Extraordinariamente simples

Dona Maria faz mais. Encanta com sua simplicidade e demonstra que a vida pode sim, ser muito boa. É a gente quem complica.

Dona Maria é uma mulher importante. Mas sua importância não está em um cargo de alto escalão ou na fama. Está na simplicidade, no grande das pequenas coisas. Ela se sente importante por isso, e tem toda razão para tal. “As coisas simples é que são as melhores. As pessoas se desgastam tanto que nem sentem o gosto das coisas”, diz a pequena senhora de 77 anos.

Ela é o tipo raro de pessoa que gosta de sentar no banquinho, enquanto aprecia o sol secar as roupas do varal. Que faz questão de entregar um bombom ou versículo da Bíblia escrito a mão para a porteira do prédio. Que acha um máximo andar de ônibus por aí, sem ter que se preocupar com o trânsito.

Sobre se sentir importante

De pantufas acolchoadas, calça preta e camiseta cinza, Dona Maria Ferreira Martins abre a porta de sua casa com um sorriso. É mais vibrante do que o colete verde-bandeira de crochê, que ela mesma fez para si. Já abre a porta se desculpando pela demora, justificando que não achava os sapatos. Na maçaneta da porta, uma capa xadrez vermelha. “É para não esfriar a mão das visitas, sabe?”. Não, não sei. Nunca havia pensado nisso antes para falar bem a verdade. O ambiente tem cheiro de vó, e me faz pensar na minha própria avó, que mora há tantos quilômetros de distância.

Ela me guia pela cozinha do apartamento 84 até a sala de estar, onde senta em um sofá enfeitado com toalhinhas brancas de crochê, muito provavelmente originadas das mesmas mãos do colete verde. A mesa de jantar parece não ser usada em sua finalidade original, servindo como local para a grande Bíblia, aberta no livro de Salmos e apoiada em um suporte. Fotografias coloridas e monocromáticas cercam o livro sagrado. Um aparador ao canto exibe mais retratos e um vaso de orquídeas amarelas.

Começo a pensar quando foi a primeira vez que vi dona Maria, mas não me recordo. A única coisa que lembro é que ela também foi uma das primeiras moradoras do prédio em que vivo há 11 anos. “Sua mãe foi a primeira pessoa que falou comigo, sabe? Veio até mim e meu marido na garagem e disse ‘Prazer, sou a Gabriela do apartamento 54. Sejam bem-vindos ao prédio. Se precisarem de qualquer coisa, sou enfermeira.’ Não é todo mundo que oferece ajuda a um casal de idosos. Nunca pedi, você sabe. Mas sou muito grata à gentileza da sua mãe”, disse ela como se adivinhasse meus pensamentos.

E essa gratidão toda não é específica com minha mãe, nem tampouco coisa da idade. Dona Maria é grata ao mundo, e por cada pequeno acontecimento de sua vida. Nascida em Ribeirópolis, no interior de Sergipe, ela é a terceira de sete filhos e a mais velha entre as meninas. Sua responsabilidade era cuidar dos mais novas, mas isso nunca foi visto como fardo: “Ser responsável me fazia sentir importante. Tinha uma irmã mais nova, a Andréia, que arrumava todo dia para a escola. Ela era tão bonita, tinha que ir com a saia pregueada para fazer jus, então eu passava ferro todo dia na roupa dela”.

Outro aspecto daquela vida que lhe dava orgulho era a escola. Gostava de levar muitos livros nos braços, amarrados por um elástico. Pedia às professoras caixas de sabonete que já não usavam, para ela guardar lápis e canetas como um estojo. Aprender também fazia com que sentisse importante, como se pudesse abraçar o mundo com as palavras. Porém, aos 12 anos completou seu período escolar e foi trabalhar. Foi a primeira e única desilusão que ela me confessou. “Eu ouvia o sino da Igreja, que marcava o horário do colégio, e quando os alunos desciam a praça ao meio-dia, meu coração doía de não estar lá”. E não tinha como não ouvir. A cidade, pequeno lugarejo, era composta por duas ruas, e tudo girava em torno da praça e da Igreja.

Foi a única vez em todas as nossas conversas que ela contou sobre uma decepção. As pequenas mãos passavam pela barra do colete e assentavam o vinco da calça, inquieta. Tentei mudar de assunto rápido, perguntando sobre o mindinho torto da mão direita. “Quebrei uma vez, quando caí. Eu caio direto, tropeço sem nem ter no que tropeçar”. De fato, não é raro encontrar Dona Maria com um curativo, ou roxo pelo corpo. Mas isso não a impede: vai ao posto de saúde, supermercado e farmácia. Visita parentes e pega ônibus sem companhia alguma.

Prefere assim, fazer tudo por conta própria, apesar apesar de receber atenção frequente dos parentes após a morte do marido e, um ano depois, do único filho. Roseli, porteira do prédio há um ano e dois meses, já se acostumou recusar visitas. “Ela insiste: ‘Só toca o interfone três vezes. Se eu não responder, diga que devo estar dormindo’.”, diz suspirando. E ela realmente usa essa desculpa. No momento que o telefone tocou e fiz menção de parar a conversa, ela segurou minhas mãos e disse para deixar tocar, que depois ela falava que tinha tirado um cochilo. “Velho pode falar essas coisas, né?”, disse com um sorriso maroto que fazia as rugas comprimirem os olhos escuros.

E assim, com calma e a seu tempo, Dona Maria faz uma coisa de cada vez. “Eu varro a casa, passo roupa. Desmancho uma peça e faço dela outra, além do meu crochê. Esse é meu dia, e ele me basta”. A paciência foi adquirida quando aprendeu a costurar na alfaiataria em que trabalhou, hábito que mantém até hoje. Não se importa de desmanchar e refazer o trabalho quantas vezes for necessário e, após nossa conversa, me levou até o quartinho de empregada, perto da porta de serviço. Lá, ela transformou o local em um pequeno ateliê de costura, onde mantém sua máquina coberta por uma capa de tecido florido.

A beleza de todos nós

No fim de semana, acompanhei-a ao mercado de braços dados. Quem visse na rua, poderia achar que era a minha avó. Quase isso, uma vez que a senhora ao meu lado, estava sempre deixando bilhetes na porta de casa ou conversando no elevador. Ela também pareceu achar algo de familiar naquilo, pois na volta para casa falou que eu parecia sua neta, no jeito como inclinava o rosto ao sorrir. No dia, ela estava com uma camiseta em tons terrosos, com detalhes alaranjados. A calça marrom, combinava com a peça de cima. As orelhas e dedos, vazios de ornamentos. Já o pescoço vinha com duas correntinhas de ouro, com pingentes escondidos por dentro da blusa.

“Sabe, eu já fui bem bonita. E a gente tem que falar assim de si mesmo, tem que se gostar. Então não me importo de dizer que tinha beleza. Deus fez a gente tão perfeito, pra quê negar?”, me pergunta. Ela não ostenta, mas toma o cuidado de manter os cabelos sempre pintados de preto e a roupa asseada.

Na volta, cumprimenta o porteiro com um aceno de mão. Dona Maria prefere entrar pelo portão de serviço, uma vez que o social tem escadas. Quando viu que quem estava na portaria era Roseli, no entanto, deu meia-volta e foi até lá trocar umas palavras. “Bia, como vai você?”, começa puxando assunto. Roseli me contou que ela sempre a chama de Bia, e ela, sem graça de corrigir a senhora, adotou o novo nome. Também fui chamada de Janaína algumas vezes, embora não faça ideia de quem possa ser Janaína. Algumas vezes, ela percebia e trocava o nome por Yasmin.

Terminou o diálogo com um ‘fique com Deus’, e voltamos para seu apartamento. Muito religiosa, Dona Maria espalha pela casa o nome e a palavra de Deus. Além da Bíblia na sala, as poltronas receberam toalhas de mão bordadas com “Jesus” e “Cristo”, cada qual enfeitando um encosto. Ela vai ao centro espírita toda semana e conta que o marido a levava sempre que queria, embora não gostasse de ir junto. Ficava no carro, esperando a esposa sair.

Apesar de diferentes em muitos aspectos além da religiosidade, Dona Maria relembra do marido com muito carinho. “Foi meu amigo, meu companheiro. Esteve comigo em todos os momentos e, mesmo eu não gostando de futebol, sentava ao lado dele para ouvir os jogos no rádio de pilha que ele levava para o quarto. Com o tempo, passei até a entender aquela barulheira toda e perguntar algumas coisas, já que ele gostava tanto do Corinthians”. O companheirismo, era nítido para todos os outros moradores do prédio. “Eles andavam sempre juntos e ele fazia questão de segurar a porta do elevador para ela. Andavam de mãos dadas, sempre conversando. Era bonito de se ver.”, disse Gabriela. Ela, sempre que pode, dá um jeito de tocar na casa de Dona Maria e ver como ela está. Quando fiquei presa no trânsito da cidade e tive que desmarcar a entrevista ela foi lá, falar pessoalmente e levar um pouco de caldo verde.

Dona Maria, agradecida como sempre, devolveu o gesto com uma lata de biscoitos, embalados em um saco de presente. “Eu adoro sacos de presente, adoro colocar fita e fazer um cartão. Tudo é belo, sabe? Ainda mais quando vem com afeto”, conclui.

Inspirando, sem suspirar

Sobre a solidão, e a falta que o marido e filho fazem, fala apenas superficialmente. “Não vou ficar lamentando, prefiro pensar que eles cumpriram sua missão aqui e que foi bom enquanto me acompanharam”, diz sem nem um suspiro. Minha mãe, a Gabriela do 54, lembra a vez em que a família, no hall de entrada do prédio, discutia como contariam para ela que o filho havia falecido de infarto, nem um ano após a perda de seu companheiro: “Imagino que tenha sido um duro golpe, mas nem por isso ela se deixou abater. Continuei encontrando-a no elevador para seus passeios, seguindo em frente”. De tão reservada que é, Roseli foi apenas descobrir os falecimentos por meio do zelador do prédio. “Ela apenas dizia que ia ao cemitério”, conta a porteira que só vai trabalhar no prédio por mais um mês, mas já deu seu telefone para a senhora a qual ficou tão apegada. “Eu não deveria, né? É antiético, mas não tem como. Dona Maria me comove, ela sempre chega com suas palavras simples, mas sábias. Nessas horas eu percebo que o importante não é ela errar meu nome e me chamar de Bia. Não é isso que faz diferença”.

“E você acha isso tudo que eu estou falando importante, para ser motivo de um trabalho?”, perguntou, ao final da visita. Como pode, uma mulher sempre se sentiu importante, que se valorizou os pequenos milagres diários, me questionar tal coisa. Claro que acho. “O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos, Dona Maria. Pelo antônimo da evidência”, digo em resposta, citando a jornalista Eliane Brum. Ela me dá um abraço apertado e me aguarda junto comigo a chegada do elevador.

Perfil: Hiro Kawahara

Pretendo fazer o perfil do ilustrador Hiro Kawahara, mais conhecido pelo seu trabalho nas lâminas de bandeja do McDonald’s. Desde 2005, Hiro cria, ilustra, e diagrama as lâminas, além de trabalhar para diversas empresas e agências publicitárias, especializado em criação e desenvolvimento de personagens e ilustração infanto-juvenil.

Chega a ser difícil acreditar que a primeira opção de Hiro não foi a arte, mas é verdade. Ele quase se formou em Biologia. Porém, aos 21 anos, trocou a carreira de biólogo pelo amor aos desenhos, como ilustrador fixo em uma editora. A história de sua contratação mais parece um enredo de filme B: conseguiu o emprego ao terminar uma ilustração de repolho no banheiro da editora, umedecendo as aquarelas na água da privada.

De lá pra cá, Hiro passou por outros empregos e hoje trabalha como profissional autônomo. Ele ainda lançou livros, como “O Livro dos grandes direitos das crianças”, com Marcelo Lourenço, e “Hiroines”, um livro especialmente dedicado aos desenhos de figuras femininas. Tudo isso sem deixar de arranjar tempo para suas pinturas e desenhos pessoais.

Acredito que Hiro seja uma pessoa interessante para perfilar, pois possui um trabalho bem versátil e histórias muito particulares (como é o caso do fatídico desenho do repolho), que incentivam todos os dias aqueles que desejam perseguir a difícil carreira de ilustrador no país. Gostaria de saber quais são suas maiores inspirações, as dificuldades da profissão de freelancer e sua rotina, para traçar um perfil de um dos mais famosos ilustradores do Brasil. E que, apesar de conhecido no meio, é anônimo para a maior parte das pessoas que se divertem com suas ilustrações enquanto comem um lanche no McDonald’s.

Juventude analógica

Em tom de brincadeira, amantes da fotografia analógica
utilizam
 câmeras de filme como forma de arte experimental

Há quem diga que a fotografia analógica está de volta, mas a verdade é que ela nunca sumiu. Você pode até se perguntar: “Como assim? E as câmeras com milhões de megapixels? Já não passamos da época de rebobinar filmes?”. De fato, a fotografia digital assumiu rapidamente o espaço em que, durante muito tempo, reinou o analógico. Os que já cantavam sua morte ficaram completamente convencidos quando a Kodak pediu concordata, em 2012. Ainda antes, o fechamento da fábrica da Polaroid, em 2008, e o fim de um dos mais famosos filmes no formato 35mm – o Kodachrome –, também eram anúncios  pessimistas.

Esses acontecimentos realmente levam a crer, num primeiro momento, que não há mais espaço para as analógicas. Porém, não se engane: tudo que é velho se torna novo. No meio de uma sociedade digitalizada, há um grupo de pessoas que ainda vê potencial nos filmes. Muitas marcas nunca abandonaram o segmento também, como a Fujifilm e a Ilford, que recentemente anunciou o lançamento de uma câmera pinhole – uma câmera fotográfica sem lente, seguindo os conceitos da câmara escura, mãe da fotografia.

Como pontuou André Côrrea, dono do site Queimando Filme, esse universo analógico é composto de várias tribos, como os nostálgicos – apaixonados por câmeras amadoras antigas, como Polaroid ou Instamatic –, os puristas – que gostam de câmeras e filmes profissionais –, os experimentalistas – capazes de destruir câmeras em busca de algo artesanal e inédito. Por último, temos os praticantes da lomografia, que deram ao analógico um ar lúdico. Com suas câmeras de plástico e imagens saturadas, nadam contra a corrente do Photoshop.

COMO TUDO COMEÇOU

Para entender melhor a lomografia e seu significado atual, é preciso voltar um pouco na história e conhecer suas origens. Tudo começou em 1914, quando surgiu na antiga União Soviética uma fabricante de câmeras fotográficas chamada LOMO – sigla para Leningradskoye Optiko Mechanichesckoye Obyedinenie, que em tradução livre significa União de Óptica Mecânica de Leningrado.

Durante a Guerra Fria, o general Igor Petrowitsch Kornitzky, do Ministério da Indústria e da Defesa Soviética, se encantou por uma câmera fotográfica japonesa. Ela era compacta, resistente e possuía lentes de alta qualidade. E, o mais importante, sua produção era barata: a estrutura era inteiramente de plástico. Ordenou que a LOMO fabricasse réplicas da máquina, de modo que qualquer um pudesse levá-las para onde quer fosse e registrar o modo de vida soviético. Foi aí que nasceu a LOMO Kompact Automat, mais conhecida como LOMO LC-A, a precursora dessa história toda.

Mas foi apenas nos anos 90 que a LOMO LC-A revelou seu potencial. Você pode até achar que foi coisa do destino, se quiser. Dois amigos vienenses estavam de férias na República Checa e compraram uma LC-A para registrar os momentos da viagem. De volta à terra natal, revelaram os filmes e se encantaram pelos efeitos que a câmera produzira. Fotos com cores vibrantes e alto contraste, vinhetas criando bordas escuras nos cantos, desfoques que davam ar de sonho às imagens. A empolgação foi tanta que logo a compacta já era febre entre os jovens da cidade, espalhando a estranha beleza das fotos.

Não demorou para que criassem a Sociedade Lomográfica, com objetivo de disseminar o estilo fotográfico peculiar e impedir o desaparecimento da LC-A, já que a fábrica russa anunciara seu fechamento. A partir daí, os lomógrafos expandiram seus horizontes através da internet e com exposições ao redor do mundo, criando inclusive outros modelos de câmeras.

Hoje, a Sociedade Lomográfica cresceu e, mais do que um grupo de amigos irreverentes, é uma marca de peso, a Lomography. Não vendem apenas câmeras ou filmes, mas experiências fotográficas. A arte da lomografia é justamente o registro do cotidiano, do acaso. “Leve sua câmera onde quer que você vá”. “Não pense”. “Você não precisa saber o que foi capturado no filme”. Essas são algumas das 10 Regras de Ouro da Lomografia. Obviamente, a última regra diz para que nenhuma delas seja levada à sério. Tudo é pautado no imprevisível e deve ser, acima de tudo, divertido. Mais do que estilo de estético, para muitos é um estilo de vida: a experimentação.

“Por mais estranho que pareça, o analógico me deu mais liberdade e imaginação para fotografar, e a Lomography tem sua parte de culpa por isso. Comecei a fotografar com ainda mais vontade, a querer testar diferentes técnicas e filmes, a experimentar. Acredito que as lomos ajudaram a reimpulsionar a onda do filme com seu ar vintage e ao mesmo tempo moderno”, diz Marina Goulart de Faria, de 24 anos. Marina é assistente de fotografia e tem um espaço na internet dedicado para colecionar suas fotografias analógicas. Recentemente, Marina fez um intercâmbio de filmes com uma conhecida de Portugal. As duas gostaram tanto do resultado que já planejam uma segunda troca.

NOSTALGIA?

Por essas e outras, a lomografia tem chamado tanta atenção de jovens, até mesmo aqueles que nunca antes haviam rebobinado um filme na vida. Há uma certa divergência entre o que motiva esses jovens: seria nostalgia de período que nem viveram? Ou a inquietude diante de um mundo que muitas vezes parece ir rápido demais?

Thais Lombardi, de 23 anos, é fotógrafa e defende  o segundo argumento. Apesar de ter nascido e crescido no meio analógico, ela enxerga o sucesso da analógica como “um modo de se posicionar em um mundo que caminha a passos largos para a padronização”. Para ela, os saudosistas existem sim, mas são apenas aqueles que realmente viveram essa época. Ela, que trabalha o dia inteiro com uma câmera no pescoço, se sente realmente livre para fazer o que quiser quando faz suas experiências com a analógica, que leva sempre na bolsa. “É nesta hora que sou eu, sem contratos ou obrigações. A analógica representa liberdade, por mais estranho que isso possa parecer”, diz ela.

A capacidade de se expressar através do imperfeito acaba seduzindo, em meio a um mundo de imagem lavadas e manipuladas. “Com a fotografia digital, acabamos perdendo a surpresa, e sem querer banalizamos um pouco o que é a fotografia. O analógico resgata isso.”, diz Natália Nambara, de 25 anos, uma das responsáveis pelo site Lomogracinha, um dos muitos a respeito do tema.

Muitos integrantes não possuem apenas uma câmera. Não foram poucos que contaram nos dedos das mãos, ou que pararam para pensar sobre a quantidade de máquinas fotográficas que possuem. Aparentemente, esse é um hobby viciante e os apaixonados estão sempre testando novas possibilidades, seja com filmes, compactas ou acessórios. Além disso, não defendem a ideia de ‘guardar filme’ para ocasiões especiais, mas de levá-la sempre que possível para onde for. Você nunca sabe se algo de especial vai acontecer quando sai de casa.

“É como comida: se você quer só comer bem, pode simplesmente ir a um bom restaurante. Mas se você quer a experiência da culinária, vai querer fazer um prato você mesmo, comprar os ingredientes, pesquisar uma receita, ficar na expectativa da comida sair do forno, e degustar o orgulho de comer um prato que é realmente seu.”, diz André.

LABORATÓRIO DE EXPERIÊNCIAS

A própria Lomography faz questão de alimentar a comunidade e atrair novos integrantes, promovendo workshops e eventos regularmente. Além disso, o site oficial disponibiliza um espaço para compartilhamento de fotos e interação. O último evento realizado pela empresa foi o Caterpillar Lomográfico, dia 23 de março: cada participante deveria tirar fotos da pessoa atrás de si e passar a câmera adiante, criando uma espécie de “centopéia fotográfica”. Não importa se você é fotógrafo profissional ou não, se já utilizou alguma câmera de filme ou é a primeira vez: todos estão ali para se divertir. “Foi meu primeiro evento da Lomography, gostei bastante e estou me programando para ir em um workshop agora”, disse a Nanci Yin, animadora digital de 19 anos.

O evento ocorreu em todas as  cidades que possuem uma loja da Lomography: Nova York, Londres, Paris, Berlin, Tókio, e Istambul são apenas algumas filiais. No Brasil, as lojas estão em São Paulo e Rio de Janeiro. No mesmo dia e horário, diversos lomógrafos se reuniram e apontaram as câmeras para quem estava atrás de si. “Sempre organizamos eventos, exposições e workshops. É um reflexo da lomografia: eu, por exemplo, levo uma câmera comigo para todo lugar, faz parte da magia.”, diz Marina Marchesan, 24 anos, gerente da loja e responsável pelo evento.

Gratuito, para participar não era preciso nem ter câmera: a loja emprestou para aqueles que quiseram se aventurar. No final, todos os filmes foram enviados para a matriz, em Viena. Lá, serão revelados e se tornarão um vídeo com todas as fotos ao redor do mundo. O evento terminou com um encontro na própria loja – localizada na Rua Augusta, 2481 –, com um bate-papo descontraído. Nanci, que chegou ao evento tímida e sem companhia, terminou conversando com várias outras pessoas presentes.

E acompanhar a Lomography é apenas um dos caminhos para entrar neste universo. Como é possível perceber, a comunidade lomográfica é o principal motor para o hobby. “Quem não está ativo nos locais onde a comunidade se reúne perde muito”, completa André. Como a graça é fazer as coisas de seu jeito, muitas pessoas vão além dos eventos e projetos oficiais da marca e criam sua própria fonte de informações, como as meninas do Lomogracinha. Lá, Natália e as outras duas integrantes falam da fotografia como um todo, não apenas do universo analógico. O site, que começou tímido, cresceu e hoje é uma das principais fontes sobre o assunto. Para aumentar a interatividade entre os leitores, elas criaram um grupo no Facebook, onde quem quiser pode tirar dúvidas, trocar informações, compartilhar fotos e histórias.

Além delas, o site Queimando Filme, de André Corrêa, é um dos grandes portais para esse universo. A proposta do site é ainda mais ampla: André não queria limitar o projeto a uma tribo ou marca, mas sim um espaço que aconchegante tanto para os mais experientes quanto novatos. Com tutoriais, análises críticas e informações detalhadas, o Queimando Filme é um verdadeiro dossiê da fotografia analógica.

Para ampliar o contato com leitores, o site também conta com uma comunidade no Facebook. Desde o ano passado, em parceria com o Instituto Internacional de Fotografia, criaram o Filmepalooza, uma feira sobre fotografia analógica, totalmente independente da Lomography. Lá ocorre bazares, palestras e exposições de fotografias, de forma bem descontraída,  convidativo para os curiosos.

Além de sites e comunidades, existem projetos específicos de trocas de filmes ou câmeras viajantes. Um deles, chamado Rebobina Filme, funciona de forma coletiva e traz resultados muito inusitados. Funciona de forma bem simples: as pessoas se inscrevem para uma ‘temporada’ e as duplas são sorteadas aleatoriamente. Um dos participantes da dupla compra o filme e fotografa o rolo inteiro, rebobina e envia para outra pessoa, que também vai fotografar nesse rolo “por cima” das imagens já feitas. O resultado são duplas-exposições e um olhar novo na hora de fotografar, uma expectativa ainda maior em ver os resultados.

ENTRE NA BRINCADEIRA TAMBÉM

É importante ressaltar que você não precisa ter uma câmera da Lomography para fotografar no estilo. Embora muitos gostem das dos produtos vendidos, a lomografia em si é mais do que isso: é sobre incorporar os erros nas imagens – os desfoques, as sobreposições, vazamentos de luz, granulações, entre outros – e achar graça nos imprevistos. Você deve sempre esperar pelo inesperado. Marina Marchesan, gerente da Lomography, fala que uma das coisas que mais gosta das analógicas é a surpresa: ela às vezes até se esquece do que tinha no rolo de filme, e acha muito divertido redescobrir o que fotografou.

Um dos produtos vendidos pela marca, por exemplo, são filtros coloridos para o flash das câmeras, que resultam em imagens altamente saturadas, de forma quase psicodélica. Mas você não precisa comprar os filtros: bastam pedaços de papel celofane coloridos para fazer filtros caseiros. “O ruim de fazer coisas muito mirabolantes é na hora de revelação, pois não são todos os laboratórios que fazem direitinho, e aí eles podem danificar o seu filme”, alerta Natália.

Apesar dos primeiros resultados nem sempre satisfazerem (a fotografia analógica pode ser bem temperamental), não desista. O fotógrafo e colaborador do Queimando Filme, Bruno Massao, de 26 anos, dá uma dica aparentemente óbvia, mas valiosa: “Estude fotografia. É a primeira coisa que falo. Muita gente se frustra e acaba desistindo das lomos por conta disso, mas no fundo uma lomo é como outra câmera qualquer: tem abertura, velocidade. Sua imagem vai se basear nisso”.

Em uma sociedade onde a fotografia está constantemente presente, disponível em quase todos os celulares, a fotografia analógica se mantém como uma ilha de resistência, agregando continuamente novos adeptos e provando que o importante é registrar o momento de maneira única, e não com 200 cliques iguais. Unindo técnicas do passado e olhares do presente, a lomografia se tornou uma forma simples e criativa de se expressar. Você pode errar, você deve errar. Só não pode deixar de se divertir. Fica dado o convite.

Resgate da fotografia analógica

1. A proposta é fazer uma reportagem temática que aborde a volta das câmeras analógicas, indo na contramão do mundo digital, e entender quem são os adeptos desse movimento de resgate.

2. A volta das analógicas vai contra a facilidade de disparar milhares de cliques sem pensar direito e resgata o os imprevistos/imperfeitos do processo. O uso dessas câmeras carrega agora a conotação de “fotografia experimental”, e vem interessando cada vez mais pessoas. A  grande prova é o sucesso da Lomography, marca de câmeras de filme com design retrô que acabou crescendo a ponto de se tornar uma comunidade e estilo de fotografar (conhecido como lomografia).  Importante notar também o sucesso de aplicativos como o Instagram, que endossa esse cenário com seus efeitos que simulam efeitos de câmeras analógicas em fotos digitais.

3. Tenho curiosidade em entender de fato como as analógicas ressurgiram. Elas chegaram a algum dia a morrer? Também quero descobrir como como os próprios adeptos enxergam a lomografia, e pretendo ouvir a opinião deles para entender o movimento. Essas pessoas que fazem uso de câmeras analógicas fazem isso por sentirem nostalgia? E quanto aos jovens, que são a grande maioria da comunidade, e nunca haviam rebobinado um filme antes? Pode ser considerado nostalgia sem que eles tenham vivido ou é alguma outra motivação?

4. Se fosse começar por uma pergunta aberta, ela seria: “O que leva as pessoas a trocarem as facilidades da fotografia digital pela analógica?”

5. Além de buscar as origens da Lomografia e entender como ela se disseminou e reforçou a fotografia analógica, pretendo buscar a voz daqueles que estão por trás das lentes. A comunidade abrange desde aqueles motivados pela nostalgia até jovens curiosos, fotógrafos profissionais ou aqueles estão ali por hobbie. Mas a maior parte pode ser considerada jovem, que já cresceu no mundo da fotografia digital e busca o analógico como alternativa. Para entender todo esse movimento, é preciso escutar a voz de quem faz parte dele, descobrir as motivações. Além disso, pretendo entrevistar vendedores e pessoas vinculadas oficialmente a loja da Lomography, na Rua Augusta, e se possível participar de algum evento ou workshop realizado.

6. Acredito que o especial dessa reportagem é perceber como a fotografia analógica sobreviveu e se reinventou. Apesar de sua morte ter sido decretada com o encerramento da produção de filmes pela Kodak e a Polaroid, as analógicas voltaram. Ou talvez nunca tenham deixado de estar aqui, só ganharam mais força nos últimos tempos, nas mãos de uma juventude saturada pela tecnologia e as facilidades do Photoshop, que revalorizou o todo o processo da fotografia e até acha graça nas imperfeições que ela carrega.

Foco: O resgate da fotografia analógica
Tema: Arte
Viés: Fotografia

Yasmin Wilke