2 – Como estagiário, fico impressionado com o fato de quão vantajoso é para uma empresa ter muitas pessoas nesse cargo – salários relativamente baixos, produtividade semelhante a dos efetivos, entre outros aspectos. Algo que me impressiona também é a postura – imatura, irresponsável – que alguns estagiários assumem frente à responsabilidade. No fim, cria-se um dilema.

3 – Tenho muita curiosidade em saber qual a relação entre empresa e estagiário – a visão de um sobre o outro -, qual o perfil destes jovens trabalhadores e qual o panorama dessa classe no Brasil.

4 – Estagiar(io) vale a pena?

5 – Para responder às minhas perguntas, contarei com a ajuda de economistas, empresários, gestores de RH e os próprios estagiários. Em outras palavras, com aqueles que têm contato direto com a profissão e o profissional.

6 – Esta pauta é especial por abordar um assunto pouco tratado nos meios de comunicação, porém tão presente na vida de milhares de brasileiros. Por mostrar diferentes olhares e perspectivas sobre o cargo de estagiário.