Dançando para a vida

Meu relógio marcava 17h27min. Conhecendo ele como eu conheço, eu já sabia que iria se atrasar. Lembro de uma vez ele falar em aula que detestava relógio, que só olhava as horas pelo celular, que vivia sem bateria. Para um professor de dança, que da aula em três academias diferentes e integra dois grupos de Street Dance profissional é algo meio inusitado.

Estar de volta à academia que fiz aula durante quase toda a minha vida para conversar com o meu antigo professor foi um desafio para mim. Sinto falta daquele lugar. Ele transforma as pessoas, esquecemos de todos os nossos problemas e ficamos preocupados apenas com a dança lá dentro. Fica tudo do lado de fora da porta de entrada.

Quando o meu relógio marcou exatamente 17h32min Flip Couto entrou na sala. Com aquele sorriso que há muito tempo eu não via, fez com que eu voltasse automaticamente no tempo. Como ele havia se atrasado para a nossa conversa, esperei ele terminar de dar a sua aula para que finalmente pudéssemos conversar.

A aula se iniciou bastante animada, logo no aquecimento o professor já puxa uma coreografia e faz piadas com os alunos a todo o momento. Ali eu pude perceber o quanto ele era querido por todos daquela sala. Quando fiquei ali durante uma hora e meia assistindo a sua aula, foi quando pude perceber o que fazia dele um cara único, alegre, espontâneo e cheio de vida.

Quando a aula chegou ao fim, sentamos no chão da sala para que pudéssemos conversar e ele contar um pouco de sua vida. “Quando eu era pequeno, costumava ficar na garagem ou trancado no meu quarto com o som ligado no último volume, enquanto isso, eu via os outros meninos na rua jogando futebol”. Flip nunca ligou para o que os outros iriam falar ao seu respeito, mas sempre foi julgado por ser um menino que não gostava de futebol, “as pessoas não entendiam porque eu preferia ficar no meu quarto sozinho dançando, minha mãe chegou até a achar que tivesse algo de errado comigo, na época ela não compreendia esse meu jeito, mas hoje ela é a minha maior fã.”.

Ao atingir oito anos, depois de muita conversa dentro de casa, conseguiu convencer seus pais a lhe matricularem em uma escola de dança. Estudou Street Dance e Jazz durante 10 anos, mas se formou apenas no Street Dance. “Nunca fui muito a favor do diploma na nossa área, acho que quando uma pessoa tem talento e nasceu para a dança, não é um diploma que vai mostrar o quanto a pessoa é capacitada.”.

Hoje Flip da aula em três academias diferentes, é membro fundador do grupo Funk Fanáticos e dançarino no grupo Discípulos do Ritmo e costuma viajar bastante pelo Brasil e também para fora do país para participar em competições de dança, “Não há como descrever a ótima sensação que sinto quando vou para algum estado representar o meu grupo e minha dança, o carinho da galera, os gritos, realmente é coisa de outro mundo, não da para acreditar que cada vez mais conseguimos aumentar o nosso grupo de seguidores”.

A última experiência marcante que teve com a dança foi no último São Paulo Fashion Week, a marca de roupas Cavalera convidou o grupo de Flip, Funk Fanáticos, para participar do desfile inspirado no programa da televisão americano dos anos 1970 “Soul Train”, a marca transformou a passarela num programa onde os modelos viraram dançarinos. “Foi uma experiência completamente nova para todos nós, nunca imaginei que um dia estaria em cima de uma passarela no SPFW, no início eu até comentei com a minha amiga, Ju Ramos, que recebi a ligação do pessoal da Cavalera e ela já achou que iríamos ter que desfilar e já estava pensando em pular fora. Só depois que tivemos a reunião com a marca que eles comentaram que queriam um grupo de dança como o nosso para fazer o fundo no desfile. Na hora olhei pra cara da Ju e comecei a rir, nunca a vi tão aliviada.”

Uma hora já havia se passado, mas eu não percebia o tempo passar. A conversa era boa e leve, fora que a saudade que eu estava do meu professor também colaborava na hora de conversar. Foi quando abriram a porta e eu me surpreendi quando vi a minha outra professora de dança parada na porta, Ju Ramos. O Flip tinha combinado um ensaio com naquele dia e ela chegou mais cedo do que o combinado e juntou-se a nós para contar um pouco sobre o professor.

“Quando eu conheci esse cara, ele era o meu professor, até que teve um dia que ele falou que queria conversar comigo depois da aula, que era pra eu ir com ele comer alguma coisa em algum barzinho ali perto da academia, a primeira coisa que eu pensei foi: “esse cara tá me cantando”, mal sabia eu que ele ia me convidar para integrar o grupo dele.”.

Hoje, Flip Couto fala que no futuro pretende focar apenas nos seus grupos de dança. “Sei que vai chegar uma hora que não vou mais ter pique e muito menos idade para continuar dançando, então, pretendo continuar na área só que na parte de administração e divulgação da nossa dança” e Ju completa: “acho que ele vai se dar muito bem fazendo isso, é sempre ele quem arruma os eventos pro Funk Fanáticos e consegue atingir muita gente com a nossa dança.”

Já era noite e eu havia ocupado todo o seu tempo livre. Flip é um cara que encanta e ilumina qualquer lugar que ele entre seu jeito sempre pra cima e a maneira que ele trata suas alunas, amigos e funcionários de qualquer lugar que ele passe. Com um sorriso no rosto, peguei o ônibus na direção da minha casa, com o pensamento de que aquele final de tarde valeu mais a pena do que o meu dia inteiro.

FERNANDO ALVES: UMA AULA À PARTE

No meu relógio, 19:12. Só me restava acelerar. De metrô, fui da estação Brigadeiro – na Avenida Paulista – para a Santana. Entre uma estação e outra, ansiedade e curiosidade se misturavam com certa preocupação: no rádio, o atraso é inadmissível, será que ele perdoaria o meu? Não que eu fosse apresentar, entrevistar ou entrar no ar. Não se tratava de um compromisso com o rádio, mas com um radialista, o que justificava a minha aflição.

Eram 19:47 quando cheguei na Rua Voluntários da Pátria. O caminho ainda era longo. Experimentei na pele o esforço exigido por uma subida íngreme. O cansaço já era evidente quando às 20:07 cheguei na Unidade Santana do SENAC. Mais três escadarias e enfim eu chegava ao meu destino às 20:09. A aula já havia sido iniciada há 39 minutos. Uma leve batida na porta e um clima de incerteza sobre o que ocorreria. De repente, o abrir da porta é seguido pelo abrir de um sorriso receptivo de Fernando Alves, ou simplesmente Fernandão, seu apelido.

Locutor da Gazeta FM de São Paulo e docente coordenador do Curso de Radialismo daquela unidade, ele estava na sala 32 – estúdio de rádio – preenchida por cerca de 20 alunos distribuídos num “U” em frente às cabines de sonoplastia e locução. Para esta turma, o módulo teórico já havia passado. Era dia de prática de locução. Com seu caderno, Fernando se concentrava ao máximo para anotar as observações mais importantes de cada aluno na realização da atividade.

Basicamente, havia um texto informativo com três notícias de variados temas. A avaliação era feita com base na leitura do texto bem como na capacidade interpretativa destinada a cada conteúdo lido. Entretanto, o desafio se intensificava por haver um tempo exato para que o tudo fosse lido. Então, um de cada vez, os alunos iam à cabine de locução e – sobre a trilha cronometrada – realizavam o exercício. Fernando demonstrava profundo respeito com cada uma das vozes que se propagavam no estúdio.

Os olhos – entre os finos óculos – se fixavam no chão enquanto os ouvidos registravam os detalhes. Ali, sentado, repousava o corpo de pele branca, cabelos pretos e 1,88 m de altura. O rosto alongado se confundia com as longas e velozes mãos que, contra o tempo, disparavam a fazer anotações. Ao término, um feedback preciso com sinceridade desconcertante. Como um maestro, ele abria os braços e iniciava a análise depois do exercício. “Cuidado! Está muito cantado, mais naturalidade”, “Atente para a modulação, é necessário variar mais”, “Repare em seu agudo, ele é muito intenso”, “No seu caso, a respiração precisa ser corrigida, lembre do diafragma”, “Vamos aumentar o ritmo, está muito lento”, “Articule ao máximo, caso contrário vai haver dificuldades para a compreensão”.

E, entre uma crítica e outra, ele tranquilizava a todos: “O começo do módulo prático é mais chato mesmo. A gente tem de se desfazer dos vícios agora. Mexer na zona de conforto de cada um é sempre complicado.” Bruna Moraes, uma de suas alunas, gosta do tom de seriedade com que as aulas dele são dadas “Acho ele muito focado, concentrado. Ele é profissional e exige profissionalismo da gente. Dá pra notar que há todo um planejamento nas aulas, assim como uma meta para a gente alcançar, depende do nosso esforço”.

Isso remete a um dos maiores desafios com que Fernando tem de lidar: a humildade, ou melhor, em alguns casos, a falta dela. “Este ponto não é exclusivo da comunicação, porém a área tem a peculiaridade da constante luta de egos. Ser humilde é, também, ter a possibilidade de se renovar, de considerar outras possibilidades em sua atuação. Pensando no rádio, por exemplo, aquele que deixa de se ouvir ou de acompanhar seu próprio trabalho, tem um fim em si próprio”.

Não é à toa que Fernando dá amplo valor à crítica. “Aqueles que querem se tornar comunicadores, bem como pessoas públicas, têm de estar preparados para lidar com o que se fala a respeito do que apresentam diante dos microfones, câmeras e etc.” Nesse sentido, ele faz questão de colocar todas as suas sugestões sobre a locução de algum aluno na frente de todos os outros, nunca em particular: “Isso não é expor, visto o respeito que tenho por cada um, mas é simular algo normal no dia-a-dia. Vai ser assim no mercado de trabalho e o curso tem a pretensão de simular situações em que o comunicador pode se encontrar. O momento da crítica é crucial”.

E, no caso de Fernando, este momento veio cedo e sem surpresa negativa. Ainda adolescente, estava com um dos maiores comunicadores do país, numa audiência nacional e em frente a uma bancada de jurados rigorosos. Ele participou do “Show de Calouros” com Silvio Santos em 1987, aos 17 anos. “Eu fazia algumas imitações, gostava de brincar com minha voz e fui ao programa junto do meu pai e meu tio. Minhas pernas tremiam, até que depois da minha primeira apresentação, Silvio me tranquilizou. Nos bastidores, ele me disse ‘Rapaz, você é muito bom. Realmente, muito bom’. Aquilo me acalmou para minha segunda apresentação no programa. No final desta última fiz as imitações e passei pelo julgamento da bancada. Todos votaram a meu favor com nota máxima. Estava prestes a receber o troféu “Show de Calouros”, mas Silvio havia esquecido de chamar Décio Piccinini. O resultado? ‘Meu voto é um NÃO só para o Silvio não me esquecer na próxima’. Fazer o quê?(risos)”.

Foi a primeira grande adrenalina vivida na comunicação por Fernando. Mas ele sabia que o humor não era a mais adequada área. “Eu não me achava engraçado. O que eu queria era fazer locução. Por extensão, a voz seria meu instrumento profissional. Passei a olhar com atenção para a arte de locutar”. Mas almejar não basta. Por isso, Fernando treinava e treinava muito, a ponto de isso lhe render fortes amizades.

Exemplo é a que mantém até hoje com Paulo Ramos. Na adolescência, mais do que amigos, eram sonhadores. Quando iam para a Escola Estadual Erasmo Braga, cada passo era pretexto para se conversar sobre rádio, voz e locução. “Lembro que imitávamos os locutores da época. Um prestava a atenção no ‘trabalho’ do outro”. Já em relação ao nível do que apresentavam… “Éramos horríveis (risos)”, confessa Paulo. Nada que o tempo e o treino não melhorassem.

Hoje, são companheiros de vida, de Fundação Cásper Líbero e de SENAC Santana. Paulo é a voz-padrão da TV Gazeta, responsável por narrar todas as propagandas e chamadas pertencentes à emissora e professor do curso de radialismo coordenado por Fernando. “Ele acabou me convidando para trabalhar lá. Quando estou dando aula, tento sempre lembrar da capacidade que o Fernando tem de teorizar a comunicação. Isso me impressiona. Ele é muito inteligente, tem um QI acima da média. Desde cedo foi astuto e rápido no raciocínio. Acho este seu principal diferencial.” Mas Paulo não se esquece de um outro fator capaz de destacá-lo dentro do meio. “Ele simplesmente ajuda. Não ajuda por algo, com alguma intenção ou interesse. Ele analisa o seu esforço, sua humildade e ajuda. É um grande ser humano.”

A paixão de Fernando pela locução começa a se formalizar em 1990, na primeira emissora pela qual passou, a Rádio Cidade de Itu onde comandou um programa romântico das 22 às 24. Por lá, ficou 11 meses. Depois, foi para Campinas trabalhar na rádio Antena 1 e fazer locuções para TV, numa afiliada do SBT. Este período durou dois anos intensos. “Eu sou de São Paulo, minha família também, mas eu ia pra casa a cada 15 dias. O ritmo era frenético, até que eu decidi que tinha de trabalhar na capital. Larguei tudo em Campinas”.

Num casamento entre a esperança e insistência, Fernando bateu de porta em porta nas emissoras de São Paulo, com várias fitas cassetes e gravações de seu trabalho. Foi na Rádio Cidade que conseguiu a sonhada contratação. “Era uma locução corrida, gritada. Fiz um piloto entreguei para o coordenador que gostou do que ouviu.” Mas não foi tão fácil. Semanas depois, Vinícius, com quem tinha conversado, foi demitido e a contratação, colocada em cheque.

Ele teve de aguardar a chegada do novo coordenador, Ênio, e sua decisão final sobre contratá-lo ou não. “De cara ele me perguntou o que eu havia acertado com o Vinícius. Não tive dúvidas e respondi  ‘A primeira coisa que eu acertei foi pedir a conta da rádio em que eu estava, então estou desempregado’. Bobagem! Desempregado eu já estava. Ele confiou em mim e me deu a chance. Meu horário era das 2 às 6 da manhã”.

A sobrecarga de funções, contudo, comprometeu seu caminho na emissora. “Eu era o mais novo da equipe, além do horário que eu fazia, também havia eventos para cobrir, prêmios para entregar. Tudo ficava sob as minhas costas.” A inexperiência e o cansaço o fizeram se precipitar. “Houve um evento importante, eu havia sido escalado e simplesmente não fui. Erro grave. Hoje, sei que foi uma atitude nada profissional. Mas amadureci com aquilo”.

Com a saída conturbada da Rádio Cidade, um mês de descanso. Reflexão e mais experiências. Fernando Alves foi para a Rádio Tropical. Depois para a “Rádio X” no sistema Globo de Rádio. Em 1996, a emissora se transformaria na Rádio CBN, e a locução jornalística seria exigida de Fernando. Neste tempo, porém, também estava na Rádio 99.3, da Record. Ali, Cacá Siqueira lhe dava um conselho “Ele achava que a figura do Locutor Noticiarista estava com os dias contados. Pensei bem nisso, concordei  e fui conversar com o Heródoto Barbeiro, comandante do projeto da rádio CBN. Disse que eu não ficaria”.

É aí que a Gazeta FM entrou na história de Fernando Alves. E entrou para não sair tão cedo: já são 16 anos de emissora – cujo estúdio também serviu de ambiente para as entrevistas. Fernando tem um horário das 14 às 18 horas. A Gazeta opera em 88,1 FM e tem gênero popular, apresentando músicas majoritariamente sertanejas. Entre as músicas, ele abre o microfone, informa o horário, anuncia prêmios, promoções e a participação dos ouvintes e lê alguns factoides. “Eu não me vejo fora daqui. Naturalmente que temos cobranças. Mas tenho um carinho muito grande por todos da equipe  e me sinto a vontade para trabalhar. O ambiente é de muita parceria”. Não só parceria como admiração. Jay Bee, sonoplasta da rádio, aprecia bastante o trabalho e a personalidade de Fernando. “Ele se difere pela competência e pelo esforço. É bom naquilo que faz porque tem disciplina para o que almeja. Mais do que um companheiro de trabalho, um amigo.”

Amigo que Jay Bee ajudou, após ter recebido um convite para dar aula na unidade Penha do SENAC, em 2008. “Eu não podia assumir a turma naquele momento e indiquei o Fernando. Ele começou como professor de lá e hoje, além de lecionar, é docente coordenador do curso da unidade Santana. É mais um exemplo da garra dele. Se ele assumir o desafio, espere o melhor.”

Respirando rádio com a vontade destacada por Jay Bee, de Zé Bétio e Silvio Santos a José Silvério e Éder Luís, sempre analisou tudo o que ouvia. Dessa análise, uma conclusão é certa: “O rádio não morre nunca, jamais. Ele muda tecnicamente, mas na essência não. Rádio é instantaneidade, companheirismo, utilidade pública, imaginação e, ainda mais hoje, é conversa e naturalidade. Não há mais aquela voz impostada e artificial. O rádio se humanizou e nada substitui sua lógica histórica.”

Fernando também tem uma produtora desde 1994, em que aplica sua visão radiofônica na produção de narrações institucionais, videoaulas, entre outros. Como qualquer ser humano, tem sonhos, embora já tenha realizado muitos deles: “Voltar ao interior para comandar um  programa de músicas românticas do passado, agora sem a pressão que tinha quando comecei longe de São Paulo. Ter minha própria escola de radialismo, ou até mesmo uma emissora em que eu poderia aplicar a minha visão de rádio. Enfim, fazer rádio pela paixão, pelo amor ao rádio, como faço há mais de 20 anos, mas com outro foco”.

Fernando também é família. Casado, tem dois filhos aos quais se dedica bastante. Prova disso é a emoção que sente quando ouve um  ‘papai’ de um deles. “É o que mais me agrada”, revela o locutor. Fernando é mais caseiro. Quando tem folga, adora assistir a alguns filmes, jogar videogame, ouvir músicas. E há um detalhe importante: a lasanha, apontada como seu prato predileto.

Nossa! O tempo passou depressa. Já são 22:38, a aula acabou há oito minutos. Os alunos vão embora, Fernando segue na sala 32 onde fechou o raciocínio do dia. Ele ajeita suas coisas, veste uma jaqueta pergunta se esteve tudo bem comigo e se deu certo o trabalho. Não respondi nada. Minha felicidade era tanta que fiz do silêncio a resposta mais positiva.

Ao longo das horas em que pude observá-lo, notei o quanto ele trata os outros como sujeito e não como objeto: a maneira com que atende, olha no olho e considera aqueles que estão ao seu redor. Como pede o manual de uma boa aula, por diversas vezes, Fernando conseguiu quebrar conceitos ou ao menos reconstruí-los. Antes da matéria, eu pensava que um bom comunicador era aquele que tivesse repertório e poder de improviso. Doce ilusão. Conviver um pouco com Fernando é acrescentar a humildade a esta lista. Aula de locução? Não só. Aula de vida, de conduta. E que aula espetacular! Uma aula à parte.

De vendedor de veneno a ecochato

Sentado em uma poltrona feita a partir de garrafas PET, ele ri e exala nostalgia. Dissera que não podia conversar muito comigo, por causa de uma reunião, s[o estaria disponível por “umas horinhas”.

Dentro de sua sala no Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), Mário Kazuchira Fujii demonstra estar satisfeito, e aparenta viver um momento de calmaria em sua vida. Filhos criados, todos graduados ou graduandos no ensino superior; apartamento na zona sul de São Paulo, com uma esposa e dois cães; algum tempo para aproveitar hobbies particulares, como fotografia e culinária.

Quando falei com ele pela primeira vez, me perguntou por que alguém faria um perfil sobre sua vida. Ele mesmo se autodenominara um “Average Joe”, um José da Silva, que no caso é responsável pelo setor de logística da inpEV. Sua função é garantir que embalagens de agrotóxicos (defensivos agrícolas, para alguns) tenham um descarte adequado, impedindo maiores danos ao meio ambiente e à cadeia produtiva. Todas as vezes que foi procurado por algum jornalista, a intenção era abordar este assunto, contribuindo para matérias de canais e veículos voltados para o agronegócio.

Mas, se todo mundo tem uma história para contar, Mário tem várias. Derrubada a barreira que impedia um contato inicial, ele falou por aproximadamente vinte minutos quando perguntei qual o melhor momento da sua infância. Depois disse sem parar por mais dez minutos quando perguntei o que ele considerava mais importante. E após mais diálogos, descobrimentos, risadas, comoções, percebi que a poltrona feita de PET já ouvia nossa conversa há pelo menos duas horas e meia.

A secretária entrou na sala, perguntando se ele estava pronto para a reunião da tarde. Sempre de bom humor, encerrou a conversa de forma polida. “Olha, acho que ele aqui já pode ir no meu lugar. Deve saber mais da minha vida que eu mesmo.”

 

Graças a Elis

Mesmo gastando algumas horas na conversa com Mário Fujii no escritório, não senti o tempo passar. Posteriormente, pude visitá-lo em sua casa, um apartamento no bairro de classe média-alta da Vila Mascote, em São Paulo (SP). Fui recebido pela esposa dele, Angela. “Aqui em casa é isso, uma disputa para ver quem fala mais. Sempre foi assim, desde os tempos de UENP.”

Os dois se conheceram quando Mário cursava  engenharia agrônoma na Universidade Estadual do Norte do Paraná, no campus localizado na gigante Bandeirantes, onde nasceu e que hoje tem pouco mais de 30 mil habitantes. O estudante de então 22 anos estava no último ano de faculdade quando falou pela primeira vez com sua esposa em um show de Elis Regina, na capital paulista.

“Ele não gosta de falar disso, porque se os filhos resolvesse imitar, acho que ele morria do coração”, comenta a mãe da família. “Mas vou falar mesmo assim. Foi uma maluquice inconsequente, mas que deu no que deu hoje.”

Quando Angela começou a contar a história do “japonês gordinho que vendeu a bicicleta para ir ao show”, Mário abriu a porta e entrou na sala. Logo percebeu qual era a pauta, esbravejou de forma bem humorada e tomou o posto de orador.

“Meus pais tinham me dado uma bicicleta de aniversário, para eu me deslocar pela cidade. Uma semana depois, tinha vendido para juntar dinheiro e ir ao show da Elis com um amigo. Pegamos carona em três caminhões até chegar na cidade, com apenas uma troca de roupa e o endereço de um parente dele. No fim, conseguimos ir ao show, e foi lá que encontrei esse ‘trem’ aí.”

Antes do show conversar, eles trocaram olhares, fósforos, conversas e por fim, abraços. Se encontraram novamente em outra ocasião, e após quatro dias se vendo, Mário voltou a Bandeirantes, prometendo fazer a mesma loucura para visitá-la em São Paulo.

Foi e não voltou mais.

“Três meses depois, fui encontrá-la. Mal sabia que ela morava em uma pensão com freiras, e que saía pouco do ‘internato’. Mas que fugia muito.” Sempre rindo, Mário ofereceu o primeiro dos muitos petiscos da noite, e pude descobrir mais sobre aquela fase da sua vida. Cabelo black power, roupas alternativas, estilo bicho grilo pictorizado em um japonês meio gordo, meio baixo, sempre simpático.

 

Cuidado, produto tóxico

No primeiro encontro que tive com Mário, no escritório, ele me contou como chegou àquele estranho posto, um especialista na logística reversa, no descarte de embalagens. Depois de ter trabalhado em multinacionais como Shell, Cyanamid e BASF, ele se especializara no destino ecologicamente correto de embalagens vazias. Naquelas empresas, sempre atuou na área de defensivos agrícolas.

“Sempre me importei com natureza e meio ambiente. Já trabalhei muito com fungicidas, herbicidas, mas hoje só cuido do outro lado dessa cadeia. É uma mudança bem radical. Continuo relacionado aos agrotóxicos, mas participo de forma diferente.”

Hoje, o casal Fujii possui três filhos: Cauê, de 21 anos; Daiune, de 25; e Caioá, de 29. Certa vez, quando o primogênito tinha por volta dos seis anos, perguntou ao pai exatamente o que fazia, para registrar em um trabalho escolar. Mesmo com explicações e exemplos, o garoto mostrou-se convencido com um fragmento disso tudo, um pedaço da resposta de Mário. “Vendedor de veneno. Ele escreveu isso na tarefa, e no mesmo dia a escola ligou, falando para instruir melhor. Eu ri, fazer o quê. Um dia ele ia entender.”

Entendendo ou não, Mário mudou radicalmente de rumo. Após largar a BASF, se uniu a uns amigos e começou a fazer palestras, falando justamente sobre os riscos dos defensivos agrícolas. Em uma dessas ocasiões, surgiu o convite para participar do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias, o inpEV.

Uns 20 anos após aquela pergunta, Mário revela que nem todos entendem bem o que ele faz. “Meu sobrinho me perguntou esses dias o que eu fazia. Já achava difícil explicar o que era agrotóxico para uma criança, imagina logística reversa? No começo ele achou que eu era lixeiro. Depois o pai dele (irmão de Mário) me definiu como ecochato, e isso, para variar, pegou.”

 

Missão Espiritual

Sustentabilidade a parte, Mário ainda dedica grande parte do seu tempo a uma atividade pouco difundida entre os filhos: ele e Angela são colaboradores de uma paróquia na Vila Mascote, mais especificamente de uma igreja localizada na Rua Palestina.

Todos os sábados e domingos, eles chegam na capela por volta das seis da tarde, arrumam o altar, organizam os folhetos e todos os instrumentos que serão utilizados durante a missa das sete horas. Nesta, servem como ministros paroquiais, ajudando o padre na homilia, leitura, cantoria ou qualquer ponto que precisar de uma força. Ajudar nunca foi uma dificuldade para Mário, segundo o padre Antonio Neli. “Estão sempre dispostos, tanto ele como a Angela nos ajudam a organizar a vida. Inclusive, são eles que estão cuidando da ida dos jovens de nossa comunidade para a JMJ (Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro).”

Se nas missas cuida de tudo, nas quermesses fica na barraca de pastel. Mário conta todas as piadinhas que tem que ouvir semanalmente. “A maioria só diz: ‘aí japa, vai ter pastel hoje ou só hóstia mesmo? Acho quase desrespeitoso, mas acabo levando na brincadeira.” Os mais chegados se aproveitam do passado como vendedor de veneno. “Ano passado ouvi muito ‘o meu pastel é orgânico ok? Sem agrotóxico no meu tomate, por favor.’ A galera não perde uma oportunidade (risos).”

O próprio padre admite entrar na descontração e interagir de forma bem humorada com Mário. “O pastel nem é tão bom, mas ter o japonês vendendo ficou marca registrada. Nos anos que a esposa ou a sogra dele são responsáveis pelo pastel, acho que fica mais gostoso. A função dele mesmo é ficar ali no balcão, é o nosso marketing ambulante.”

 

A chegada do alemão

Hoje com 52 anos, Mário sente os efeitos do tempo. Pelo menos, começa a admitir. Pegar caronas em caminhões, além de imprudente, seria impossível, devido às constantes crises no nervo ciático, que pedem injeções regulares de corticóide nas costas. Além disso, em todos os ambientes com que estive com o engenheiro agrônomo, frases como “Ôôô… Como chama mesmo? Aquele negócio, daquela viagem, que a gente foi com… Com aqueles… Aqueles dois lá…” eram muito comuns.

No meu último encontro com Mário, após uma das missas, senti liberdade para perguntar a respeito, saber se ele se considerava esquecido. Ele sabia exatamente o porquê estava perguntando isto e a quê estava me referindo.

“Você sabe por que eu ando meio esquecido?”

“Não, por que?”

“Culpa do alemão.”

Pensei alguns segundos, logo veio a explicação.

“Esse tal de Alzheimer. Já está batendo na porta, logo menos entra de vez”, disse, apontando para a cabeça.

A esposa então deu um tapa forte no seu ombro, e replicou.

“Mas como fala besteira. Ele não tem nada disso, tá é ficando velho.”

Dei risada.

Mário hoje cursa MBA em Gestão Ambiental na Fundação Getúlio Vargas, e está se especializando cada vez mais em sustentabilidade e logística reversa. O Zé Ninguém, Average Joe, se mostra hoje como um dos grandes nomes nesta área no Brasil, dando palestras mensalmente, aulas magna, apresentações on-line e também pequenas lições a sobrinhos para convencê-los de que ele não é um ecochato.

Também no último encontro, fiz despretensiosamente as mesmas perguntas iniciais do primeiro encontro. Qual o momento mais importante da sua infância e o que ele considerava mais importante. As respostas foram muito diferentes e muito parecidas, ao mesmo tempo, daquilo que ouvi no nosso primeiro encontro. Acredito que o que mudou foi minha percepção.

“Da minha infância, sem dúvida foi a época de Bandeirantes, da época que se era louco o suficiente para correr atrás de uma freira em um show na capital. O mais importante você já sabe, imagino. Se não souber, me liga e a gente marca uma pizzada em casa.”

 

Uma diretora, uma Claquete

Em um estúdio iluminado somente pelas televisões e monitores, supervisiona toda a gravação do programa. Escreve o texto do teleprompter, auxilia a diretora de imagens, avisa qual será a próxima matéria do programa, coordena a entrada de vídeos, chama os entrevistados, dá dicas para toda a produção e para o próprio Otavio Mesquita na gravação de seu programa. “Isso não vai entrar. Nós vamos cortar isso depois” e “Precisa ir mais rápido, Otavio, assim não vai dar tempo!” são algumas das frases que Renata Malheiros dizia durante a gravação do programa Claquete, exibido na TV Band.

Diretora do programa, já passou por várias funções diferentes na emissora. Em uma conversa em uma sala da emissora, Renata contou sua trajetória jornalística.C Atualmente com 35 anos, começou a trabalhar na Rádio Bandeirantes AM no segundo ano de faculdade, em 1998, ainda cursando jornalismo na FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado). Trabalhava com rádio-escuta e depois começou a fazer boletins e pautas. Inteirada no meio, ela ressalta a multifuncionalidade de qualquer jornalista: ainda quando estava no começo do estágio, já realizava várias funções diferentes, que ajudaram na sua formação. Passou dois anos na rádio, e ao término da faculdade se tornou produtora. Com isso, foi para a editora Abril, onde trabalhou por cinco anos, mudando também de veículo – do rádio para o impresso. Fez parte do núcleo de revistas populares, com a Viva! e outras revistas customizadas. Nesse tempo, foi repórter e cobriu eventos de famosos, além de escrever matérias de comportamento, beleza e saúde na redação. Deixando a Abril por seis meses, morou no Canadá com uma amiga para estudar inglês, onde trabalhou em um jornal de mochileiros, o Backpackers News, quando tinha 24 anos.

Mas não parou de estudar por aí; Fez pós-graduação – lato sensu – em jornalismo social na PUC-SP, com tese em revistas femininas. Nessa, dissertou sobre o quanto a mulher é pressionada pela imprensa para ser uma “super mulher”: “A ideia era mostrar quanto as revistas tentavam ajudar, mas no fundo acabavam pressionando as mulheres, pois elas deveriam estar lindas, com o cabelo incrível, corpão, ser super-mães e profissionais incríveis”.

Ao longo de sua carreira, trabalhou também em uma agência de comunicação, a LDC, cuidando de revistas específicas para empresas, o chamado endomarketing, onde passou cerca de dois anos e aprendeu a fazer projetos para clientes, fazendo um jornalismo mais voltado para empresas. Assim, depois de ter tido contato com vários meios diferentes, Renata voltou para a Bandeirantes como chefe de pauta da área jornalística. Esse foi o período mais intenso de sua carreira, devido às exigências do jornalismo diário, com plantões constantes e o contato com o hard news. A partir de sua experiência, diz que para criar pautas, é necessária muita criatividade além do factual: “Você tem que sacar o que as pessoas estão falando na rua, tudo vira pauta. Às vezes você está com seus amigos e alguém comenta alguma coisa que vira notícia”.

Com isso, passou três anos na televisão, migrando posteriormente para uma produtora publicitária – que realizava campanhas políticas -, na qual ficou um ano; foi para outra produtora, na qual também permaneceu durante um ano, que produzia um programa de turismo para a Band. Coordenava o programa, aprovando os programas que iam para o ar. Nessa época, ela gostava de ir para o trabalho utilizando o metrô como meio de transporte, para saber o que as pessoas falavam na rua. “No carro, você está ali no seu mundo; mas quando você está na rua, você ouve quais são os assuntos que estão todos comentando”. Devido a esse contínuo contato com a emissora, foi chamada novamente para voltar, dessa vez para o entretenimento, em 2009. Fez o papel de editora executiva no programa Dia a Dia, passando pelo Boa Tarde e o Video News.

Há cerca de um ano e meio, Renata entrou no período de licença maternidade, que durou quatro meses, e ao voltar foi chamada para o Claquete para cobrir a então diretora, Fernanda Ortiz, que também entrou em licença maternidade, se afastando do cargo. Quando voltou ao trabalhou, Fernanda foi para outra área, fazendo com que Renata permanecesse na posição que ocupa até hoje.

O claquete

Ao chegar no estúdio, Renata aprova as matérias do programa, que assiste de seu computador, e decide com seu assistente de direção o que vai ao ar para cada dia. Por dirigir o programa, acaba cuidando também de questões mais burocráticas, como as matérias comerciais que são apresentadas e o processo de agendamento de entrevistas.

Quinta-feira é o dia no qual a agenda da diretora fica mais lotada. É quando são gravados os programas da semana seguinte e todos os blocos de estúdio, sendo que o Claquete vai ao ar de segunda a sexta, em horários variados, de madrugada. Das 13h até às 16h, Renata fica no estúdio onde estão os switchers – também chamados de “mesa de corte”, uma vez que é um equipamento usado para selecionar entre vários tipos de video, além de proporcionar a comunicação entre os trabalhadores -, usando com destreza o painel para se comunicar com diversas pessoas. Na gravação de um dos programas, ela telefonou para a casa de Rubinho Barrichelo: era aniversário dele e Otavio iria dar-lhe os parabéns durante o programa. Fazer a ligação e colocá-la no ar como se o próprio Otavio estivesse telefonando é um dos papeis da diretora, que não aparece no programa, mas faz toda a diferença no resultado final.

Nesse tempo de gravação, cerca de uma hora é destinada à entrevista com um convidado especial. Naquela quinta-feira, Renata estava preocupada com o atraso da convidada. “Ela já está pronta? Vamos gravar o que falta antes de ela chegar para não perder tempo”. Era Dani Calabresa, que, ao chegar, teve uma conversa com a diretora e Otavio para acertar os últimos detalhes. “Tudo pronto? Vamos gravar a entrada”, diz Renata, já de volta aos switchers. “Agora vamos colocar o depoimento da mãe e do pai.” Depois disso, ligou para Marcelo Adnet, marido de Dani Calabresa, e colocou-o no ar.

E assim continuava a dirigir o programa, ajudando o apresentador quando este esquecia alguma fala e coordenando tudo no estúdio. Com o fim das gravações, ela se despediu de Otavio e Calabresa. Mas seu dia de trabalho ainda não havia chegado ao fim: agora em seu computador, junto dos outros funcionários da emissora, Renata dava os toques finais ao programa. No estúdio, ela dirige a gravação das cabeças – chamadas das matérias – e na edição os programas são montados e rodados juntamente com os VTs.

Como diria Renata, ela vive “um dia a dia que é e não é uma rotina”. A rotina se deve à permanência no estúdio – uma vez que os diretores não acompanham as gravações de externas – e às tarefas definidas que ela deve realizar. No entanto, cada dia tem exigências diferentes, há semanas que as gravações são mais “tranquilas”.

Mas além do trabalho, Renata precisa conciliar seu dia a dia com sua família. Por ser mãe, ela passa a parte da manhã cuidando do seu filho de um ano. Mesmo que o programa que dirige entre ao ar de madrugada, tem uma rotina flexível de acordo com as exigências da profissão, não precisando chegar tão cedo e sair tão tarde do trabalho quanto jornalistas de noticiários diários, por exemplo. Seu horário de trabalho usual é das 12h até às 21h. Mesmo quando não está no expediente de trabalho, seu celular está sempre ligado para atender chamadas sobre o programa. “Apesar disso não me considero uma workaholic, já fui mais.” Ainda, quando tem tempo, pratica yoga.

A rotina de uma emissora é pouco conhecida, mas muito apreciada em seu resultado final, a exibição na televisão. Renata dirige tudo que está por trás das telas; está nos bastidores, e apesar de estar anônima para o público, é um elemento essencial para a existência de um programa como esse.

Perfil – Erick Noin

O punk não Morreu

Era um hora da tarde quando cheguei ao local marcado, uma padaria, e ele já estava lá, sentado ao balcão tomando uma garrafa de água com gás. Estávamos de frente à praça da Igreja Santa Rita no bairro da Praça da Árvore, Zona Sul de São Paulo. Era um belo dia de sol, e, lá dentro, estávamos protegidos daquele calor. Cumprimentamo-nos, aceno de cabeça, mãos apertadas, palavras trocadas. Ele pediu uma garrafa de Serramalte. Dois copos. Gravador ligado. Uma turma de estudantes uniformizados descia ruidosamente a rua. Começou a falar.

Fábio Uegarte, 42 anos. Branco, careca, magro, cavanhaque. Vestia cuturno e jaqueta de couro, um boné preto por sobre a calva e óculos de sol. Sua moto, uma Suzuki Intruder (moto leve, de apenas 125 cc) estava encostada lá fora, bem próxima a nós. Fábio facilmente seria confundindo com uma pessoa normal, mas, pelo simples fato de ser uma pessoa normal. Um trabalhador, como tantos outros, com sua história de erros e acertos, segundo ele mesmo.

Porém toda ela foi acompanhando um movimento que teve pouca repercussão no Brasil, pelo menos é o que muitos suporiam. Durante sua juventude o punk e o underground, no geral, estavam em alta nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo, inserida nas tendências do rock inglês e americano.

Entrou em contato com esse movimento quando tinha dezesseis anos de idade, apresentado por uma amiga mais velha três ou quatro anos. “Me lembro quando fui pela primeira vez numa casa underground, no Madame Satã, ali na… na Bela Vista, eu acho. Fiquei do lado de fora até umas duas ou três horas da amanhã porque só podia entrar maior. Mas ai a Rosângela (sua amiga) – que não tá mais entre a gente, infelizmente; trocou uma ideia com o segurança e, quando a casa deu uma esvaziada, eu entrei mesmo assim.”

Fábio conta que pirou naquilo tudo na hora. O ambiente, a luz, a decoração e as pessoas; tudo. Muitos grupos frequentavam aqueles locais: eram punks, anarquistas, skinheads, góticos, e outras subdivisões como punk vitrine (“punk só no visual”) e os punks da destruição (“que tavam a fim de quebrar tudo mesmo”). Todos eles englobados no movimento geral que era o Underground.

“No começo eu era punk, mas depois fui mais pro dark, pro gótico. Mas tínhamos amigos de tudo quanto era tipo. Não tinha tanta discriminação. Qualquer um que fosse num lugar assim era bem recebido. Mesmo se fosse alguém tipo você, ou um rastafari, sei lá.” Riu, seja lá o que ele queria dizer com alguém como eu.

A cultura punk não se restringia à música, mas estava nas pessoas; aquele temperamento explosivo e a desilusão com o sistema, que tinha mesmo era que “se explodir”. Conta que a ditadura já tinha acabado, mas a repressão ainda existia. Principalmente quando o assunto eram drogas.

“Naquele tempo a gente curtia fumar um baseadinho, tomar vinho e tomar uns ácidos. Mas era uma coisa bem escondida, chocava muito mais as pessoas que viam do que hoje em dia. A gente tinha que se esconder, de todo mundo, e da polícia. Hoje em dia dá até pra falar pras pessoas que elas aceitam; dá pra usar na rua, não que eu também não usasse, mas era bem mais difícil de se ver.”

E por causa disso também eles não eram muito bem vistos pela opinião pública. Os pais de Fábio nunca concordaram muito com o meio que o filho abraçou, mas nunca deixaram de amá-lo ou negaram-lhe moradia; o que aconteceu com alguns de seus amigos. Sempre morou, e mora até hoje, próximo ao Aeroporto de Congonhas. Mas hoje em dia junto com a namorada, Micaella.

“Nos chamavam de vagabundos. Nos jornais éramos tratados como bárbaros que só queriam saber de destruir e se drogar, como se não fôssemos pessoas.” Totalmente injustificado já que Fábio trabalha desde os 15 anos, no mesmo lugar; uma locadora de filmes a quinhentos metros da padaria.

“E foi lá, assistindo muitos filmes, que eu passei pra essa fase mais dark; quando comecei a ouvir Sisters of Mercy (banda inglesa de rock gótico dos anos oitenta) e depois de assistir Nosferatu.” Os detalhes sombrios e de terror do clássico expressionista alemão dos anos trinta tinham tudo a ver com as ideias desses jovens mais de cinquenta anos depois. As coisas não são tão bonitas quanto querem vender para nós. “Há muita coisa ruim, exploração, maldade nesse mundo.” E é, talvez por isso, que aquela gente toda se abstesse de fazer parte daquele mundo pequeno burguês de país de terceiro mundo e escolhesse um movimento mais marginal. Muita gente, segundo Fábio.

“Muita gente mesmo. Quando tinha um show com alguma banda mais conhecida – nossa, cara!; as casas lotavam. Era punk pra tudo que era lado fazendo mosh-pit (aquelas rodinhas de gente se batendo) ou só curtindo.” A violência, para eles, estava relacionada à expressão, e não à maldade; explica. “Já entrei em algumas brigas na rua ou em shows, sim. Mas, só quando eu tava a fim; quando não tava, ficava de fora. Na vida toda só apanhei da minha mãe e da polícia.” Riu tossindo um pouco. Deu largo trago do copo de cerveja gelada.

Mas também não eram poucas as bandas, entre nacionais e internacionais que faziam shows em São Paulo; havia, pelo menos, uma centena. Das mais conhecidas e aos quais esteve presente em apresentações estão: Garotos Podres, Ratos de Porão (ex-banda de João Gordo), Plebe Rude, Legião Urbana, I, e tantas outras. Até Cazuza ele viu cantando, mas “não lembro se na Kaos, na Madame ou alguma outra.”

Porém o melhor show que ele viu foi, com certeza, Sisters Of Mercy na Barra Funda. “Piração, era minha banda favorita fazendo um puta show… e nem tava tão lotado, porque naquela época, sem internet e celular, era mais difícil as pessoas ficarem sabendo das coisas. Eu lembro que eu ia do bar pra frente do palco – mas frente mesmo, até sentia o cuspe do Eldritch (vocalista da banda) em mim. Então… ah é. Nem tava tão cheio, eu conseguia me locomover tranquilamente lá.” Mas, na segunda vinda da banda para São Paulo, em 2009, na Via Funchal, a situação não se repetiu. Fãs do Brasil inteiro lotaram a casa para mais uma épica apresentação da banda, nas palavras de Fábio.

Mas as aventuras que participavam não se resumiam a shows. Gostavam de frequentar outros lugares, como o Centro, em locais como a Galeria do Rock, ou lojas de roupas e discos do estilo. Uma outra localidade, muito mais mórbida, eram os cemitérios. Seja o da Consolação ou o do Araçá. “Eu curtia a arquitetura gótica daqueles… túmulos; a paz que tinha naqueles lugares. Tudo tão quieto, longe daquela loucura da cidade.” Bebiam, fumavam, conversavam e faziam amor por entre lápides e mausóleos, conta.

Mas a vida dele não podia continuar nesse ritmo alucinante. Amadureceu. Com uns vinte anos, quase trinta, diz, deixou de sair tanto com os amigos, e ir a tantos shows. Antes era praticamente todos os dias, depois uma vez por semana, mês; e agora, “estou há uns dez anos sem ver ninguém da turma. Só o Roni, que encontrei semana passada, ele me falou que o Madame Satã reabriu e tá bem legal, do jeitinho que era antes. Você e seus amigos deviam conhecer.”

Fiquei longe da Start Video (a locadora onde trabalhava), por quase dez anos. “Trabalhei como cinegrafista do canal Mulher em Bauru. Comecei a mexer com mesa de som e mixagem, e gravação de áudio em estúdio.” Acompanhou algumas bandas em turnê também, conheceu um pouco do Brasil. Mas era hora de voltar a São Paulo.
“Em noventa e sete, acho, voltei pra cá. Voltei a trabalhar na Start, agora como gerente, e também num estúdio em Alphaville, do meu amigo Wilson.”

Ele realmente tinha crescido, mas sem nunca abandonar o que amava. Cinema, motos e o underground. Parou com a maconha. “Pior bosta que eu fiz foi fumar tanta erva. Se eu não tivesse usado tanto talvez eu não tivesse tanto problema de cabeça, não era tão esquecido, porque, vou te contar Erick, eu não te disse aqui nem dez por cento das coisas. Se eu lembrasse de todas as coisas que fiz, ia ter muita história.”

Depois de tantas lembranças e fluxos de pensamento o sol, que estava perto de se pôr, invadia a padaria cobrindo-nos e ofuscando minha vista. Algumas garrafas de cerveja vazias alinhadas no balcão flagravam o tempo daquela conversa, que, diriam, “entre amigos”, não fosse o gravador denunciando o caráter de entrevista. Fábio Uegarte puxou sua moto e foi para mais algum compromisso com a própria vida. Trabalhar, encontrar a namorada ou simplesmente descansar em casa.

Na minha cabeça só ficou a última coisa que me disse, “o punk não morreu, porque eu vejo até hoje ai a mulekada do mesmo jeito que era no meu tempo. Esse movimento não tem muito registro porque o pessoal tá tudo vivo ai, na ativa.”

*Alguns nomes na narrativa foram modificados para preservar a privacidade do perfilado quanto a assuntos delicados.

Pequeno grande homem

Felipe da Silva Braga, ou Felipe Krust, como é conhecido, tem o braço direito coberto por tatuagens e está (quase) sempre com uma camiseta estampada. Aqueles que o veem de longe podem o julgar pelas tatuagens e não acreditar – erroneamente – que, apesar da pouca idade, ele é um homem cheio de histórias pra contar.

Para os que conheceram Felipe superficialmente um ano atrás, ele parecia ter a vida perfeita. Mesmo sem nunca ter estado em um curso superior, com apenas 22 anos ele já ocupava um alto cargo como designer em um dos jornais mais importantes da maior metrópole do país, o periódico Folha de S.Paulo. No final de 2012, porém, Felipe largou seu emprego, foi até o aeroporto e comprou a primeira passagem aérea que viu.

Olhando para trás, ele admite que largar a Folha e sair sem destino foi uma atitude “impulsiva” e “imatura”, mas sabe que, o que considera ter sido a maior loucura de sua vida, foi o que o salvou.

Impulso e responsabilidade

Felipe é o tipo de pessoa que teve que aprender a enfrentar seus problemas desde cedo. Quando nasceu, em 1990, seu pai, que já era alcoólatra, passou a usar drogas. O fato gerou uma espécie de racha na família. Dois de seus irmãos viam no pai certa fraqueza e defendiam-no, enquanto outro era completamente contra o vício. E, no meio do caminho, ele. Seis anos mais novo que o então caçula, Felipe tentava não se envolver e manter uma posição neutra.

Os acontecimentos fizeram com que ele crescesse muito apegado à mãe, que sempre tentou poupá-lo de brigas e chateações. Apesar da proteção da mãe, desde os 17 anos, é Felipe quem ajuda o pagamento de contas. Todos os seus irmãos se casaram e tiveram filhos muito cedo, saindo de casa quando ele era apenas um adolescente.

Por ter assumido a responsabilidade de ajudar no sustento do lar, Felipe admite que não poderia ter largado seu emprego na Folha de S.Paulo, mas, se hoje ele tem maior liberdade para trabalhar com o que gosta e pode ajudar quem ama, foi muito devido à sua coragem de jogar tudo para o alto e correr atrás da felicidade – e de si próprio.

A louca viagem é o que parece separar o menino do homem. O garoto impulsivo e empolgado deu lugar a um homem mais calmo e responsável, que aprendeu a pensar mais em como seus atos podem influenciar a vida das pessoas que se importam com ele. Segundo Rafael Felix, além de ter mais coragem e cabeça para correr atrás de soluções de problemas antes deixados de lado, Felipe aprendeu também a dar mais valor às pessoas próximas.

Mesmo não considerando que vivenciou grandes problemas e de não sentir orgulho de ter passado por dificuldades, Felipe admite que, devido aos acontecimentos anteriores, hoje ele é capaz de lidar com situações que, talvez, pessoas da mesma idade dele não consigam.

De garoto a homem

Quando tinha 16 anos, Felipe se deu conta de que gostava mais de comerciais do que dos programas televisivos. Apesar de considerar “meio estranho para uma criança”, ele lembra que quando via uma propaganda que não gostava, pensava em como ele poderia torna-la melhor. Amante de games, o então garoto percebeu também que os sites dos jogos não eram muito atrativos para os gamers.

A observação e percepção logo deram lugar à curiosidade. Felipe começou a procurar na internet apostilas e tutoriais de design. Depois de algum tempo e muita leitura, ele já se arriscava e modificava o layout dos sites por diversão.

A brincadeira ficou séria quando, depois de fazer um site para a rádio na qual trabalhava, ele começou a receber propostas de freelances. O feedback positivo animou o garoto, que logo começou a pensar em tornar o passatempo em trabalho. A sensação de se sentir capaz de fazer algo por conta própria, e as boas respostas ao seu trabalho, o animaram a levar a paixão adiante.

Entretanto, ele logo percebeu que não seria fácil se tornar um designer. Com grande demanda para montar o layout de sites, Felipe se deu conta de que precisava se organizar melhor e se profissionalizar para poder ganhar dinheiro e mergulhar no mercado. Sempre de bom humor, ele conta que quando começou a receber pedidos de sites ficava perdido e não sabia quanto cobrar por eles.

A determinação e a força de vontade, características marcantes de Felipe, fizeram com que ele voltasse a estudar por contra própria para aprimorar seu serviço. Se com 18 anos grande parte dos jovens passa dias fora de casa e indo a festas, Felipe muitas vezes  deixava de sair com seus amigos para ficar estudando, passando horas e horas em frente ao computador.

Para ter uma base de quanto valia seu trabalho, já que não conhecia ninguém da área, ele entrou em contato com agências de publicidade fingindo ser um cliente. Rindo, ele conta que fazia sites “a preço de banana”.

As pesquisas ampliaram seus horizontes. Felipe descobriu que além de ganhar dinheiro fazendo algo que gostava, tinha a possibilidade de poder “fazer a própria empresa”. Antes de montar o próprio negócio, porém, era preciso conhecer o mercado.

Precisando ganhar dinheiro e sem ter como conciliar trabalho e escola, Felipe foi se dando conta de que o design estava virando mais que um hobbie, e que estava “se divertindo muito e trabalhando pouco”. Foi em seu primeiro emprego, no Instituto Universal Brasileiro, que ele aprendeu como funcionava o mercado de design.

No Instituto, ele se deu conta de que “achava que sabia tudo, mas, na verdade, não sabia nada”. Felipe sentiu a necessidade de aprender mais e voltou a estudar sozinho. Percebeu também que “quem faz design não sabe programação, e quem sabe programação não faz design” e começou a estudar códigos. No esquema “design no trabalho e programação em casa”, Felipe foi se diferenciando dos outros profissionais da área e novas oportunidades foram surgindo.

Com 19 anos, duas experiências profissionais, e cerca de 100 sites feitos, um amigo o indicou para uma vaga no jornal Folha de S.Paulo. Como não tinha formação universitária, Felipe sabia que teria que se empenhar muito para se equiparar aos seus colegas, mas ao mesmo tempo, se sentia confiante por estar no mesmo nível de profissionais formados.

A confiança e a consciência do seu potencial não atrapalharam Felipe, que não assumiu uma postura arrogante. Mesmo com muita empolgação, vontade de mostrar seus trabalhos e de ser cada dia melhor, ele continuava se esforçando, mantendo a característica humildade. Fez cursos livres, estudou, trabalhou duro e logo foi promovido. E foi na Folha que percebeu que “poderia ser um profissional de design, e não uma pessoa que trabalha com design”.

Mas nem tudo é o paraíso que parece ser. Aos poucos, os problemas começaram a aparecer. A rotina se tornou cansativa e o trabalho tomava muito do seu tempo. Paralelamente ao trabalho na Folha, Felipe fazia freelance, mas sentiu que a qualidade destes trabalhos estava caindo por não ter tempo para se dedicar a eles.

Depois de dois anos no jornal, Felipe percebeu que apesar da estabilidade e conforto financeiro, ele não estava mais feliz, e começou a pensar: “eu preciso fazer o que eu gosto”. Quando falava em sair da empresa, seus amigos o criticavam, dizendo lá ele tinha um plano de carreira e estabilidade financeira, ao passo que ele se perguntava: “vou ter todas as minhas necessidades econômicas em dia e vou ser infeliz, até quando? E a minha felicidade?”.

Em setembro de 2012, os aborrecimentos da vida pessoal começaram a se transpor para a vida profissional. Os problemas se acumularam de tal forma, que quando Felipe percebeu, eles já haviam se tornado insuportáveis. O problema de seu pai com as drogas, o sofrimento da mãe, a falta de apoio dos irmãos e amigos somaram ao descontentamento com a rotina maçante do jornal. O designer diz que estava “uma pilha de estresse” e não conseguia mais lidar com os problemas e ficar em São Paulo.

Após uma noite de bebedeira na rua, Felipe pegou um ônibus, foi para o aeroporto e comprou uma passagem só de ida para o primeiro lugar que viu. O destino? Espírito Santo. Em 25 dias e com menos de 2000 reais, ele visitou Espírito Santo, Bahia, Porto Alegre, Florianópolis e Rio de Janeiro.

Apesar de admitir que foi um ato impulsivo largar tudo e ir com pouco dinheiro para um lugar desconhecido, o designer considera que o que fez foi necessário. “Acho que foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida”, afirma.

Se na primeira semana ficou sem celular e internet, isolado de tudo e de todos, pouco a pouco Felipe aprendeu a “compartilhar experiências” com as pessoas conheceu ao longo da viagem e que foram muito importantes para o seu processo de amadurecimento ao dar conselhos que eram ouvidos com humildade e absorvidos como novos conhecimentos.

Já no final da viagem, em Porto Alegre, uma ligação de sua mãe fez com que Felipe se desse conta de que “estava sendo egoísta”, se esquecendo das pessoas que dependiam e se importavam com ele.

Por “sorte divina”, Felipe conseguiu comprar uma passagem de volta para São Paulo com o exato valor que sobrara em sua conta.

A relação de Felipe com a Igreja e com sua fé, inclusive, é conturbada. Sua primeira tatuagem, um ideograma japonês na nuca, significa Deus, pois segundo ele, Deus o salvou várias vezes, “não pode ser ciência, não tem explicação”. Em um momento “mais revoltado”, porém, ele tatuou uma cruz rachada no braço para simbolizar sua falta de fé, desenho que ele se arrependeu de ter feito e que pretende preencher, já que voltou a crer.

Uma nova fase

No dia 1 de junho, Felipe realizou um sonho e teve oito peças expostas na casa noturna Lab Club em São Paulo. O feedback foi positivo e o dono da casa, depois de ouvir muitos elogios, deixou as portas abertas para Felipe, que recebeu um convite para expor obras no Rio de Janeiro também.

Além disso, o designer sentiu a necessidade de voltar a estudar e agora cursa Design de Mídia Social na Faculdade Impacta de Tecnologia junto com Rafael, amigo que “contaminou” depois que voltou de viagem, e que também “resolveu tomar um rumo na vida”.

Felipe conta também que tem planos de ir para os Estados Unidos para estudar efeitos visuais e foto manipulação depois que terminar a faculdade, e brinca: “dessa vez é programado, chega de loucura”.

Autonomia

Hoje, Felipe faz seu próprio horário. Acorda cerca de nove horas da manhã, checa e-mails e Facebook. Gruda papeizinhos no home-office que montou, para organizar as tarefas do dia. Almoça, passeia com o cachorro e trabalha até o horário de ir para a faculdade, que vai das 19h às 23h.

“Quando se abre mão de algo, se ganha outra coisa em troca”. Se hoje Felipe é feliz porque consegue fazer o que gosta, concretizar seus desejos e ajudar as pessoas próximas, é porque abriu mão de apenas uma coisa: o emprego.

Apesar de gostar da liberdade para fazer seus freelances, o designer admite que às vezes fica preocupado com a instabilidade do negócio, e por isso, quer agora arranjar um emprego fixo que dê segurança financeira, mas que o permita continuar com o trabalho de casa.

Ao mesmo tempo em que sua vida pessoal parece ter se acertado, ele tenta acompanhar a profissional, que sente estar passando “tão rápido que às vezes não dá tempo de acompanhar”.

Wagners

Wagner resfriado pode não afetar a vida de dezenas de pessoas, mas com certeza afeta o cotidiano do estreito Centro de Formação de Condutores do Campo Belo. Sem ele, a casa amarela decorada com placas de trânsito vira Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível, porque ele é o único professor da escola. Quem está doente, no entanto, não é Wagner, é sua mãe – o que na prática não muda muita coisa, já que, seja quem for o enfermo, ele não pode faltar no trabalho.

Dulce dos Santos também é única. A única que sabe a senha do cofre que esconde a arma, a única que faz o melhor estrogonofe do mundo e a única que descongela o coração de Wagner.

Enquanto ela se recupera da obstrução de um vaso sanguíneo ligado ao seu cérebro que impediu a circulação adequada e interferiu as funções neurológicas dependentes da região afetada, seu filho sacrifica o sono, a integridade psicológica e os sorrisos habituais. O acidente vascular cerebral isquêmico de dona Dulce a obrigou a passar uma semana na cama de um hospital em Higienópolis, próximo à casa de Wagner, e tornou imperativo o revezamento entre ele e a irmã no quarto de internação.

O pai aguentou um câncer de estômago por três anos, mas há uma década acabou falecendo. O senhor Amadeu dos Santos foi militar durante a ditadura nos anos 60 e 70. Perguntei se ele achava que o pai participava das torturas e assassinatos sistemáticos da época, ao que respondeu com um sorriso irônico: “Eu era pequeno. Ele ia trabalhar de manhã e voltava no fim da tarde. Não contava nada para a gente e nós também não questionávamos”. Wagner dos Santos herdou do seu genitor o amor à mãe e o sangue nos olhos.

 

“PM presta?”, pergunta a um aluno no primeiro dia do curso para condutores, que se inicia a cada duas semanas. Repete a pergunta a mais três alunos – “PM presta?” – e conclui: “PM não presta. Não vou mentir para vocês, o meu objetivo aqui não é ficar enganando ninguém. A realidade lá fora é dura e vocês têm que saber o que acontece para se protegerem”. Wagner chegou a ser Capitão da Polícia Militar e, mesmo não exercendo mais a profissão, continua recebendo como se estivesse no cargo

– Queria te acompanhar durante um dia, posso? Qual é a sua rotina?

– Claro, minha querida! Minha rotina? Vou para academia de manhã e de tarde venho dar aula, das duas às seis da tarde. E uma vez por mês vou naquele meu outro trabalho, você sabe né, assinar uns papéis lá, com o Coronel – pisca.

A sala sem janelas e sem ar condicionado acolhe os aproximadamente 30 alunos que, durante quatro horas de 10 dias úteis, ouvem as aventuras e opiniões do professor. “Normalmente a gente escuta que as aulas do CFC são entediantes e sonolentas; Wagner as faz ser uma experiência um bem menos insuportável”, diz André, um de seus pupilos. Para isso, além das piadas a cada cinco minutos, o mentor usa truques ligeiramente controversos, como a foto do crânio deformado de um presidiário, acompanhada de explicação: o hoje morto ficou louco na cadeia, saiu correndo e se atirou na parede.

Wagner é também generoso, empresta seu pendrive para os alunos que querem copiar as fotos dos bastidores da vida policial para seus computadores, que incluem tanto assassinatos, quanto acidentes de trânsito. O fetiche por cadáveres, sangue e decapitações, assim como o desejo de poder, é intrínseco a qualquer alma que tenha nascido para o ofício, e ele deixa isso claro nas aulas. “Por que vocês acham que as pessoas querem ser policiais? A gente tem muito poder. Você nunca vai conseguir me prender, sabe por quê? Porque eu conheço todo mundo que está dentro da delegacia”.

Já em casa, enquanto comprime repetidamente seu “aperto de mão” – aparelho para fortalecer a musculatura usada no tiro –, comenta: “A arma muda a pessoa, ela passa a se sentir poderosa de um jeito imbatível e na hora H não está nem aí para as consequências. Por isso não se pode discutir no trânsito; se o cara do carro da frente tem uma arma, ele atira sem pensar duas vezes.”

O Capitão tem autocrítica. Sabe disso porque sabe que se esse cara fosse ele, faria o mesmo. Sabe também que é uma pessoa difícil de lidar. É ‘estourado’ e, à mínima possibilidade de qualquer ameaça, mesmo que não envolva riscos físicos, reage de maneira impulsiva. Eis o porquê de sua mãe ser a única pessoa que sabe a senha do cofre. “Uma vez fui com uma ex-namorada num restaurante e um cara começou a se engraçar pra perto dela. Quando eu vi fiquei louco, se tivesse uma arma não sei o que faria. Sei que é errado, mas é o meu jeito.”

 

O homem Wagner dos Santos é dividido substancialmente em duas partes: o militar e o professor, mas que involuntária e diariamente se misturam num Wagner só, isso porque ele passou por uma cama de hospital muito antes de sua mãe. Aos 28 anos, três tiros o derrubaram na maca de um pronto socorro. Sobrou desse dia uma lembrança que enraizaria o futuro. Seu corpo, um médico, duas assistentes, um desfibrilador e um apito constante. Um choque e nada. “Os batimentos pararam, mas vamos tentar mais uma vez.” Outro choque e um apagão. Ele só acordou oito meses depois.

“Eu tenho certeza de que naquele dia morri e voltei. Narrei para o médico o que vi e ele me disse que foi exatamente assim, depois descobri que tem muita gente com relatos parecidos. Comecei a ver a vida de um jeito totalmente diferente.” Se hoje tem cabeça quente e dura, já foi muito pior. “Agora se vocês me falarem uma coisa e eu não concordar, dificilmente vou mudar de opinião, mas pelo menos vou tentar ouvir e entender”, se descreve para os seus alunos depois de mostrar a cicatriz abaixo do peito. Indiretamente o acidente foi um dos motivos pelos quais resolveu virar professor alguns anos depois.

– Filho, você pode colocar uma lixeira na frente do portão da sua casa?

– Acho que posso, professor.

– Lógico que não pode, filho. A rua é do governo, a rua não é sua. Nem a sua casa é sua, sabe por quê? Porque assim que alguém quiser, pode vir e tirar de você em nome do bem público. Está na lei. Vocês têm que conhecer as leis do país que vocês vivem.

O professor erra o nome dos alunos sempre e fala errado de vez em quando. “Ah, eu também falo errado de vez em quando. ‘Seje’, ‘seja’, essas coisas, eu me confundo. Se eu falar errado vocês me corrijam, não precisa ficar com vergonha. Depois tem nego que fica rindo de mim aí atrás. É, você mesmo, tá olhando o quê, filho?”, brinca. De vez em quando relaciona as situações no trânsito com princípios do direito ou com leis da física, gosta de mostrar o que leu.

Wagner faz o tipo do cara forte, inabalável, carismático, malandro, que se dá bem e que tem poder – ou faz questão de se assimilar a esse tipo de cara. É sincero com os outros e consigo mesmo; o personagem que cria parece simplesmente fazer parte da sua personalidade, uma faceta indissociável de seu caráter. Apesar da frieza nas ações, é extremamente carinhoso e atencioso, ainda que o carisma (característica de quem atrai muita atenção e causa boa impressão naturalmente, sendo consequentemente muito querido) pareça imprescindível para o cultivo de seu ego.

 

Ele se casou seis vezes. Descobriu há sete anos um filho desconhecido – mas que não era fruto de um dos casamentos – no velório da mãe do menino, com o padrasto ao lado. “Não tinha como negar. Eu olhei pro moleque, ele olhou pra mim e a gente era igual. A gente simplesmente sabia.” O “moleque” tinha, nessa época, 19 anos.

– A gente ainda se fala, ainda se encontra, mas o padrasto não tem nem ideia, pensa que o filho é dele.

– E como ela escondeu que tinha tido um filho na época?

– Conheci ela em uma das viagens que fiz, era linda. Naquela época eu ainda viajava muito por causa do trabalho militar, conheço o Brasil inteiro, já morei em quase todos os estados. Mas enfim, a gente acabou namorando e quando eu fui embora ela não falou nada. No fundo eu sabia que tinha alguma coisa estranha, sempre fiquei com essa história da Ana na cabeça. Por isso quando encontrei o menino não tive dúvida.

– Ele lidou bem com a notícia?

– Sim. Ele me procura bastante, a gente se gosta muito.

A última ex-mulher foi uma juíza, e ele deixa isso claro para os alunos. Márcia recebia ameaças de vez em quando porque julgava casos criminais. “Ela era muito inteligente. É rapaz, tá pensando o quê? Ela lia muito e me ensinava várias coisas sobre direito, leis e até literatura”, diz ele sentado à frente do balcão da padaria, a três quarteirões do CFC. “Acho que elas gostam mesmo é do meu excesso de gostosura, da minha saliência, ri. Ou então da minha tonalidade marrom bombom.”

Wagner não é maior do que qualquer mulher de estatura média. A academia diária lhe rende torso e braços fortes, mas não é suficiente para desaparecer com a barriga arredondada, coberta sempre com uma camisa preta ou branca, de mangas curtas ou compridas. Usa calças jeans escuras e manchadas com tons mais claros, tênis pretos e uma delicada corrente de ouro enfeitada pela imagem de Maria Aparecida. O corte de cabelo é naturalmente militar, rente à cabeça, sem maiores invenções. E o sorriso Colgate contrasta com a pele, escura, mas nem tanto. Completa tudo com uma aliança prata de uns quatro milímetros de espessura.

Quem a colocou em seu dedo há dois anos foi Fabiana, contadora. Assim como dona Dulce e Wagner, ela acabou de passar por uma cama de hospital. O silicone lhe rendeu complicações, mas acabou saindo ilesa. “Wagner é tudo para mim agora. Ele passou todo o tempo do meu lado, e depois ainda teve toda a história da mãe dele. Sempre foi muito atencioso e preocupado”.

 

“Ju, me desculpa, não vou poder me encontrar com você amanhã. Tenho que ir lá no tribunal resolver uns negócios do processo. Até te chamaria para ir comigo, mas você não ia poder entrar – explica-se ao telefone. Me desculpa mesmo, viu querida. Depois te ligo de novo para a gente combinar direitinho, daí eu te pego de carro e você vai comigo para tudo quanto é lugar”.

O Capitão responde por três processos na justiça, herdados da época de PM. Só revela isso para os seus alunos ao fim de duas semanas, no penúltimo dia de aula, mesmo assim sem responder sobre mais detalhes. O professor assume um tom enigmático, proposital, e usa o senso de humor para desviar das perguntas: “O cara ficou desesperado e pulou da janela, olha só!”

O olho esquerdo sofre uma alteração curiosa toda vez que a conversa se relaciona com a morte. As pálpebras se acirram involuntária e repetidamente até que o assunto passe.

– Você já notou que o seu olho treme toda vez em que a gente fala sobre alguma coisa assim?

– Como assim?

– É, o seu olho treme.

– Nossa, nunca reparei. Que estranho.